Uma teologia da solidão: a solidão pode ser produtiva!

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UMA TEOLOGIA DA SOLIDÃO:  A SOLIDÃO PODE SER PRODUTIVA!

Solidão V
Dr. Antonio Maspoli

“Eis que vem a hora e já chegou, em que sereis dispersos, cada um para a sua casa, e me deixareis só; contudo, não estou só, porque o Pai está comigo.” (João 16:32)
Sob a ótica da teologia bíblica reformada as explicações da Filosofia, da Sociologia, da Psicanálise e mesmo da Psicologia Social não são suficientes para  explicar o fenômeno da solidão e mesmo do isolamento social.Tomando as contribuições  da filosofia, da sociologia,  da psicanálise e  da psicologia social como incompletas e apenas como um ponto de partida para a compreensão da solidão, buscaremos na teologia bíblica reformada a abordagem adequada para a compreensão desta condição humana.

Inicialmente não se pode afirmar que a solidão seja apenas um fenômeno puramente psicológico. É forçoso declarar que a solidão tem implicações espirituais profundas. Quanto ao isolamento social a questão da espiritualidade também está presente como pode ser depreendido pela experiência dos pais da igreja.

A solidão como condição humana era desconhecida do homem primordial, Adão, antes de Gênesis 3, isto é, antes da queda que resultou na depravação total da natureza humana como afirma João Calvino nas Institutas da Religião Cristã,  com fundamento em farta literatura da patrística e na literatura paulina. Adão experienciava a mais completa comunhão com o Criador, com a natureza, com ele mesmo e com o próximo, no caso Eva. A depravação total da natureza humana pode ser compreendida pela verificação dos seguintes textos dentre outros: Romanos  do capítulo 1  ao capítulo 7,e Salmos 32 e 51,  apenas para fazer referência a alguns textos bíblicos abalizado sobre o tema.

A partir da leitura deste paço das Sagradas Escrituras podemos afirmar que a queda do primeiro homem não abalou apenas o seu espírito como querem acreditar alguns, estremeceu também as fundações da sua  mente  produzindo  aquilo que podemos chamar de Estados Alterados da Consciência. A queda produziu não apenas a morte espiritual de Adão, produziu também uma profunda modificação em sua consciência de Deus, da natureza, de si mesmo e do próximo.  Gênesis 3:5-7 afirma claramente que a digestão e posse do fruto do conhecimento do bem e do mal produziram uma alteração na consciência de Adão em relação à posse e domínio do conhecimento.

Não que Adão antes da queda não fosse dotado da habilidade da inteligência, da memória e da cognição. Em Gênesis 2:19  Adão foi designado por Deus para denominar todos os seres  viventes da natureza. Dar nome a um ser é algo que envolve todas as funções mentais e perceptivas. E segundo o relato bíblico Adão saiu-se muito bem em sua tarefa. Contudo após a queda não só o espírito de Adão morreu espiritualmente pela sua desobediência a Deus como a sua mente ficou abalada a ponto dele experimentar pela primeira vez a vergonha e o medo Gen. 3: 8-10. A queda alterou a forma como Adão passou a apreender a experiência do conhecimento, do auto conhecimento e do hetero conhecimento, modificou ainda a qualidade deste conhecimento, daí que a revelação natural prefigurada no Salmo 19 não ter em si mesma a suficiência para que o homem conheça a natureza de Deus e da sua salvação, tornando necessário à produção pela providência divina da revelação especial, que é um registro seletivo dos atos de Deus na história. Registro este que se encontra apenas nas Escrituras do Velho e do Novo Testamento, na  Bíblia Sagrada, a Palavra de Deus, nossa única regra de fé e prática.

 A queda abalou também a inteligência emocional de Adão, isto é suas habilidades para o desenvolvimento de relações intrapessoais e interpessoais.  Conforme o relato de Gênesis 2  Adão não demonstrava nenhuma dificuldade de relacionamento com Deus, consigo mesmo e com o próximo antes da queda. Contudo já o relato de Gênesis 3:10-15, após a queda, demonstra que Adão já havia comprometido estas habilidades, este comprometimento da inteligência emocional e  espiritual de Adão se refletirá não apenas em seus relacionamentos pessoais que estarão todos comprometidos pelo pecado, se refletirá especialmente nas relações da sua descendência, como demonstra as atitudes de Caim para com ele próprio e para com seu irmão Abel, que resultou no fratricídio, nos arquétipos dos crimes hediondos. Especialmente no relato de Gênesis  4: 1-7 quando Caim demonstra  não estar apto para lidar com seus próprios desejos e emoções e menos ainda com os desejos e emoções do seu irmão Abel.

Voltando à Solidão, o texto de Gênesis 3:22-24 demonstra claramente que a queda rompeu a comunhão existente entre Deus e o Homem e o lançou num profundo estado de solidão.Além da consideração espaço temporal da expulsão da primeira família do paraíso, deve se considerar também o conteúdo simbólico deste ato divino. Adão agora estava no mundo sem Deus e sem ninguém, literalmente sem pai, nem mãe, sem alguém  com quem pudesse contar.

Neste sentido a teologia bíblica reformada afirma que a solidão é o estado alterado da consciência produzido pela queda, este estado teve profundas conseqüências sobre as habilidades relacionais do ser humano, que passou em alguns casos, inclusive a fugir da comunhão com o outro segundo o relato de Gênesis 3:9-10. Aqui Adão não apenas foge da presença de Deus como passa a temer profundamente esta presença. O outro, torna-se o estranho outro, aquele  que se deve temer, que se deve evitar, de quem se deve fugir.

O homem havia perdido  as habilidades para desenvolver a relação pessoal com Deus, com a natureza, consigo mesmo e com o próximo. O solitário sente-se em alguns casos um abandonado de Deus. Como se Deus houvesse esquecido dele, por outro lado, o solitário desenvolve muitas vezes um temível sentimento de estranhamento diante de si mesmo,  muitas vezes diante da sua própria imagem, da imagem do outro e da natureza, não sabe se quer, quem ele é. E este sentimento de estranhamento o leva a fugir do contato com Deus e com o próximo. O produto deste comportamento é o sentimento de solidão e este independe inclusive da presença do outro. Solidão mesmo é sentir só,  mesmo estando com alguém.

A solidão acomete homens e mulheres, jovens e crianças, independente de sexo, cor, raça, nível sócio econômico e mesmo da religião. O solitário sente-se em estado de profundo desamparo mesmo  ao lado de um cônjuge atencioso, de um amigo fiel, de um irmão amoroso, ou mesmo diante de uma comunidade evangélica dinâmica. Aquele que vivencia a experiência da solidão sente dificuldade inclusive de sentir-se participante da igreja, corpo vivo de cristo. O relacionamento com o outro é percebido como distante. Os fatos acontecem em sua volta no entanto jamais chegam ao seu coração. A solidão entristece e fragiliza e desumaniza o ser humano.

Como romper com os grilhões da solidão? Esta é uma pergunta que não pode calar. Do ponto de vista da teologia bíblica reformada somente o novo nascimento proposto em João 1:12-13 produz o estado de   adoção de filhos  legítimos   de Deus, mediante a obra vicária de Jesus Cristo, cumprindo a promessa de Romanos 8: 15-17. Este novo nascimento restaura a comunhão com Deus, a comunhão com Deus restabelece a comunhão do homem com o seu próprio coração e o resultado destes fatores pode ser a comunhão com o próximo. A obra do espírito Santo no coração do cristão restaura as suas habilidades relacionais com Deus, como proposto em II Cor. 5: 18 –21, com  ele próprio, conforme Romanos 8:26 a 30,  II Cor. 3:18, rompendo com o sentimento de estranhamento de Romanos 7:24, até culminar com o restabelecimento de suas relações com a natureza e com o próximo, “Deus faz com que o solitário habite em família.”Salmo 68 :6.

A solidão se estabelece como um hábito, uma atitude e uma vez estabelecido  será necessário um esforço da parte do novo convertido e mesmo do cristão experiente para superá-lo. Caso seja difícil vencer   o hábito da solidão, ou mesmo superar sentimento de estar só, que muitas vezes pode ser apenas a memória desta sensação. A Bíblia Sagrada, a Palavra de Deus, no ensina a utilizar produtivamente a solidão.

A solidão pode ser uma grande oportunidade para ficar a sós com Deus e receber aquela benção especial que o Senhor pode dar. Gênesis 32:24 “E ficando ele só.”.veja que Deus apareceu a Jacó num momento de grande aflição para este, quando todos os haviam abandonado e o mesmo encontrava-se solitário. A experiência de Elias, em I Reis 19:1-19 é semelhante a esta, quando Deus vem até Elias para confortá-lo, ele estava absolutamente só, encavernado, deprimido, desanimado. O mesmo diga-se de Moisés no Monte Sinai, de Davi no Vale da Sombra da Morte, de Paulo em Roma,  de  João na ilha de Patmos, de Cristo Jesus quando este se preparava para o Gólgota.
A solidão pode ser um momento para o  exercício da vida devocional, um momento especialmente voltado para a oração e leitura e reflexão na Palavra de Deus, Mat. 6: 5-14, a prática do exercício devocional leva ao crescimento espiritual, ao amadurecimento na fé.

Os grandes artistas plásticos, escritores, escultores, músicos, pesquisadores, os homens e mulheres de grandes realizações em fim, foram aqueles que souberam tirar proveito da solidão e não mergulharam e nem se entregaram aos sentimentos destrutivos  de alta comiseração. Watchman Nee escreveu: “ O Santo caminha sozinho”. O autor deste texto acrescentaria o santo caminha sozinho  pelo caminho de Cristo, pisando nas suas pegadas. Todo  cristão deve passar, porém,  por este caminho, um de cada vez, com o seu próprio pé, sozinho.  I Ped. 2:21. A solidão pode ser produtiva.

Já o isolamento social é diferente da solidão.  Ocorre o isolamento social quando surge  uma solução de continuidade no percurso da existência humana, quando alguém perde o amor da sua vida, quando permanece um longo tempo num leito de enfermidade, quando viaja, quando perde um ser querido, quando escolhe permanecer  solteiro, ou mesmo quando tem de passar algum tempo em prisão ou quando precisa realizar uma grande obra. Nesta caso o isolado socialmente pode não ser acometido pelo sentimento de solidão. A solidão é espiritual e   psicológica, já o isolamento social é físico.
Não é incomum alguns santos optarem pelo isolamento social, isto ocorreu de forma explicita durante o período do monasticismo. No caso do protestantismo reformado a questão é mais complexa posto que o calvinismo desconhece o monasticismo e o santo é desafiado a cada dia a viver e testemunhar a sua fé no mundo, no espírito de João 17. Esta reflexão terminaria afirmando que o monastério do protestante calvinista é ele mesmo, posto que o mesmo “é    o templo do espírito santo”.
O isolamento social também pode ser produtivo. Especialmente se este puder ser planejado. O certo é que pouco se produz em meio a multidão, aquele que tem um milhão de amigos, pode não dispor do tempo necessário para dedicar-se carinhosamente a todos eles. E se tentar atender a todos pode não dispor daquele tempo necessário para dedicar-se a Deus e ao cuidado de si mesmo.

Antonio Maspoli
Antonio Maspoli
Sou Antonio Maspoli, cidadão do mundo, Teólogo e Psicólogo. Deus é a minha herança pessoal, meu caso de amor! Deus encantou-me com o a sua presença. E abriu-me as porta do conhecimento do numinoso: "Eu cri, por isso compreendi" (Agostinho). Desde então dediquei a minha vida a conhecer a Deus. E a minha existência a compreender a natureza humana.

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