Um olhar sobre depressão e religião numa perspectiva compreensiva

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24 de julho de 2017
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24 de julho de 2017

Antonio Maspoli de Araujo Gomes*

Resumo

Esta pesquisa é uma abordagem compreensiva e interdisciplinar da depressão. As pes­quisas sobre depressão no contexto da religião ainda são escassas no Brasil. Através da revisão da literatura serão demonstrados alguns estudos que vêm sendo realizados neste campo. Busca esclarecer também algumas relações entre a depressão e as crenças religiosas. A depressão é analisada na moderna psiquiatria, na Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung. Este trabalho busca também compreender algumas relações entre depressão e religião.

Palavras-chave: depressão; abordagem fenomenológica; religião e depressão; psicologia analítica de Carl Gustav Jung; psicoterapia.

A glance at depression and religion in a comprehensive perspective

Abstract

This research is a comprehensive and interdisciplinary approach of the Depression. The research on depression in the context of religion are still scarce in Brazil. Through literature review this paper will demonstrate some studies which have been developed in this field. The relationship between depression and religion is examined in modern psychiatry, in analytical psychology of Carl Gustav Jung etc. This paper also seeks to understand some relationships between depression and religion.

Keywords: depression; religion e depression; comprehensive approach; analytical psychology of Carl Gustav Jung; psychotherapy.

E-mail: maspolipeixe@yahoo.com.br .

Consideraciones sobre depresión y religión desde una pers­pectiva comprensiva

Resumen

Las investigaciones acerca de la depresión en el contexto de la religión aún son muy incomunes en Brazil. El presente trabajo intenta traer uma contribución hacia aclarar unos estudios que vienen siendo realizados en este campo. Además, busca compreen­der la posible relación entre la depresión y las creencias religiosas. És decir, considerar aspectos de la religión para el entendimiento de la depresión. Así que, las relaciones entre la depresión y la religión es analizada en la moderna psiquiatría, como también en la Psicología Analítica de Carl Gustav Jung, etc. Plantea además, entender algunas relaciones entre depresión y religión.

Palabras clave: la depresión; el enfoque fenomenológica; la religión y la depresión; la psicología Analítica de Carl Gustav Jung; psicoterapia.

Introdução

A depressão está na ordem do dia. Dados divulgados pela Organiza­ção Mundial da Saúde (OMS) (2009) e publicados pelo Jornal o Estado de São Paulo (DEPRESSÃO. 2010) apontam que, nos próximos vinte anos, a depressão deve se tornar a doença mais comum do mundo, afetando mais pessoas do que qualquer outro problema de saúde, incluindo câncer e doen­ças cardíacas. Segundo a OMS, a depressão será também a doença que mais gerará custos econômicos e sociais para os governos, devido aos gastos com tratamento para a população e às perdas de produção.

Atualmente, mais de 450 milhões de pessoas são afetadas diretamente por transtornos mentais, a maioria delas nos países em desenvolvimento, segundo a OMS. As informações foram divulgadas durante a primeira Cúpula Global de Saúde Mental, realizada em Atenas, na Grécia. Os números da OMS mostram claramente que o peso da depressão (em termos de perdas para as pessoas afetadas) vai provavelmente aumentar, de modo que, em 2030, ela será sozinha a maior causa de perdas (para a população) entre todos os problemas de saúde, afirmou à BBC o médico Shekhar Saxena, do Departamento de Saúde Mental da OMS. Ainda segundo Saxena, a depressão é mais comum do que outras doenças que são mais temidas pela população, como a Aids ou o câncer.

Em todo o mundo, os deprimidos são milhões. As estatísticas mais recentes da OMS indicam que 5% da população sofrem de depressão, com prevalência das mulheres (4,5 a 9,3%) sobre os homens (2,3 a 3,2%). De qualquer modo, é previsto que 10% das pessoas podem sofrer ao menos um episódio depressivo ao longo da vida. O início da doença pode ocorrer em qualquer idade, mas a adolescência e os primeiros anos da juventude são os períodos de maior risco, sobretudo para as mulheres.

Os homens, ao contrário, correm risco de sofrer de depressão prin­cipalmente entre os 35 e os 44 anos de idade. Aproximadamente, dois em cada dez casos de depressão prolongam-se no tempo, tornando-se crônicos. Nas mulheres, a frequência da cronicidade é quatro vezes maior do que nos homens. Os períodos de prevalência da depressão são mais comuns no sexo feminino, sendo 3,2% no feminino e 1,9% no masculino. Estima-se que 5,8% dos homens e 9,5% das mulheres passarão por períodos depressivos em 12 meses. A depressão contínua afeta de 15% a 20% das mulheres e de 5% a 10% dos homens. Em 20% dos casos, a depressão segue um curso contínuo, especialmente quando não há tratamento adequado.

Embora a depressão possa se manifestar em qualquer momento, a in­cidência mais alta é nas idades médias; mas há um crescimento reconhecido durante a adolescência e o início da vida adulta. Portanto, manifesta-se com maior frequência entre os vinte e cinquenta anos. Aproximadamente dois terços das pessoas com depressão não fazem tratamento. Entre os pacientes que procuram o clínico geral, apenas 50% são diagnosticados corretamente. A maioria dos pacientes não tratados tentará suicídio pelo menos uma vez na vida. Destes, registra-se que 17% conseguem se matar. (Pfizer, 2008).

Este dado tem chamado a atenção da comunidade cientifica internacional e a depressão tem sido estudada e pesquisada visando melhor compreender suas causas, seus sintomas, formas de tratamento, relação com a cultura e com a religião. Visando contribuir com estes estudos sobre o esclarecimen­to das relações da depressão com a religião no Brasil, esta pesquisa é uma abordagem compreensiva e interdisciplinar da depressão. As pesquisas sobre depressão no contexto da religião ainda são escassas no Brasil. Através da revisão da literatura, serão demonstrados alguns estudos que vêm sendo realizados neste campo; busca esclarecer também algumas relações entre a depressão e as crenças religiosas. A depressão é analisada na moderna psi­quiatria, na Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung. Este trabalho busca também compreender algumas relações entre depressão e religião.

A evolução histórica do conceito de depressão

A depressão é uma enfermidade classificada pelo CID-10 (CID-10, 1993) na categoria dos transtornos do humor e deve ser considerada uma doença. O tempo de duração do surto, sua intensidade e persistência variam de acordo com o tipo de depressão classificada. É uma enfermidade mar­cada por crises episódicas, ou seja, tende a se repetir, produzindo, por isso, frequentes recaídas e recidivas. Consiste no século XXI em uma das doenças mais comuns da era moderna, embora seja conhecida desde a antiguidade.

A transição entre a concepção mágico-religiosa da doença para uma com­preensão da enfermidade como fenômeno natural foi longa e ocorreu no Mediterrâneo, especialmente no Egito e na Grécia.

A depressão foi percebida desde a antiguidade clássica. A Ilíada, de Ho­mero, registra o suicídio de Ájax, que teria sido produzido por uma depressão. O tratamento científico das doenças mentais começou com os egípcios e posteriormente com os gregos. Hipócrates (460 a.C.-370 a.C.) é considera­do o pai da medicina. Ele utilizou pela primeira vez a palavra melancolia. A melancolia, para Hipócrates, correspondia à ação maligna da bile negra (ou atrabilis). Melan, em grego, significa negro, e colis significa bile. O termo melancolia atravessou a história e ainda designa, em nosso tempo, estados depressivos, sendo o termo usado até hoje como sinônimo de depressão (SOLOMON, 2002, p. 265). A teoria de que a depressão seria causada por alterações de humor, pela bile negra, continuou sendo utilizada por Cornelius Celsus em seu tratado de medicina, por volta do ano 100 a.D. Essa concepção continuou sendo usada por outros médicos, incluindo Arateus (120-180 a.D.), Galeno (129-199 a.D.) e Alexandre de Talles, no século VI, dentre outros. Arateus fez uma descrição completa dos sintomas da depressão:

O melancólico se isola; tem medo de ser perseguido e aprisionado; atormenta-se com idéias supersticiosas; sente-se aterrorizado; transforma suas fantasias em verdade; queixa-se de doenças imaginárias; amaldiçoa a vida e deseja mor­rer. Acorda subitamente e é presa de um grande cansaço. Em certos casos a depressão parece ser uma espécie de semimania: os pacientes estão sempre obcecados com a mesma idéia e podem ser deprimidos e enérgicos ao mesmo tempo. (SOLOMON, 2002, p. 269).

Foucalt na obra Doença Mental e Psicologia afirma que a psiquiatria, tal como a conhecemos hoje, começou com a Stultifera Nave, embarcação onde os doentes mentais eram colocados e abandonados à própria sorte (FOUCAULT,(1984) , em fins da Idade Média. Nessa época, a depressão foi considerada uma força mística de alguma entidade misteriosa. O Renasci­mento considerava a melancolia uma espécie de loucura parcial, em oposição aos transtornos gerais da inteligência, e não implicava forçosamente com a tristeza. Esquirol distinguia no grupo de loucuras parciais ou monomanias, uma monomania propriamente dita com um elemento de tristeza. Esta era denominada lipemania. No século XVIII, foram realizados estudos sobre o tema, por meio de pesquisas em instituições e hospitais especializados. A partir da obra de Phillipe Pinel (1745-1826), então professor da Faculdade de Medicina de Paris, a depressão passa a ser tratada como assunto médico psiquiátrico (FOUCAULT, 2002).

Em 1882, o psiquiatra alemão Karl Kahlbaum (apud KAPLAN; SADO­CK; GREBB, 1997, p. 78-80) utiliza o termo ciclotimia, a fim de descrever a mania e a depressão como estágios da mesma doença. O médico Pinel, do século XIX, contudo, prefere utilizar o termo depressão. No final desse mesmo século, depressão tornou-se sinônimo de melancolia: uma condição caracterizada pela diminuição do ânimo, de coragem ou iniciativa, e uma tendência a pensamentos tristes.

O termo depressão referia-se a um sintoma que gerou, em todos os tempos, grande polêmica que se arrasta até a atualidade. Kaplan e Sadock descrevem três usos diferentes para o termo depressão: o uso leigo, que se refere à tristeza e ao desânimo, não estando necessariamente relacionado a uma doença; o uso do termo representando um sintoma que indica humor rebaixado, deprimido, podendo ser encontrado em inúmeras patologias, e o uso para definir uma síndrome que reúne um conjunto de sinais e sintomas relacionados principalmente aos denominados transtornos de humor. O termo depressão tem diferentes significados em vários campos científicos. Na neurofisiologia, depressão refere-se a qualquer diminuição na atividade eletrofisiológica; por exemplo, depressão cortical. Para o farmacologista, já depressão refere-se ao efeito de drogas que diminui a atividade de um órgão doente (KAPLAN, SADOCK; GREBB, 1997, p. 80-85).

Depressão (do latim depressione) é uma palavra frequentemente utiliza­da para descrever uma gama imensa de sentimentos negativos e sombrios. Em primeiro lugar, depressão não é um estado de tristeza profunda, nem desânimo, preguiça, estresse ou mau humor. A depressão é diferente da tristeza, pois a tristeza geralmente tem uma causa conhecida e duração determinada no tempo e no espaço. Já a depressão envolve uma gama de sentimentos difusos de longa duração no tempo e no espaço, geralmente relacionados à angústia. A depressão, enquanto evento psiquiátrico é algo bastante diferente da tristeza. Mesmo assim, em alguns casos, podemos considerar a depressão como uma reação natural da pessoa humana em períodos de transição, especialmente em tempos de mudanças e cresci­mento, em épocas que antecedem novos horizontes de amadurecimento do ser em constante processo de desenvolvimento. No entender de Henry Ey (1985, p. 183-237), na depressão, ao distúrbio de humor, encontram-se associados a inibição e o sofrimento moral. No entanto, para Kaplan e Sadock, este distúrbio de humor é acompanhado de deficiências cogniti­vas, psicomotoras, psicofisiológicas e interpessoais (KAPLAN; SADOCK; GREBB, 1997, p. 80-85).

A psiquiatria moderna compreende a depressão como sendo uma de­sordem do funcionamento da bioquímica cerebral que afeta e compromete o funcionamento normal do organismo, com reflexos ou consequências na vida pessoal, em seus aspectos emocionais ou psicológicos, familiares e sociais (SOLOMON, 2002). A doença depressiva deve, portanto, ser examinada sob o ponto de vista biológico, genético, cognitivo, social, história pessoal, econô­mica e espiritual. A depressão corresponde a um estado de doença no qual o cérebro e a mente têm seu funcionamento normal alterado e a personalidade do paciente sofre as consequências. Dizendo de outra forma, a depressão tem sua base biológica nas alterações bioquímicas e depende, em muitos casos, de condições psicológicas do meio ambiente para ser desencadeada.

Um olhar compreensivo sobre o fenômeno da depressão

A causa exata da depressão permanece desconhecida. A explicação mais plausível aponta para um desequilíbrio bioquímico, especialmente na produção de endorfina e serotonina, responsáveis nas sinapses dos neurônios pela produção e controle do estado de humor. Na depressão, bem como em todas as psicoses em geral, o sujeito sofre de alterações nas estruturas dos neurônios, mormente no funcionamento das sinapses. Essa afirmação baseia-se na comprovada eficácia dos antidepressivos. O fato de ser um desequilíbrio bioquímico não exclui tratamentos farmacológicos e psicoló­gicos. A medicação apropriada pretende restaurar o equilíbrio bioquímico e a psicoterapia, o equilíbrio psicológico e pode levar a pessoa a obter uma compensação bioquímica.

A depressão manifesta-se quando determinados sistemas de transmissão entre as células do cérebro, ou seja, os neurônios se alteram. Com efeito, para que o sistema nervoso funcione bem, é necessário que a transmissão das mensagens elétricas de um neurônio para outro ocorra através do ponto de contacto entre uma célula e outra, que se designa por sinapse. Quando uma mensagem elétrica enviada por um neurônio chega à sinapse, provoca a liberação de determinadas substâncias químicas, os neurotransmissores, que funcionam como mensageiros, depois de passarem ao neurônio seguin­te, onde provocam a saída de um novo sinal elétrico. Consequentemente, quando a atividade de alguns neurotransmissores se altera, podem ocorrer “transmissões perturbadas”. Especificamente no aparecimento da depressão, são dois os neurotransmissores principalmente implicados: a serotonina e a noradrenalina, que estão envolvidas em todas as funções que se apresentam alteradas durante a depressão e que provocam os sintomas característicos desta. (DEUS, 2008).

Parece existir correlação entre certos acontecimentos estressantes na vida das pessoas e o início de um episódio depressivo. Contudo, tais eventos não podem ser responsabilizados pela manutenção da depressão. Trabalhos recentes demonstram que mais do que a influência genética, o ambiente familiar durante a infância pode ser um dos fatores responsáveis pelos surtos depressivos. Os eventos estressantes oriundos do meio prova­velmente disparam a depressão reativa nas pessoas predispostas, vulneráveis. Citamos, como exemplo, o assédio moral no trabalho, que tem sido um fator desencadeante da depressão. A relação entre etiologia, sintomas, processos bioquímicos, resposta ao tratamento e evolução dos transtornos de humor ou afetivos ainda não é suficientemente bem compreendida para permitir sua classificação de forma a receber aprovação universal (BAHLS, 1999). Até o momento, nenhum marcador biológico definitivo para os distúrbios afetivos foi encontrado, sendo a questão de sua classificação ainda aberta e campo de acirradas discussões (GUIMARÃES, 1993).

Os limites entre depressão e tristeza ainda não são muito claros. A tristeza é uma reação saudável do cérebro em situações de estresse: perda de um ente querido, perda do emprego, perda do amor, doença etc. A tristeza geralmente tem uma causa determinada. O sujeito sabe por que se encontra triste. Sabe exatamente qual é a causa da sua dor. Removendo-se a causa, a tristeza vai embora (MALTA, 2010, p. 97). A depressão também gera tristeza. A tristeza do deprimido, por outro lado, manifesta-se difusa. Não tem uma causa certa.

Na atualidade, o descobrimento de medicamentos antidepressivos colo­cou o tratamento com antidepressivos no primeiro plano no tratamento da depressão. Outro passo significativo para o tratamento da depressão, após o aparecimento, por volta dos anos de 1950, dos primeiros fármacos antidepres­sivos, deve-se a um Prêmio Nobel, o americano Julius Axelrod, que, em 1960, descobriu as substâncias que permitem a transmissão dos impulsos nervosos (neurotransmissores). Graças a essa descoberta, deu-se um passo a frente no conhecimento da noradrenalina e da serotonina, e foram desenvolvidos ou­tros fármacos (tricíclicos e inibidores das monoaminoxidases), até se chegar aos modernos SSRIs, inibidores seletivos da recaptação da serotonina, aos NSRIs, inibidores seletivos da recaptação da noradrenalina etc. (KAPLAN; SADOCK; GREBB, 1997, p. 80-85; SOLOMON, 2002, p. 108).

O deprimido sofre pela ausência de amor. Ele não se sente amado e não ama. Não ama a Deus, não ama a si mesmo e, no mais das vezes, sente medo e ansiedade diante do amor demonstrado pelo outro. O deprimido também não consegue amar o próximo. Vive aprisionado aos próprios medos, angús­tias, ansiedades, desilusões e decepções reais ou imaginárias. “A depressão é a imperfeição no amor. Para podermos amar, temos que ser criaturas capazes de se desesperar ante as perdas, e a depressão é o mecanismo desse desespero” (SOLOMON, 2002, p. 15). Quando estão bem, alguns indivíduos deprimidos amam a si mesmos, alguns amam outros, alguns amam o trabalho e alguns amam a Deus: qualquer uma dessas paixões pode fornecer o sentido vital de propósito, que é o oposto da depressão. O amor nos abandona de tempos em tempos e nós abandonamos o amor. Na depressão, a falta de significado de cada empreendimento e de cada emoção, a falta de significado da própria vida torna-se evidente. O único sentimento que resta nesse estado despido de amor é a insignificância (RANGÉ, 2001, 145-150).

Depressão é solidão, vazio existencial. Não aquela solidão natural a todo ser humano. É uma solidão maior. Trata-se daquela solidão diante do outro, o próprio Inferno de Dante. “É a solidão dentro de nós que se torna manifesta, e destrói não apenas a conexão com os outros, mas também a capacidade de estar apaziguadamente apenas consigo mesmo” (SOLOMON, 2002, p. 15). A depressão destrói a paz, o amor próprio e a segurança pessoal. Abala a fé e a esperança no futuro. É a mais segura das prisões humanas. O deprimido desa­credita no amor, na fé e na esperança e mergulha no mais silencioso e terrível dos desesperos humanos: o desespero acompanhado, aquele que não acredita, não suporta e nem aceita a ajuda de outrem (FÉDIDA, 2002, p. 177).

O deprimido sente uma tristeza infinita. Uma espécie de banzo. Não sabe por que está triste. Não tem controle sobre a própria tristeza. Está triste e pronto! Ter-se uma boa razão para a tristeza é bom; se não tiver motivo, melhor. O depressivo chora. Chora profundamente. Soluça! Não sabe por que chora. Chora com motivo ou sem motivo. O choro é acompanhado de uma dor profunda, que nasce no fundo da alma. Dor que dilacera o coração, que derrama a vida como um balde despejado. O sorriso desaparece no rosto do deprimido. A face do deprimido é uma máscara de dor e sofrimento. Às vezes é somente uma cara inexpressiva, neutra, sem sentimento, a cara da depressão (SOLOMON, 2002).

A vida do deprimido é monótona. Parece mais um sonho em preto e branco, ou melhor, um filme em branco e preto. O tempo arrasta-se em uma sucessão de eventos sem lógica, sem sentido, aprisionado no chronos. A vida não tem sentido. O trabalho não faz sentido. O dia parece apenas como uma sucessão de fatos marcados pelos atos rotineiros de comer, beber, dormir e acordar. Acordar para fazer tudo novamente!

O fracasso é o melhor companheiro daquele que padece de depressão. Sente-se fracassado o tempo todo. Acaricia o fracasso como a um amigo íntimo. Não divisa possibilidade alguma de sucesso. Este mais parece uma miragem! Não tem autoconfiança. A vida é uma areia movediça. E parece esvair-se aos seus pés. Parece que Deus se diverte em culpá-lo, castigá-lo, feri-lo, humilhá-lo. O amor próprio desaparece. Em seu lugar, fica aquele sentimento de vazio que todo deprimido conhece.

A depressão gera insônia. O deprimido troca o dia pela noite. O su­jeito deprimido passa a ter hábitos noturnos. Quando a noite cai, principia a acordar, quando o dia amanhece, começa a dormir. O melhor lugar do mundo, o mais aconchegante, o mais macio, o mais confortável, o mais confiável é a cama. O deprimido tem a cama presa às suas costas. Ele e a cama são irmãos siameses. Quando consegue dormir, não quer mais acordar. O sono aparece como o último refúgio. E a insônia gera irritação. O deprimido é irritadiço. Neurastênico mesmo. Não tem domínio sobre as próprias emoções. Não tem paciência. Perde a cabeça com facilidade. Explode à toa! Não sabe a origem da própria irritação e nem precisa. Está sempre irritado, e isso basta!

A depressão esparrama a concentração e fragiliza a vontade. O deprimi­do não consegue se concentrar nas atividades mais simples da vida cotidiana. Também não sente vontade de fazer nada. Sua concentração é dispersa e sua vontade é frouxa, difusa, nula. Ele começa inúmeros projetos, contudo não persevera em nenhum. Tem muita dificuldade de levar um projeto até o fim. (DEL PORTO, 2004).

Sua sexualidade torna-se descontrolada. Geralmente não tem vontade de manter relações sexuais, o interesse pelo sexo praticamente desaparece. Quando a vontade ressurge, contudo, é exagerada, sem limites… O deprimido, às vezes, pode oscilar entre dois extremos: da pureza à libertinagem.

A depressão culmina no namoro com a morte, que aparece, no mais das vezes, como a única saída. O deprimido sabe que alguma coisa está morrendo em si mesmo. Não sabe o que é e, por isso, acredita que a morte pode acabar com tudo que está errado de uma só vez. Finalmente, o risco de suicídio não deve ser subestimado. Cerca de 25% dos deprimidos que não são devidamente tratados tentam pôr termo à vida, e cerca de metade consegue levar a cabo os seus intentos (DEUS, 2008). Os deprimidos que se suicidam têm baixos níveis de serotonina no cérebro e a carência desse neurotransmissor pode favorecer comportamentos depressivos e agressivos, potencializando o risco de suicídio. Com tratamento correto, 70% a 90% dos pacientes deprimidos recuperam-se (DEUS, 2008).

Há alterações do apetite (mais comumente a perda do apetite, podendo também ocorrer o seu aumento). Muitas vezes, a pessoa precisa esforçar-se para comer, ou ser ajudada por terceiros a se alimentar. Algumas formas específicas de depressão acompanham-se de aumento de apetite (hiperfagia), que se mostra caracteristicamente aguçado por açúcar e doces.

A depressão é entremeada por estados de ansiedade, que não tem hora para aparecer. É um inimigo oculto e comum a todo deprimido. A ansie­dade, às vezes, produz exaltação, irritação, fome, paralisação. Todo estado 90 Antonio Maspoli de Araujo Gomes Estudos de Religião, v. 25, n. 40, 81-109, jan./jun. 2011 • ISSN Impresso: 0103-801X – Eletrônico: 2176-1078

de ansiedade generalizada esconde uma depressão, escamoteia um luto. As crises de ansiedade geradas pela síndrome de pânico obnubilam geralmente um quadro depressivo grave (RANGÉ, 2001, p. 150-200).

Metaforicamente, a depressão é um túnel do qual parece impossível sair; um abismo cinzento que engole a vontade de viver; o vazio, a angústia que aperta a garganta; uma solidão sem fim. Um poço sem fundo que teima em atrair o deprimido para o seu interior desconhecido. Pode-se afirmar que, para alguns deprimidos, descrever a sensação de inutilidade, tristeza, angústia é quase inútil, porque tal vivência no interior da alma do deprimido significa que qualquer coisa se rompe subitamente e faz cair à vida em pedaços, sem deixar qualquer saída. E, ao mesmo tempo, o sofrimento é tão grande que o isola quase que completamente do mundo exterior, a ponto de parecer que os outros não conseguem compreender o tormento interior que dilacera a sua existência. A depressão, nestes casos, produz aquele sentimento de estra­nhamento diante do mundo e do outro que todo deprimido conhece muito bem. Episódios depressivos e quadros de depressão podem acontecer em todas as fases do desenvolvimento humano.

Depressão na psicologia analítica de Carl Gustav Jung

Carl Gustav Jung (1994a), p. 199-219) adota uma explicação da depressão considerando seus aspectos redutivos, negativos, bem como seus aspectos progressivos, positivos. Quanto aos aspectos positivos, Jung postula que a doença mental é a melhor condição da mente humana diante da realidade. A mente adoece para preservar sua própria psique, sua própria sobrevivên­cia. A depressão está ligada à regressão em seus aspectos regenerativos e enriquecedores. A energia psíquica volta-se para o próprio indivíduo em um processo forçado de introversão. A energia introjetada que permanece repre­sada precisa ser consumida no sofrimento, na dor, na angústia e, até mesmo, na apatia. A abordagem junguiana procura reforçar aquilo que ainda existe de saudável e bom no sujeito. Procura fortalecer seus vínculos familiares, suas crenças religiosas, e tem por objetivo dialético adaptar o sujeito ao seu mundo e transformar a consciência do indivíduo para que este participe do processo de transformação alquímica e espiritual de sua existência. A análise junguiana postula uma posição positiva em relação à família, ao grupo social e à própria religião do sujeito (JUNG, 1988).

Em relação ao primeiro, ele segue a interpretação freudiana, segundo a qual, de um lado, a psicogênese da depressão deve ser rastreada nas experi­ências da primeira metade da vida, nas experiências infantis de separação ou perda da figura materna, nas experiências de privação afetiva. Nesse primeiro movimento, por um mecanismo de introjeção, o sujeito redireciona a energia psíquica contra si mesmo. A libido passa a ser consumida na melancolia. Todo o medo, toda a angústia, todo o sofrimento provocado pela perda do objeto amado volta-se contra o self. Jung considera o self como uma imagem arquetípica do potencial mais pleno do homem, semelhante à imago dei. O self também pode ser compreendido como um princípio unificador e central da personalidade humana. O self seria o centro, a totalidade da personalidade, que abrange tantos os aspectos conscientes quanto inconscientes da vida psíquica (SAMUELS et al., 1988, p. 193).

O self passa a consumir esta energia num sofrimento constante. Este modelo leva o paciente a compreender as causas e o sentido da depressão. Busca não só o porquê do sofrimento; busca também o para quê! Na análise junguiana, o paciente precisa compreender a necessidade de reformular suas atitudes perante a vida cotidiana. Essa reformulação envolve as atitudes re­lacionadas a seguir: retirar-se da pressão da vida cotidiana; buscar o essencial por meio da contemplação e da meditação. Buscar o centro de si mesmo e da própria existência; adentrar o medo até ver ruírem as defesas que causam a repressão da energia e produzem a depressão; aprender a enfrentar e res­ponder aos desafios da existência humana; aceitar a mortalidade do corpo e a transcendência da alma (JUNG, 1988, p. 495-514); acordar para as próprias necessidades; reconciliar-se com o biorritmo próprio; encontrar o sentido da vida para dar vazão à energia represada; aceitar conscientemente os próprios papéis sociais; procurar resolver os problemas do sono; criar uma rotina para si mesmo e cumpri-la; encontrar formas saudáveis para expiar as próprias culpas, sejam reais ou imaginárias.

A análise junguiana (DAWSON & YOUNG-EISENDRATH, 2002, p. 101-127 e p. 183-212) é um relacionamento dialético de longo prazo; no mínimo, dois anos de duração. Consiste em um trabalho dirigido para a investigação do inconsciente do paciente, seus conteúdos e processos, a fim de aliviar uma condição psíquica sentida como problemática para a vida cotidiana, posto que já interfere nas relações, no trabalho, na administração do tempo e, até mesmo, nos estudos do paciente.

A depressão pode ser neurótica ou psicótica. Embora tenha sempre como ponto de partida a queixa do paciente, a análise procura envolver a história de vida, o presente e o futuro dentro do contexto da pessoa analisada. O analista busca compreender o sintoma apresentado dentro do processo de individuação vivenciado pelo sujeito numa concepção holística do doente e da doença.

Realmente é impossível fazer o tratamento da alma e da personalidade humana, isolando umas partes do resto. Nos distúrbios psíquicos talvez apareça com maior clareza do que nas doenças físicas, que a alma é um todo, onde tudo depende de tudo. Com a sua neurose, o doente não nos põe em presença de uma especialidade, mas de toda uma alma, e com ela, de todo um mundo; essa alma depende dele, e sem ele nunca será possível entendê-la satisfatoriamente. (JUNG, 1988, p. 91).

Depressão e religião

O conceito de religião em Carl Gustav Jung

Para ampliar a compreensão das relações entre a religião e depressão buscaremos compreender a religião a partir da teoria de Carl Gustav Jung. Dentre os clássicos da psicologia, ele destacou-se pela atenção dispensada à experiência religiosa do indivíduo. Esta atenção foi dada em fins do século XIX e primeira metade do século XX num mundo marcado pelo materialismo ideológico. Uma época dominada pelo liberalismo teológico que culminou com a teologia da morte de Deus. Época em que já se apregoava uma es­piritualidade individual sem referência às grandes religiões (ELIADE1969); OTTO, 1985). Estes aspectos contribuíram em muito, tanto para a formação religiosa do próprio Jung quanto de sua teoria. A importância de se saber o papel da religião no quadro histórico do final do século XIX justifica-se por este período correspondente ao momento da formação acadêmica de Jung. A influência de Mircea Eliade e Rudolf Otto sobre a construção da teoria de Jung é preponderante. Jung buscou apoio histórico no estudo dos símbolos religiosos encontrados por ele no mais profundo do psiquismo humano. Sua ideia da religião se baseia nas concepções desses dois estudiosos.

Jung considera que a religião é um fenômeno extraordinário, complexo e multifacetado, que pode ser estudado por várias disciplinas: sociologia, psi­cologia, filosofia, antropologia, teologia etc. Nenhuma delas, contudo, capaz de apreender, compreender, explicar e exaurir tal fenômeno a contento. A religião coloca-se como metáfora do real, como o manto que encobre e en­canta a realidade humana. A natureza religiosa do homem existe como fato social total e revela um aspecto essencial e social da humanidade.

A religião, inicialmente em sua história, era considerada uma experiência individual e coletiva; posteriormente, foi definida no cristianismo como uma relação pessoal com um Deus pessoal e, a partir da concepção junguiana, passa a ser identificada como uma experiência cósmica, primordial, sem re­ferência a uma determinada confissão de fé. Jung (1980, p. 3) declara:

Antes de falar em religião, devo explicar o que entendo por este termo. Re­ligião é como diz o vocábulo latino religere – uma acurada e conscienciosa observação daquilo que Rudolf Otto acertadamente chamou de numinoso, isto é uma existência ou um efeito dinâmico não causado por um ato arbitrário. Pelo contrário, o efeito se apodera e domina o sujeito humano, mais sua víti­ma do que seu criador. Qualquer que seja sua causa o numinoso constitui uma condição do sujeito, e é independente de sua vontade. De qualquer modo, tal como o consenses gentium, a doutrina religiosa mostra-nos invariavelmente e em toda parte que esta condição deva estar ligada à causa externa ao indivíduo. O numinoso pode ser uma presença invisível, que produz uma modificação especial na consciência. Tal é, pelo menos, a regra universal. (grifo nosso )

Jung conceitua a religião de uma forma vaga, imprecisa e cósmica: é a emergência de um arquétipo primordial do self na consciência do indivíduo. Este processo seria um fenômeno inato e universal, uma reprodução dos tempos e espaços primordiais que se encontram na origem da experiência religiosa. Sua concepção arquetípica de religião encontra-se próxima da con­ceituação da teologia cristã da imago dei. Doutrina que afirma que o homem foi criado à Imagem Divina (Gênesis 2,27-28). As ideias paulinas de Imago Dei seguem na mesma direção. Contudo foi Santo Agostinho que aprofun­dou a ideia. As palavras hebraicas Tselem, imagem, e demuth, semelhança, que aparecem nos textos citados constituem-se nos vocábulos hebraico que fornecem o suporte exegético para esta doutrina. Estas palavras no grego são correspondidas por eikon e homoiosis, respectivamente. A doutrina afir­ma, portanto, que o homem foi feito à imagem de Deus e Jesus Cristo é a completa e perfeita imagem em Plena Essência do Deus Invisível.

A Imago Dei faz do homem protótipo reflexo da Santíssima Trindade. Toda imagem é semelhante, embora tudo que seja semelhante não seja imagem, não havendo, portanto, relação de causa e efeito. Para Agostinho, sendo o homem a imagem de Deus, possui a Essência de Deus, mas o pe­cado ofuscou o brilho e a presença dessa Imago Dei. Esta imagem, contudo, não faz nenhum sentido teológico em termos físicos, é antes um reflexo dos atributos comunicáveis de Deus no homem.

O ser humano como criatura tem sido chamado de imagem de Deus. Esta expressão bíblica é interpretada tão diversamente quanto à doutrina cristã do ser humano. A discussão se complica pelo fato de que o relato bíblico usa dois termos para expressar esta ideia, termos que se traduziram por imago e similitude. Estes termos foram diferenciados em seu sentido (Irineu). Imago supostamente indicaria a condição natural do ser humano; similitude, o dom divino especial, o donum superadditum, que conferia a Adão o poder de aderir a Deus. (TILLICH, 2005, p. 263-264).

A fim de melhor compreender as relações entre depressão e religião, passare­mos à descrição do fenômeno depressivo no xamanismo e na cultura budista.

Depressão no xamanismo

Nas sociedades primitivas e até hoje em algumas tribos da Índia, o médico feiticeiro, o pagé , o xamã, era o pater familia, o sumo sacerdote, o curandeiro da tribo, a quem cabia controlar não só as forças da natureza, como também as forças espirituais e os seres do mundo dos espíritos. A vocação do xamã geralmente é iniciada com um transe, um sonho revelador, uma intuição. Após a revelação, o candidato a xamã deve passar pelos ritos iniciáticos, antes de começar sua jornada. Esses ritos incluem o isolamento, a beberagem de ervas alucinógenas e o domínio da magia e das forças da natureza. No longo período de isolamento, o médico feiticeiro é desafiado a controlar seus próprios demônios e os demônios do mundo espiritual. Só após passar por essa fase, está apto a desempenhar o seu papel na comuni­dade dos homens (KAKAR, 1993, p. 338-393).

O xamanismo é a mais antiga prática espiritual, médica e terapêutica da humanidade. Consiste num conjunto de crenças ancestrais. Fundamenta-se em um processo de introspecções de profundo significado, no contato com realidades do inconsciente coletivo gravadas no inconsciente pessoal e com o mundo espiritual (ELIADE, 2002, p. 15-40). Este contato leva à obtenção de autoconhecimento, à busca do poder pessoal, e contribui para a cura de problemas espirituais e psicológicos entre os povos primitivos. Sua prática estabelece contato com outros espectros da consciência, a fim de obter o transe que leva ao conhecimento, poder, equilíbrio, saúde. O transe propicia tranquilidade, paz, profunda concentração, estimula o bem-estar físico, psi­cológico e espiritual (KAKAR,( 1993 , p. 139-143).

O xamã pode ser homem ou mulher. É o mago, o curandeiro, o bruxo, o médico, o terapeuta, o conselheiro, o contador de estórias, o líder espiri­tual, o sacerdote. Ele é o explorador e o guia da consciência humana. Sua função como guia espiritual é levar o sujeito do mundo obscuro, do domí­nio da sombra que se apresenta, a sair da depressão, reconhecendo os seus limites, ampliando consciência e a sua limitada visão pessoal do mundo. O guia espiritual, neste caso, tem também a função de conduzir o deprimido para encontrar sentido para a sua dor. Este sentido deve ser buscado em um plano mais espiritual, mais universal (ELIADE, 2002, p. 49-84).

Os xamãs são capazes de produzir os estados alterados da consciência (EAC), estados de êxtase desconhecidos para o homem comum, e de se relacionar com outras realidades espirituais (GODO, 1985, p. 45-80). Os xamãs são seres privilegiados por viverem entre o mundo material e o reino invisível dos espíritos. Por meio de um chamado interior, ele vive um con­fronto existencial que o força a sair da zona de conforto, do falso brilho, da alienação. Reforçando a coragem e a determinação, mobilizado por visões, introversões e vivências, expande a sua consciência, podendo processar por transformações profundas que influenciam a sua vida e a comunidade. Nas sociedades primitivas, o xamanismo resgata a relação sagrada do homem com o mundo espiritual e com a natureza (ELIADE, 2002).

A iniciação xamanista possui um caráter intenso e dramático. O xamã pretende manipular certas forças sobrenaturais e, para tornar-se capaz de curar outros homens, deve submeter-se aos males de seus futuros doentes, a violência maléfica. É preciso que demonstre não somente ser o protegido da violência espiritual do mal, como participar de seu poder, conseguindo con­trolar até certo ponto a metamorfose do maléfico em beneficio do bem.

Os xamãs detinham um papel importante na vida dos membros de suas tribos e eram os protetores e os intermediários entre os humanos e os espíri­tos. O treinamento e o desenvolvimento de futuros xamãs demoravam vários anos. Tão logo o clã reconhecia um candidato a xamã, o sujeito era submetido a um ritual de consagração. Outros rituais também eram obrigatórios, nos quais o xamã recebia cada um de seus objetos especiais de encantamento da realidade, de cura das enfermidades e de invocação dos espíritos.

A prática xamanista assemelha-se a uma representação teatral; o xamã desempenha simultaneamente todos os papéis, mas principalmente o de alguém que reúne e domina forças benéficas que acabam por derrotar as maléficas. A expulsão final é frequentemente acompanhada de um simbolismo material. O curandeiro exibe um ramo, um pedaço de algodão ou um objeto qualquer que afirma ter extraído do corpo de seu doente e que afirma ser o responsável pela doença.

No xamanismo, a depressão é assimilada à crise espiritual, a prevalência da força do mal sobre a força do bem. Essa vitória do mal sobre o bem pode conduzir à morte ou à cura, sempre interpretada como expulsão de impurezas, seja espirituais, os maus espíritos, seja materiais, o objeto xamanístico, um katharma. Ainda aqui se trata de repetir o que aconteceu na primeira vez, de ajudar o doente a produzir sua própria cura, assim como toda a comunidade a produz. O objeto mágico que foi introduzido no organismo traz a desor­dem do mundo para a alma humana. No xamanismo, o doente tem a mesma função de um ser expiatório. Quando o xamã afirma extrair a doença sob a forma de um objeto e ou espírito, ele transporta e transpõe a interpretação já mítica para o corpo de seu doente e para o pequeno objeto incriminado (BELTRÁN, 1992, p. 1-20).

Existe, ao lado do uso religioso e do uso xamanístico, o uso propria­mente médico do termo katharsis. Um remédio catártico é uma droga que provoca a evacuação de humores, ou de matérias maléficas. Imagina-se que este remédio participa da mesma natureza do mal, provocando uma crise salutar, de onde emergirá a cura. No caso do tratamento da depressão por estes meios, emprega-se o princípio da purgação, transforma-se a violência da depressão em uma espécie de impureza, de sujeira do espírito, que agora, nesta condição, pode ser extirpada. Nesta classe, das alternativas de trata­mento, inclui-se a homeopatia.

Hoje, numerosos doutores e psicoterapeutas defendem e utilizam as técnicas ancestrais para atingir outras realidades, para a cura no tratamento de certas desordens do corpo e da alma. A melhor definição talvez tenha sido aquela de Mircea Eliade (2002, 85-134), segundo a qual o xamã é alguém capaz de abandonar seu corpo e viajar entre os mundos materiais e espirituais. O conhecimento adquirido nessas viagens, entre outras coisas, qualifica o xamã a manter o bem-estar e a cura para ele próprio e para os membros de sua co­munidade. Mas é essa facilidade de transitar, nessa viagem extática, que define o xamã como aquele que voa para enxergar a realidade existente por trás dos conceitos, a fim de trilhar o caminho sagrado, da consciência, atravessando os portais da mente, das emoções, do corpo e do espírito (BELTRÁN, 1992).

O xamanismo se constitui na aplicação de uma determinada tecnologia do misticismo por meio da técnica do êxtase – um conjunto de procedimentos para exercitar o controle de acesso aos conteúdos inconscientes. O praticante explora a estrutura de sua própria consciência e vai compreendendo como os fatos acontecem na sua vida, deixando de ser vítima das circunstâncias. O ri­tual do êxtase pode atuar sobre as reservas de energia do cérebro, liberando-as para trazer o deprimido de volta ao caminho da vida, praticando a sabedoria das antigas tradições, adaptadas ao mundo atual e ao estado atual da alma humana. O ritual de cura é realizado com tambores, canções, meditações, instrumentos de poder, danças, respirações, visualizações, histórias, vivências e muito, muito envolvimento emocional (GODO, 1985, p. 45-80).

A depressão na cultura budista

Outra tradição importante na cura das depressões encontra-se na cultura hindu. Conforme afirma Kakar (1993, p. 388-400), as técnicas psicoterápicas da Índia baseiam-se na ênfase budista sobre a necessidade de se afastar do apego ao mundo exterior para se dedicar à busca do mundo interior. As apli­cações dos conceitos budistas no tratamento das desordens mentais resultaram no desenvolvimento de uma técnica psicológica de meditação com o objetivo de alcançar o supremo estágio do desapego, o nirvana – um lugar tranquilo, desprovido de todo esforço e paixão, marcado pelo profundo aniquilamento do eu. O eu é substituído pelo self (CASTANEDA, 1998, p. 155).

O nirvana deve ser atingido por uma sucessão de quatro estágios de meditação (jhana), que produzem uma anulação do trauma do nascimento, que é considerado o começo dos males do homem. O objetivo desta prática hindu, portanto, é produzir a regressão psicológica até atingir o estado pré-natal de absoluto esquecimento da realidade. Este é o estado do ser puro, no qual se espera obter a eliminação entre o sujeito e o objeto.

No primeiro estágio de jhana, o mundo é renunciado como símbolo do mal; o desprezo pelo mundo resulta na renúncia a todos os desejos mundanos, e o sujeito, neste estágio, é perseguido pela tristeza ou melancolia. No segundo estágio, o estado de tristeza é substituído por amor a si mesmo. Isto é, em um esforço para tirar do eu todo apego, inclusive às coisas espirituais. Este estado representa uma regressão ainda maior e assemelha-se aos estados psicóticos da depressão de grande mal, em que o desejo do sujeito volta-se totalmente para si mesmo. No terceiro estágio, o sentimento de prazer provocado pelo amor a si mesmo diminui e o sujeito é dominado pelo sentimento de apatia, próprio de alguns estados depressivos produzidos experimentalmente. No quarto estágio, o indivíduo experimenta o completo vazio de si mesmo.

A partir dessa tecnologia budista, a meditação como a yoga, em suas várias formas, vem sendo utilizada como coadjuvante no tratamento da de­pressão, e especialmente nos estados de ansiedade generalizada e síndrome de pânico. A psicoterapia comportamental cognitiva, de modo geral, recomenda a meditação como forma de superar a depressão e os estados de ansiedade generalizados, comuns na síndrome do pânico. Para aqueles cristãos que encontram dificuldade na utilização da yoga, recomenda-se um modelo de meditação e relaxamento, desenvolvido no Ocidente, denominado treinamento autógeno (RANGÉ, 2001).

Depressão e crenças religiosas no cristianismo

A depressão é atualmente considerada pela Organização Mundial de Saúde como um dos transtornos mais comuns das enfermidades mentais. O desenvolvimento da medicina psiquiátrica vem possibilitando observações clínicas há mais de um século e já sugerem estudos que apontam para uma relação entre depressão e religiosidade. O envolvimento religioso ainda é uma variável pouco incluída em estudos epidemiológicos de sintomas e transtornos depressivos. As pesquisas mais recentes têm procurado investigar a relação existente entre depressão e diversos grupos religiosos, níveis de envolvimento religioso e o quanto esse envolvimento pode influenciar como as pessoas lidam com eventos de vida negativos. A maioria desses estudos tem apontado que o nível de envolvimento religioso está inversamente associado ao nível de sintomas depressivos. O tamanho dessa associação, embora modesto, é similar ao encontrado na relação entre depressão e gênero, uma das variáveis mais significativas nos transtornos do humor. A associação entre religiosidade e depressão se mantém entre as diferentes faixas etárias, gêneros ou etnias.

Crenças religiosas influenciam o modo como pessoas lidam com situ­ações de estresse, sofrimento e problemas vitais? A religiosidade pode pro­porcionar à pessoa maior aceitação, firmeza e adaptação a situações difíceis de vida, gerando paz, autoconfiança e perdão, e uma imagem positiva de si mesmo? A religião pode influenciar positivamente ou negativamente no tratamento da depressão? A religião pode tanto orientar a pessoa de maneira rígida e inflexível, desestimulando a busca de cuidados médicos, como podem ajudá-la a integrar-se a uma comunidade e motivá-la para o tratamento. Essas e outras questões precisam ser respondidas pelos pesquisadores, especialmente aqueles que trabalham na interface da psicologia com a religião nas ciências da religião. (TAMAYO, 1988; PAIVA, 2007).

A relação entre doença mental e experiência religiosa foi trabalhada por Carl Gustav Jung, que abriu a possibilidade de se estabelecer a compreensão e a diferença entre saúde mental e vivências puramente espirituais. As vivências espirituais não podem ser confundidas com os quadros da psicopatologia. Por outro lado, as afecções psicopatológicas não podem ser consideradas vivências espirituais (JUNG, 1980, p. 329-358).

Assim como o homem, a doença mental é historicamente determinada e socialmente construída. A depressão é um produto histórico. Consiste no resultado de uma série de ideias agregadas através dos tempos. A relação com a depressão, nos diferentes momentos históricos, foi estabelecida a partir de diferentes fatores: a) a estrutura da sociedade; b) a etapa histórica do desenvolvimento da sociedade considerada; c) o estado de compreensão dos problemas emocionais; d) a gravidade da doença; e) a relação médico-paciente e f) fatores genéticos (predisposição hereditária). Na concepção religiosa, a doença poderia ser considerada unicamente como consequência da culpa e do pecado (FOUCAULT, (1984).

A compreensão da doença não ocorre a partir de cortes epistemológicos, como sugere Thomas Kuhn (1962) para a explicação do surgimento da teoria da relatividade e dos saltos quânticos da física. O conceito de enfermidade é também um termo cultural, subjetivo. Isso quer dizer que a enfermidade depende muito mais da evolução histórica e acumulação de conhecimento e experiência dos fenômenos recorrentes do que de saltos epistemológicos (FOUCAULT, 2002).

A medicina científica tem cerca de 100 anos de existência, quando se passou a considerar que o conhecimento humano circula por meio das repre­sentações sociais (BERGER; LUCKMANN, 1990) e que essas não circulam de igual forma em todos os círculos sociais (MOSCOVICI, 1978, p. 110-125). Não se pode esperar que o homem comum, do senso comum, possua e aplique a mesma compreensão da doença produzida pela classe médica e pelos círculos mais providos de conhecimento de uma determinada sociedade ou grupo social. O homem comum tem sua própria compreensão da doença e do seu tratamento. É bom lembrar que a sociedade humana sobreviveu séculos sem laboratórios e sem penicilina, sem os benzodiazepínicos e sem a fluoxetina (Prozac), sem psiquiatras e sem psicanalistas. E parece que se saiu bem sem eles. Até hoje, na Amazônia, os povos da floresta sobrevivem à custa de chás, banhos, infusões de plantas medicinais, rezas e rituais religiosos.

Ruy Pérez Tamayo (1988, p. 22-59) escreveu uma história da enfermidade que será tomada como referência para uma classificação da depressão a partir das concepções primitivas da crença. Para ele, existem cinco formas ditas primitivas de compreender a etiologia da enfermidade: a) conceito mágico da enfermidade; b) conceito religioso da enfermidade; c) a enfermidade como algo exógeno (introdução de um objeto no corpo); d) possessão (introdução de um espírito no corpo); e) perda da alma.

Um importante e sério trabalho conduzido por Smith e McCullough (2003 , p. 614-636) mostrou que a associação entre religiosidade e depressão é mais forte em estudos que envolvem pessoas que estão expostas a eventos estressantes da vida. Os estudos geralmente apontam que a religiosidade pode produzir esperança, apoio social e uma visão de mundo capaz de suportar os eventos estressores e os sofrimentos da vida. Entretanto, eles também notaram que a religiosidade extrinsecamente motivada pode estar associada a um risco maior de sintomas depressivos.

Alguns pesquisadores vêm trabalhando com o objeto das relações entre depressão e religião; contudo, as pesquisas sobre depressão no contexto da religião ainda são escassas no Brasil. Esta pesquisa é uma abordagem com­preensiva e interdisciplinar da depressão. Através da revisão da literatura serão demonstrados alguns estudos que vem sendo realizados neste campo. Koenig et al (1998 ) realizaram um trabalho de revisão sobre religiosidade e saúde mental, no qual mostram que maiores níveis de envolvimento religio­so estão associados positivamente a indicadores de bem-estar psicológico e a menos depressão. Márcia Gonçalves (GONÇALVES et al. 2000, p. 17), no trabalho Religiosidade e Saúde, conclui que pacientes acometidos de pa­tologias graves, como os portadores de neoplasias, poderiam se beneficiar se nos cuidados a eles houvesse parcerias com profissionais da religião pra oferecer assistência religiosa para cuidados espirituais. Koenig et al. (1998 , p. 536-542) realizaram o único estudo prospectivo para investigar o impacto da religiosidade no curso das doenças depressivas. Os autores pesquisaram 87 pacientes adultos de terceira idade, hospitalizados por doenças clínicas, e perceberam que a motivação religiosa intrínseca estava associada à remissão mais rápida da depressão. Pérsio Gomes de Deus ( 2010, p. 19-58) escreveu um ensaio sobre Depressão no Contexto da Psiquiatria e da Religião, onde busca relacionar o papel da fé e da religião no tratamento de pacientes deprimidos. Dâmaris Malta (2010, p. 95-125), no artigo Angústia, fé e sentido da vida, propõe a distinção entre angústia, tristeza e depressão e qual o papel da fé na ate­nuação do dilema humano da angústia. Gomes (2010, p. 125-249) apresenta um ensaio sobre a depressão a partir da psicologia de Carl Gustav Jung e de um modelo de aconselhamento pastoral solidário.

Geraldo Paiva é de opinião que as pessoas cujo sofrimento religioso tem a natureza de um enfrentamento sagrado mobilizam cognições, motivações, pulsões que dispõem uma nova configuração da existência e podem atingir, mediante o sistema imunológico, a faixa do biológico no homem. As religiões naturais e, até certo ponto, as religiões da palavra, embutidas num sistema de pré-modernidade, ensejam o recurso ao sagrado e podem, por isso, ser objeto de um juízo psicológico, inclusive quanto a sua eficácia singular no enfrentamento de algumas situações de estresse (PAIVA, 2007).

A saúde e a doença não são imunes às crenças, sejam elas científicas ou religiosas. É frequente que psiquiatras, psicólogos e outros profissionais de saúde mental ignorem ou critiquem crenças religiosas de seus pacientes. É também frequente que líderes religiosos tenham reservas em relação aos tratamentos em saúde mental. Entretanto, pacientes psiquiátricos dão grande importância às suas crenças e atribuem a elas um papel primordial no lidar com sua doença. Vários autores têm identificado problemas para pacientes que têm um modelo de doença muito diferente de seus médicos, resultando em pior adesão ao tratamento. Os resultados sugerem ser essa uma área que merece esforços no sentido de reduzir as incertezas existentes (KIROV, 1998).

Ken Wilber assegura que o conhecimento sobre a relação entre práticas religiosas e saúde mental é reconhecido como uma estratégia importante de prevenção da saúde, se constituindo num dado importante para a estratégia de atendimento e também para os estudos das relações entre doença, espiri­tualidade e crenças religiosas. A possibilidade de conciliação das estratégias de tratamento com o respeito às crenças religiosas podem ser um importante aliado no tratamento da depressão. Os benefícios de uma associação entre os recursos da medicina convencional e outras tradições devem ser considerados em nome do bem-estar de muitas pessoas com crenças religiosas e espirituais. (WILBER, 2000, 2009, p. 103-105).

Na contramão de uma visão holística sobre o tratamento da depressão, podemos citar a obra de Jay Adams. Adams influenciou profundamente a compreensão da doença mental no protestantismo histórico de matriz presbi­teriana, pentecostal e neopentecostal no Brasil nas décadas de 1970 e 1980. O conceito de Jay Adams sobre doença mental marcou inclusive a compreensão sobre a depressão nestes protestantismos citados. A concepção de Adams parte do pressuposto segundo o qual a culpa está diretamente relacionada à violação de qualquer princípio que ele considera sagrado. O pecado e a culpa, portanto, são as únicas causas para o surgimento da doença mental. A sua compreensão religiosa da doença repousa no conceito de enfermidade devido à violação de um tabu ou preceito divino. Todas as demais etiologias são descartadas por Adams ( 1979, p. 84, 97).

O tratamento efetivo para a enfermidade, neste modelo, é a confissão e a expiação por meio do pagamento da culpa através da penitência, do castigo, e ou da autoexpiação pela própria doença. O sentimento de cul­pa geralmente é interpretado como um sintoma do pecado consciente ou oculto (inconsciente) e da transgressão. A ideia de Adams é maniqueísta (o sagrado e o profano) ; é compreendida pela perspectiva de mútua exclusão. A enfermidade e o desconforto humano são atraídos somente ao pecado e à culpa pessoal. Para ele, não existe uma instância considerada doença mental ou perturbação psicológica que não seja diretamente induzida pelo pecado (ADAMS, 1979).

Biblicamente falando, não há base para o reconhecimento da existência de uma disciplina separada e distinta chamada psiquiatria. Nas Escrituras há somente três fontes originadoras de problemas pessoais na vida diária: a atividade de demônios (sobretudo a possessão), o pecado pessoal e as enfermidades físicas. Essas fontes estão interrelacionadas entre si. Todas as opções podem ser co­bertas por esses três fatores, não havendo espaço disponível para um quarto: as enfermidades mentais não-orgânicas (ADAMS, 1979, p. 155).

O pensamento de Jay Adams pode ser classificado como uma interpreta­ção primitiva, pré-psicológica e pré-psiquiátrica sobre a doença mental. Adams afirma não existir algo como doença mental (GOMES, 2010, p. 125-1280. Não existe em Jay Adams nem a possibilidade de causas neuropsicológicas e bioquímicas para as doenças mentais e nem mesmo a alternativa para se traçar um paralelo com a enfermidade física, em que a causa não se deve necessa­riamente ao pecado pessoal, porquanto, de acordo com Adams, não existe nenhuma instância psicológica no ser humano que se deva considerar.

A expressão doença mental é empregada de maneira completamente ambígua. Disfunções orgânicas nocivas ao cérebro, causadas por lesões cerebrais, tumo­res, herança genética, desordens glandulares e químicas, é válido que recebam o nome de doenças mentais. Mas, ao mesmo tempo numerosos outros problemas humanos têm sido classificados como doenças mentais sendo que nada evidencia que tenham sido causados por qualquer enfermidade ou doença. Como descrição de muitos desses problemas, a expressão doença mental não passa de figura de linguagem, por sinal, imprópria, na maioria dos casos (ADAMS, 1987, p. 44).

Outros psicólogos, porém, aproximaram teologia e psicologia. Clyde Narramore (2000, p. 81-86) propôs uma visão integrada para resolver este conflito: o médico cuidaria dos problemas do corpo; o pastor cuidaria dos problemas espirituais; o psicólogo cuidaria dos problemas emocionais e psicológicos. O psicólogo Ken Wilber (2000), um dos fundadores da psi­cologia transpessoal , incluiu na teoria de Carl Gustav Jung (JUNG, 1988, p. 134) o conceito de inconsciente espiritual, para que se considere o papel das crenças religiosas nas abordagens das doenças psicossomáticas. Jung (1983, p. 208) considera a religião como uma das primeiras tentativas terapêuticas humanas no combate aos males da alma: “A religião é uma terapêutica reve­lada por Deus”. Jung considerava a depressão como uma defesa da mente contra os sofrimentos da realidade. Isto é, a depressão é o melhor estado da mente frente ao sofrimento imposto pela realidade. De qualquer modo, a espiritualidade do paciente precisa ser considerada em qualquer estratégia de abordagem para um melhor prognóstico.

Adrew Solomon (2002) lista inúmeras formas de tratamentos existentes para a depressão: alopáticos, psicoterápicos, fitoterápicos e alternativos. O século XX, marcado pelo cientificismo, foi palco do antagonismo entre a fé e a razão, a religião e a ciência. A psiquiatria e mesmo a psicologia conside­rava a intervenção religiosa sobre a depressão com certa desconfiança. Esse quadro está em rápida mudança. O tratamento da depressão, atualmente, recomenda a utilização de algumas estratégias conjugadas: a) o tratamento psicofarmacológico; b) o tratamento espiritual; c) o tratamento psicoterápico ou psicológico; d) a qualidade de vida e; e) o acolhimento do grupo família (SOLOMON, 2002, p. 100-120).

Ultimamente, algumas pesquisas têm demonstrado as relações entre saú­de e crença religiosa no Brasil. Pérsio Gomes de Deus (2008, 2010) realizou uma pesquisa com cinquenta prontuários de pacientes religiosos, evangélicos, portadores de depressão, seus pacientes. Os quais foram submetidos espon­taneamente a tratamento médico psiquiátrico num consultório médico loca­lizado na região Sul da cidade de São Paulo e foram acompanhados durante o período de seis meses. Este autor utilizou como instrumento de pesquisa a anamnese e uma entrevista semidirigida. Da análise desta amostra, os dados mais significativos estão colocados de forma sintética abaixo:

a) Os cristãos aqui pesquisados, em sua grande maioria, não enxergam a depressão como doença; antes, a compreendem como problema espiritual.

b) A totalidade dos pentecostais e neopentecostais desta amostragem atribui a causa da doença a problemas espirituais; em sua esmaga­dora maioria, diretamente ligadas à ação do demônio (100% dentro da amostra).

c) Dentre os cristãos históricos representados neste estudo de caso, mais da metade referiu como causalidade para a depressão a proble­mas espirituais (pecado, falta de fé); o restante referiu causas devidas a stress profissional, problemas conjugais, hereditariedade e também desconhecimento da causa – mesmos estes tiveram dificuldade na procura por tratamento especializado.

d) Esta dificuldade em compreender a depressão enquanto doença causou prejuízo quanto à procura por tratamento especializado e consequente alívio da doença e das limitações por ela imposta.

e) A doença depressiva, verificada neste levantamento, pôde causar comprometimento da fé no sentido de seu enfraquecimento. Houve influência positiva da fé quanto aos resultados dos tratamentos (92% desta amostra).

f) Porcentagem significativa de religiosos (pastores), na amostra, apre­senta particularidades que necessitam mais estudos para melhor compreensão dos dados encontrados. (DEUS, 2008, p. 113-122).

Adilson Abreu (2005) realizou uma pesquisa com seis (6) sujeitos no Hospital Central da Unicamp (Universidade de Campinas), sobre as repre­sentações da loucura em pessoas religiosas em tratamento de transtornos mentais, e concluiu:

Em alguns momentos, a realidade da loucura, ao invés de encontrar um am­biente terapêutico, pode-se deparar na religião com uma conspiração, pois alguns sujeitos associam os aspectos religiosos, interpretando-as como um conflito entre o divino e o diabólico, o bem e o mal, como responsáveis por sua doença mental. A loucura atrelada aos limites religiosos da relação sim­bólica por alguns pacientes é representada como uma manifestação de um ser maligno, para alguns deles.

Considerações finais

A depressão é citada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como a doença do século. Segundo a Organização Mundial da Saúde, neste início do século XXI, a depressão representa a quarta maior causa de perda de anos de vida sadios depois do HIV, do câncer e das doenças cardiovasculares; no entanto, as pesquisas sobre depressão no contexto da religião ainda são escas­sas no Brasil. Este trabalho buscou contribuir para preencher alguns aspectos desta lacuna, haja vista que cada vez mais os quadros depressivos e aspectos próprios da experiência religiosa encontram-se intimamente relacionados; e, por vezes, estas relações são pouco compreendidas tanto por alguns religio­sos quanto por outros profissionais da medicina e da psicologia que tratam pacientes deprimidos inseridos em contexto de crenças religiosas.

Carl Gustav Jung (1980, p. 329-358) pesquisou a relação entre doença mental e experiência religiosa e abriu a possibilidade de um diagnóstico diferencial e compreensivo entre saúde mental e experiências religiosas. As vivências espirituais não podem ser confundidas com os quadros psicopa­tológicos e nem tratados simplesmente como doenças mentais. Por outro lado, as afecções psicopatológicas não podem ser consideradas vivências espirituais. É isso que discutimos nesta pesquisa em relação à depressão. As pesquisas de Jung demonstram que a doença mental é a melhor condição da mente humana diante da realidade. A mente adoece para preservar sua pró­pria psique, a sobrevivência da sua mente. Depressão está ligada à repressão em seus aspetos regenerativos e enriquecedores. A energia psíquica volta-se para o próprio indivíduo em um processo forçado de introversão. A energia introjetada fica represada e precisa ser consumida no sofrimento, na dor, na angústia, produzindo a depressão.

Também se pode excluir a possibilidade da religião como um importante contributo para alimentar o quadro depressivo.

Há, basicamente, três tipos de concepção da vida religiosa: a legalista, que é essencialmente proibitiva e que corresponde a uma estrutura neurótica de perfeccionismo em ligação com o rigor do superego bíblico; a religião de de­pendência, que corresponde a uma estrutura neurótica de medo da liberdade e de conflitos com tendências negativistas e compulsivas; e, por fim, a religião do espírito, em que a crença religiosa, longe de ser sufocante ou dissociadora, unifica, todavia as tendências, os sentimentos, as idéias e centraliza a atitude do indivíduo no amor pelo próximo. (ROSA, 1985, p. 189).

Pesquisadores como Range (2001), Deus (2010) e Gomes (2010) de­monstram que atividades, como meditar e orar, podem auxiliar outras pes­soas com depressão a reduzir a solidão, a sensação de isolamento e também impedir que o paciente fique obsessivamente ruminando seus problemas. O envolvimento religioso parece capacitar indivíduos com doenças graves a lidar melhor com esta experiência e a vivenciar um crescimento psicológico a partir da experiência religiosa.

A relação entre religiosidade e doença sempre existiu. Diversos trabalhos científicos abordam as influências positivas da religiosidade em portadores de doenças crônicas como diabetes, câncer e cardiopatias (Koeniget alii 1998, p. 536-542). O benefício da religiosidade é objetivado no apoio e na acolhida dados pelas comunidades religiosas aos doentes, no poder transcendente da fé, e nos valores religiosos que propiciam uma melhor qualidade de vida, com diminuição do tempo de doença.

No exercício da psiquiatria clínica nestes últimos 30 anos, verificamos que a religião pode trazer não só efeitos benéficos, mas influências negativas aos doentes portadores de depressão. Atendendo a pacientes em hospitais da rede pública, em ambulatórios de saúde mental e principalmente em nossa clínica psiquiátrica particular; constatamos a dificuldade dos mesmos quanto à com­preensão da doença depressiva. Deparamo-nos ainda com enorme resistência em aceitarem que apresentam um quadro depressivo; e esta resistência ou di­ficuldade no entendimento da doença se mostrou maior nos pacientes cristãos (DEUS, 2010, p. 19-20).

Este pesquisador tem consciência de alguns aspectos dos limites desta pesquisa e acredita que alguns aspectos do tema podem ser aprofundados e comprovados empiricamente. Essas comprovações podem ser levadas a cabo por outras pesquisas que poderão inclusive explicitar melhor as relações entre religião e depressão. Este pesquisador propõe que outras pesquisas precisam ser realizadas para responder aos questionamentos que foram aparecendo ao longo deste ensaio.

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* Doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo e professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Presbiteriana Ma­ckenzie. Pesquisador do Laboratório de Psicologia Social Estudos de Religião da USP.

Antonio Maspoli
Antonio Maspoli
Sou Antonio Maspoli, cidadão do mundo, Teólogo e Psicólogo. Deus é a minha herança pessoal, meu caso de amor! Deus encantou-me com o a sua presença. E abriu-me as porta do conhecimento do numinoso: "Eu cri, por isso compreendi" (Agostinho). Desde então dediquei a minha vida a conhecer a Deus. E a minha existência a compreender a natureza humana.

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