Personalidade, caráter e temperamento

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PERSONALIDADE , CARÁTER E TEMPERAMENTO

Dr. Antonio Maspoli

INTRODUÇÃO

Depois de apurada luta com os professores mudos, cheguei a uma conclusão sobre a personalidade, caráter e temperamento. Realizei o meu estudo. Durante a confecção, descobri que muitos são os caminhos traçados pelo homem para dominar a fugitiva sabedoria no insólito tempo.

Personalidade, caráter e temperamento não é um tema difícil de desenvolver-se, dada a sua importância e complexidade, nunca chegamos a uma definitiva e clara conclusão numa pesquisa como esta. Temos que recorrer aos professores mudos, estes donos da sabedoria e colher aquilo que já é concreto neste setor.

Espero que com esta pequena pesquisa, eu venha a colaborar para a elaboração de uma nova fonte de pesquisa, de uma crítica ou quem sabe de uma autocrítica aos futuros trabalhos que realizarei no decorrer de minha iniciada carreira de pesquisador.

Agradeço ao Professor, Reverendo Paulo Viana de Moura, pela inusitada força que ele tem nos dado no sentido de aperfeiçoarmos os nossos conhecimentos em nosso curso de Teologia, promovendo pesquisas como esta.

Louvo ao Senhor Deus de Israel, por ter-me permitido conclui-la e por ter me proporcionado os meios de que necessitei, tal como uma máquina de escrever, prontamente emprestada por colegas que Deus usou para isso.

As noções de constituição e temperamento são muito antigas, bem como as noções de personalidade e caráter. Ao que parece nos primórdios da civilização humana não existia uma separação nítida entre estes três importantes elementos do homem.

No início, tanto personalidade como caráter as confundia nos contos do homem. Partindo da etimologia da palavra, no grego, tanto o caráter quanto a personalidade eram representados por uma mesma palavra “persona” que significava a espécie de máscara usada em teatro.

Com o decorrer do desenvolvimento científico o caráter, a personalidade e o temperamento foram ganhando traços nítidos de distinção. Ainda hoje, porém, no meio do vulgo, não existe esta distinção, caráter é sempre confundido com uma personalidade forte e temperamento, e quase sempre confundido com caráter.

Voltando um pouco ao passado, na época de Hipócrates parece que encontramos os primeiros estudos sérios relacionados com este assunto. São as primeiras noções de constituição e temperamento, classificados por Hipócrates em frio, quente, seco e úmido, os relacionando respectivamente com a terra, o ar, o fogo e a água.

Depois de Hipócrates encontramos Galeno, que montou algumas concepções inexatas e grosseiras, em que ele admitia os temperamentos como sanguíneo, bilioso, atrabiliário, pituitário e linfático, segundo o suposto predomínio de um dos humores, o sangue, a bílis, a pretensa atrabílis e a imaginária pituíta, a linfa respectivamente.

Seguindo estas concepções, que mais tem de superstição que de verdadeira pesquisa, as ideias ou teorias sobre a personalidade, o caráter e o temperamento, chegaram até o final do século XVIII e princípios do século XIX, quando Hallé, embora ainda admitisse os temperamentos como determinantes oriundos do sangue, da bílis e da pituíta, começa a por em conta em suas pesquisas os dados anatômicos, o sistema nervoso, como determinantes das diferenças individuais.

Já com o advento da pesquisa moderna, introduzindo a moderna psicologia os estudos sobre estes fatores do indivíduo são abordados, agora de maneira científica. Surgem movimentos inteiros, como os behavioristas interessados nestes aspectos.

Muitos estudos, muitas concepções, outras tantas teorias foram levantadas. Hoje já encontramos os traços nítidos que dividem a personalidade do caráter e do temperamento.

Em nosso estudo reunimos formulações, teses, teorias, enfim, todos os conceitos vigentes em nossos dias, e em anos próximos passados que nos permitam uma avaliação separadamente de cada um destes tópicos, caráter, personalidade e temperamento.

Em nossa pesquisa, dada a exiguidade de tempo não acrescentamos muitas coisas, a não serem algumas observações pessoais que se perderam nos alfarrábios que tive que colher, na dinamização desta modesta pesquisa.

Segundo o Bom Baiano Rui Barbosa, “os erros, os clássicos os perpetraram”, peço licença aos mestres para não perpetrar os meus.

Todos os apontamentos foram colhidos tal como se apresentam nas fontes, as quais pesquisei.

Sei que muitas outras teorias surgirão ainda, sobre tão apaixonante e tão controvertido assunto. Mas aqui não temos a finalidade de acrescentar outras, as muitas discussões que já existem. Louvo ao Senhor nosso Deus por ele ter me proporcionado a realização deste estudo.

CAPÍTULO I – A PERSONALIDADE

INTRODUÇÃO

Com caráter de investigação sistemática, a personalidade apareceu em investigações dinâmicas de médicos Franceses no século XIX, seus nomes, Janet e Charcot. Estes médicos estavam interessados no estudo de personalidades anormais, no caso mais frequente da época, a histeria.

Sigmund Freud, mais tarde retomou este estudo e em suas pesquisas, ele deu o mesmo caráter, tratar da personalidade somente em casos anormais, Freud atraiu vários adeptos, mais muitos outros estudiosos tais como Carl, Jung e Alfred Adler discordaram de Freud, e desenvolveram métodos e pesquisas próprias. Mas não podemos negar que os estudos sérios só surgiram realmente com Freud e sua Psicanálise.

Interessante neste aspecto é que os primeiros pesquisadores eram médicos. Os referidos chegaram a desenvolver trabalhos sérios sobre a personalidade, porque eles encaminhavam suas pesquisas, teorias e práticas para fins psicoterápicos, como meio de tratamento de doenças mentais. Neste ponto os estudos eram especulativos, baseavam-se sobre ideias intuitivas, e não em experiências científicas.

No entanto, com o advento da psicologia ciência, os estudos da personalidade ganharam importantes avanços. O estudo da psicologia criou a necessidade de um estudo metódico e sistemático da personalidade. Então a personalidade, isto é, seu estudo, saiu do estado empírico em que se encontram na literatura Shakespeariana, na filosofia e na medicina, e passa agora a fazer parte da psicologia moderna.

Como enfoque de tal fato, podemos citar os estudos behavarioristas sobre a personalidade, que através de suas concepções comportamentistas, organizou um grande acervo, que nos permite um estudo científico da conduta humana.

O QUE É PERSONALIDADE

Segundo o conceito do vulgo, personalidade significa uma forte atração, isto é, influência social exercida por alguém mais do que os outros, dentro de um grupo social humano. O homem vulgar, isto é, sem conhecimento científico confunde facilmente personalidade com charme, facilidade de expressão, boas maneiras ou mesmo atrações físicas, expresso de maneira singular por um determinado indivíduo.

Para o cientista, partindo da etimologia da palavra tal como fez G. H. Allport, personalidade vem da palavra “persona”, espécie de máscara teatral usada nos dramas gregos, e, posteriormente no teatro Romano. O conceito da palavra “persona” foi ampliado e posteriormente veio a significar a aparência externa, segundo Carl Jung, “persona” era a face exterior do eu, uma máscara usada pelas pessoas em resposta as exigências da sociedade a que pertencia. Também personalidade estava associada com o pensamento e o raciocínio.

Com a formulação da Psicologia Científica, o conceito de personalidade tornou-se polêmico. Várias teorias surgiram, várias ideias, às vezes até discursivas, ou mesmo incoerentes com o real significado de personalidade. Escolhemos aqui alguns destes conceitos psicológicos de personalidade, não por achar os mais gabáveis, mais por serem os mais revivos.

  1. Behavioristas – a personalidade era a soma global do comportamento de uma pessoa, é o cmnibus;

  2. Funcionalismo – a personalidade não é dada ao acaso, mas possui um núcleo ou princípio organizador. É um impulso básico, uma necessidade, uma organização do nosso comportamento. Segundo Norman Cameron é a organização dinâmica de sistemas de comportamento, integrantes que evolui do recém-nascido biológico, para o adulto bio-social;

  3. W. James – a personalidade são camadas do eu, observadas de dentro para fora, é composta do eu material (corpo, bens, família), e do eu social (a impressão dos outros sobre o eu material) e, finalmente o eu espiritual, que organiza traços e tendências opostas;

  4. Psicanálise – a personalidade é uma estrutura composta pelo Id, Ego e Superego.

FORMAÇÃO DA PERSONALIDADE

A personalidade constitui a síntese integral da vida psíquica. Representa o conjunto de tendências e caracteres fisiológicos e psicológicos do Eu. Na organização da personalidade se congregam numa formação global, fatores orgânicos, psíquicos sociais e culturais. Em qualquer momento da vida psicológica, a personalidade age como um todo, e não como uma justaposição de processos isolados e independentes. Donde se conclui, que tudo o que é psíquico, só pode ser compreendido verdadeiramente em função da personalidade.

Na formação da personalidade, vários são os fatores que estão presentes em maior ou menor intensidade. Aqui enumeraremos os mais importantes:

  1. O que representa o aspecto físico do organismo, isto é, a constituição morfofisiológica do indivíduo;

  2. O temperamento, que é o aspecto endócrino-fisiológico da personalidade, e forma o conjunto de suas disposições humorais. “É a fonte interna que impõe as funções vitais, uma orientação determinada”;

  3. O caráter, que é o aspecto psíquico da personalidade. Constitui a reatividade psicológica particular de cada indivíduo, a maneira original de ação e expressão de cada personalidade;

  4. O Eu, que é o aspecto espiritual da personalidade. É a pessoa enquanto se reconhece a si mesmo. É o centro de gravitação e de equilíbrio de toda a vida psíquica.

Esses diversos aspectos da personalidade se encontram intimamente fundidos, de modo a constituir uma unidade substancial. Suas relações determinam relações contínuas e vitais. A constituição representa a forma física da personalidade. O temperamento constitui o subsídio biológico sobre o qual se assenta a atividade mental. O caráter aparece como uma estrutura psíquica construída sobre a vida natural e espontânea. No ambiente do temperamento, isto é, em seu circulo de ação, vivemos sujeitos a alterações em nossos impulsos no campo do caráter, atuamos sobre a influência da nossa própria vontade.

A PERSONALIDADE NA CRIANÇA

A criança não possui personalidade no sentido total da expressão, e isto se deve a sua própria constituição biossocial. O fato é que várias causas impedem que a vida psíquica infantil possa tomar uma forma pessoal tendo em vista a incapacidade de síntese da consciência da criança, cuja estrutura inconsciente e dispersiva, impede a fixação e a organização da memória e, atividades controladas pela vontade. Em segundo lugar, na criança a distinção entre sujeito e objeto não é nítida, causando uma séria confusão entre o Eu, e o não-Eu, da imaginação com as coisas, e isto conduz a criança a um não estabelecimento de uma linha de separação, entre a sua própria individualidade e o mundo exterior em que vive. Só na adolescência é que surge a personalidade, e esta só se firma as crises de caráter psicológico a que sempre passa o adolescente.

A PERSONALIDADE NO ADOLESCENTE

Segundo Spranger, a personalidade do adolescente possui pelo menos outras características fundamentais: a descoberta do Eu, a formação de um plano de vida e a integração nas diversas esferas da existência. E nestas fases ele enfrenta grandes crises, com a suposta incompatibilidade com o mundo que o cerca. As características referidas por Spranger são as seguintes:

  1. A descoberta do Eu – representa o surgir da consciência, da própria personalidade como estrutura autônoma e independente do mundo exterior. Autônomo e independente do mundo exterior traduzem-se ainda pela vivência dos valores pessoais, pelo poder do espírito de se voltar sobre si mesmo, pela capacidade de exame da própria vida psíquica. Penetrando no âmago do seu mundo interior, o adolescente parece perder-se no tumulto das tendências que sempre o envolvem. Tendências essas, por vezes contraditórias que geram estados bruscos e confusos, que se digladiam em seu espírito, emprestam a sua personalidade um aspecto estranho e paradoxal. A descoberta do eu, cava um abismo profundo entre a vida psíquica e a realidade que o cerca, O adolescente, desprende-se do mundo com o qual confundia durante a infância, sente-se sozinho e isolado, então ele experimenta o sentido chamado por Spranger da “vivência da grande solidão”. Este angustioso estado de isolamento é seguido de reações afetivas contraditórias e provoca na alma do adolescente a incompreensão da sua própria personalidade. Daí a ânsia de conhecer a si mesmo. A afirmação de sua personalidade nascente determina uma supervalorização do Eu e disso resulta um exagerado sentimento de dignidade pessoal.

A formação de um plano de vida é o segundo, características básicas para a criança, a vida é uma série de acontecimentos distintos e fragmentários, e o tempo uma sucessão de elementos fragmentados, isolados. O Adolescente ao contrário, sente a vida como uma totalidade e o tempo como um conjunto unitário e permanente. Dessa vivência do tempo, e da vida como duração contínua, resultam na necessidade e no poder que tem o adolescente de se projetar no futuro e de formular planos de existência a serem realizados. Daí orientar suas ações pelas imitações de moldes ideais representados por pessoas, cujas qualidades exaltadas pela fantasia, ele desejaria ser, são personagens de filmes, literatura e heróis da história.

A PERSONALIDADE NA MATURIDADE

O desenvolvimento da personalidade resulta de muitas influências, isto é, fatores que operam na criança na adolescência e agem sobre ela. O temperamento de um indivíduo, sua energia e disposição emocional é aparentemente afetado por suas glândulas endócrinas, pelo sistema nervoso e por condições físicas e fisiológicas adversas. Nenhum fator, no entanto segundo Gordon Allport, pode determinar um retrato concluído da personalidade. Como o homem está sempre em movimento, e como a personalidade também é determinada pelo meio social, não podemos estabelecer um estado de perfeição, de maturidade para ela.

No decorrer da sua vida, quer esteja em um meio social, quer se encontre em outro, a verdade é que o desenvolvimento de sua personalidade o acompanha e, se transforma com suas transformações.

Um homem que ganha na loteria esportiva, sendo ele pobre ao fazer o tal jogo, após ganhar e receber o dinheiro, ele saí de um meio social para outro. E agora endinheirado com o resultado do seu jogo, ele é obrigado pelas circunstâncias em que encontra agora, em sua nova vida de milionário, a mudar seus conceitos, sua forma de vida. Muitas vezes o status determina a personalidade do indivíduo; um indivíduo que aparentemente se apresenta calmo como encarregado de uma seção em seu emprego, mudado o seu cargo, suponhamos para gerente, ele pode apresentar um outro padrão de comportamento, uma outra personalidade.

FORMADORES, OU DETERMINANTES DA PERSONALIDADE

Grande parte da teorização sobre a constituição, desenvolvimento e aspectos da personalidade, tem sido baseado em observações clínicas realizadas em crianças, em clínicas de pessoas perturbadas, no consultório do psiquiatra. São necessárias pesquisas, cuidadosamente controladas, a fim de avaliar essas observações e as teorias a que conduziram. Aqui passaremos em vista, apenas uma classificação dos determinantes colhidos com estas pesquisas:

Fatores Hereditários – A constituição genética do indivíduo desempenha fator de elevada importância nesse contexto. Os dados a respeito da determinação genética dos aspectos intelectivos da personalidade, não são tão claros. De um lado, as medidas disponíveis da inteligência tem maior aceitação e são amplamente válidas, que as medidas da maioria dos outros atributos da personalidade. O fato é que tem havido pouca pesquisa quanto à hereditariedade da personalidade. No entanto a hereditariedade desempenha um grande papel na influência sobre os aspectos temperamentais da personalidade. Os criadores de animais bem conhecem este fato, ao observarem em sua rotina grande diferença de temperamento que por vezes animais de uma espécie apresentam aos de outra. Algumas raças de cachorros são plácidas, outras, porém são irrequietas e facilmente perturbáveis.

Estudos cuidadosamente controlados da genética comportamental confirmam esse quadro. Hall realizou um programa de cruzamento seletivo, sobre a emotividade de ratos, depois de certo número de cruzamentos, Hall obteve duas populações de ratos, com marcantes diferenças “emotivas”. Em seres humanos, diferenças temperamentais herdadas podem ser estudadas através das características emocionais. Num estudo feito Gessel e seus discípulos, um grande número de crianças sistematicamente observadas desde a mais tenra infância, houve fortes indicações de que características temperamentais, tais como dispêndio de energias e expressões emocionais. Tudo isso permanecem razoavelmente constantes, confirmando a hipótese de que sua origem é explicável por predisposições inatas.

Fatores somáticos – Não existem dúvidas de que diferenças individuais quanto à constituição física e ao funcionamento fisiológico podem ter efeitos na personalidade. Por exemplo, notamos que condições glandulares anormais podem prejudicar o desenvolvimento individual, como no caso do cretinismo, uma secreção abaixo da média do hormônio da tiroide. Certas enfermidades que ocorrem em estados decisivos do desenvolvimento podem estar frequentemente ligadas a mudanças na personalidade. Mas é difícil distinguir as ligações causais, não apenas os fatores físicos. Não apenas os fatores somáticos influem no comportamento e na personalidade, mas também, pode ocorrer o contrário. Por exemplo: existem muitas formas de perturbações psicossomáticas, isto é perturbações físicas provocadas por fatores psicológicos, como por exemplo, a úlcera no estômago, que geralmente é provocada por uma angústia crônica.

Parece ser especialmente importante na formação da personalidade, o grau de sentimento de angústia que a criança enfrenta em sua vida, em relação aos vários processos, tais sentimentos podem ser despertados por privações ou por frustrações das necessidades infantis do alimento, conforto e afeição. Sustenta-se que essas fases de sentimentos de insegurança, podem deixar profundas marcas na personalidade adulta. A criança cuja alimentação é repetida e abruptamente interrompida antes de uma completa satisfação pode chegar a desenvolver na criança sentimentos tais como, não pode confiar nas pessoas e nem no mundo.

Também na formação da personalidade, as atitudes dos pais com relação aos filhos podem ser determinantes cruciais. Mesmo os recém-nascidos podem sentir tais atitudes, que se tornam bem mais profundos para as crianças e adolescentes. As atitudes determinam as formas principais das atitudes entre pais e filhos, algumas atitudes são favoráveis, enquanto que outras são prejudiciais.

A rejeição da criança tende conduzir a sentimentos de insegurança e auto- desvalorização, frequentemente ligados a um comportamento hostil, negativista e rebelde, ou a apatia e indiferença. A criança rejeitada pode achar difícil dar e receber afeição mais tarde.

A superproteção maternal, ou “filho ligado às saias da mãe”, pode levar a efeitos desastrosos, dependendo da forma apresentada da superproteção, e quando esta se caracteriza pela indulgência, a criança pode demonstrar tendências para ser egoísta, egocêntrico, irresponsável e a ter um baixo nível de tolerância à frustração, inteiramente incapaz, pode chegar a desenvolver uma personalidade dependente, vista com piedade ostensiva pelos outros, pode tornar-se vítima de sentimentos de excessiva timidez e assim por diante.

A interferência do fator apreciação e reações sociais complica enormemente o problema da interpretação das correlações encontradas entre os traços da personalidade e a constituição física.

Fatores infantis – A maioria das teorias da personalidade da grande ênfase ao papel das experiências infantis, e isso provocou um grande número de pesquisas a respeito dos efeitos na personalidade, de várias experiências da infância.

O maior interesse e as maiores controvérsias se centralizam nos métodos “adequados” e “inadequados” de mamar, desmamar e controle de eliminação de fezes e urina, e suas supostas consequências para a formação da personalidade. Tem havido novidades e modas passageiras nesses métodos muitas vezes baseados em suposições mal verificadas. O menos que se pode dizer a respeito é que os fatos são complexos. Para a formação da personalidade, não existe um decisão final quanto às vantagens relativas de amamentação em mamadeira ou no seio, do desmame tardio ou prematuro. Dos horários fixos ou flexíveis na alimentação, do controle prematuro ou tardio da eliminação, especialmente quando observada as provas antropológicas, torna-se claro que, em diferentes culturas, o mesmo método pode ter consequências muito diferentes para a personalidade.

Quando se caracteriza pela dominação a criança tem maiores tendências para apresentar submissão, obediência, inadequação, falta de iniciativa e dependência dos outros.

Também a disciplina excessiva, pode conduzir a falta, a necessidade de aprovação social ou, a sentimentos de condenação própria. A hostilidade que geralmente provoca com relação aos pais punitivos pode apresentar-se sob a forma de comportamento socialmente prejudicial. Do mesmo modo, a disciplina insuficiente provoca um desenvolvimento inadequado no autocontrole da criança, indecisões ao fazer escolhas, ao enfrentar problemas.

O padrão moral excessivo imposto pelos pais, principalmente quando se relaciona as atividades sexuais, pode conduzir a uma personalidade rígida, ou a sentimentos de culpa.

FATORES AMBIENTAIS DA FAMÍLIA

Das inúmeras formas de defeitos no ambiente familiar que podem provocar sentimentos de insegurança e angústia na criança, a que mais influências perturbadoras trazem para a personalidade, são as desarmonias conjugais, lares desfeitos, comportamento imoral dos pais ou perturbações mentais dos pais.

Alguns acham que a sequência de nascimento, isto é, o fato de uma criança ser a mais jovem ou a mais velha, ou ser um dos “meio”, tem influências significativas no desenvolvimento da personalidade dos indivíduos. Esta afirmação não é digna de nota. A realidade, o fato de alguém ser dos primeiros ou dos últimos em nascimento numa mesma família, não traz consequências importantes para a formação da personalidade de um determinado indivíduo, mas a direção e a proporção dependerão da situação psicológica total, e não do simples fato de estar em determinada posição, na escala de nascimentos dos filhos de uma família.

A verdade é que geralmente o irmão mais velho é mais orientado do que o mais novo, isto faz com que ele geralmente seja dotado de uma personalidade marcante dentre seus irmãos, devemos também levar em consideração, os conceitos sociais, das sociedades patriarcalistas em que o filho mais velho, é investido do dogma da primogenitura, de maior afeto e de maior direito dentre os seus irmãos mais novos com relação à vida social.

Os filhos únicos não apresentam características dignas de notas separadas, isto é não apresentam estudos isolados.

A rivalidade entre irmãos, a presença de outras crianças na família, pode ter consequências para a criança com relação ao aparecimento da rivalidade entre os irmãos, isto é, sentimento de ciúme e competição. Frequentemente isto ocorre com o aparecimento de um irmão mais novo, quando o irmão mais velho sente que foi afastado da atenção dos pais. Disso podem resultar atos de agressão contra o intruso, atos diretos ou atos indiretos, como o comportamento regressivo, como a volta a uma linguagem de bebê, ou não controlar a urina durante o sono. Esse comportamento regressivo foi interpretado como sendo a tentativa do irmão mais velho recolocar-se no papel dependente diante dos pais.

É de notar-se, porém que esta rivalidade e suas influências dependerão do modo dos pais dirigirem as relações e o contexto familiar.

TEORIAS DA PERSONALIDADE

Não existe uma só teoria da personalidade que seja igualmente aceita por todos, do outro lado, uma só teoria não basta para abranger todas as faces da personalidade humana. Até hoje ainda não foi formulada uma teoria de maneira suficientemente detalhada, uma teoria de maneira que permitisse uma comprovação empírica. Desta forma as teorias contemporâneas são apenas mapas provisórios de uma imensidão quase totalmente desconhecida. Passaremos a ver que cada uma destas teorias, desempenha um papel na composição do todo da personalidade.

  1. Freud e a Psicanálise – Esta é a teoria que até hoje exerceu nela influência. A psicanálise de Sigmund Freud é uma teoria da personalidade, um método de psicoterapia, e para alguns uma introspecção filosófica da vida.

Freud concebia o homem como um sistema dinâmico de energias. A personalidade é constituída por três sistemas de forças principais, o Id, o Ego e o Superego. Esses três sistemas de forças psicológicas interagindo dinamicamente, provocam o comportamento do indivíduo.

O Id é o sistema original do qual gradualmente se desenvolvem os outros dois. O Id, a única fonte de toda energia psíquica. A energia apresenta a forma de instintos inconscientes que impulsionam o organismo. Os instintos decorrem da natureza psíquica e herdada do organismo. Os dois grupos principais de instintos são ligados a sobrevivência, (os instintos da vida), a fome, a sede e o sexo, e os instintos de morte, que se apresentam como expressão de agressividade.

Ao procurar satisfazer os impulsos do Id, o organismo deve enfrentar as realidades do mundo externo, como resultado disso surge o Ego, um sistema de forças que tem a função de controlar conscientemente os impulsos do Id, e o dirigir de tal forma que as satisfações possam ser obtidas no ambiente específico. Assim o Ego é o sistema de processos cognitivos, perceber, pensar, planejar, decidir.

Ao exprimir impulsos básicos, o indivíduo pode colidir com normas e os valores da sua sociedade. Como resultado disso, desenvolve-se gradualmente na criança o Superego, sistema de forças restritivas e inibidoras, que inibe os impulsos básicos, especialmente sexo e agressividade, de que não vistos pela sociedade como perigosos ou prejudiciais. Com o tempo o Superego se torna o substituto interno das forças externas de controle de que os pais lançaram mãos, e da sociedade torna-se resumo a consciência moral e o senso de moralidade da criança.

As forças do Id, do Ego e do Superego, estão frequentemente em lutas, em conflitos, e isto provoca a angústia. A pessoa desenvolve maneiras características de reduzir a angústia, e essas formas características constituem um aspecto marcante da estrutura da personalidade do indivíduo e seu caráter.

Adler e a busca de superioridade, as características centrais deste ex-discípulo de Freud são as seguintes: maior acentuação nos determinantes biológicos da personalidade, e sua concepção de um impulso externamente ascendente do Eu. Em sua opinião a fonte fundamental da motivação humana é a superioridade. Vale dizer, o objeto fundamental da vida é aperfeiçoar-se; todos os outros motivos são expressões de aperfeiçoamento. O decorrer do desenvolvimento da personalidade de acordo com essa opinião é um processo contínuo de reações à inferioridade, imaginária ou real. E na medida em que a inferioridade pode ocorrer em tantas formas nas experiências de todos, existe energia inesgotável para os esforços.

Adler considera a fase da infância como importante, não porque como Freud aceite as pressões da sexualidade infantil, mas porque a fraqueza intrínseca da criança no mundo dos adultos provoca inevitavelmente esforços para superar a fraqueza.

Para Adler, as diferenças de personalidade são devido à direção e grau que o indivíduo deu aos seus esforços de superioridade.

  1. Horney e a “angustia básica” – na sua descrição da “personalidade neurótica” do nosso tempo, Karen Horney fez da angústia básica o conceito, o fundamento de sua teoria da personalidade.

O aparecimento e destino desta angústia, mais do que impulsos agressivos e sexuais, entendidos a maneira de Freud é para Horney o seu universo da pesquisa. Para ele a angústia nasce de qualquer coisa que provoque insegurança na criança, especialmente com relação aos pais: ser dominado por eles, ser tratado de maneira inconsciente, ter responsabilidade de mais ou de menos, ser tratado com frieza ou indiferença, estar envolvido em conflito entre os pais. Para Horney, o resultado destes processos é a angústia básica, e esta, é fator de desenvolvimento da personalidade.

Erich Fromm tal como Horney, eles consideram a personalidade como produto da maneira pela qual as condições sociais satisfazem ou não as necessidades da pessoa ou desenvolvimento. Fromm considera as condições socioculturais, como de importância muito mais ampla que a própria família. Em sua opinião a personalidade do indivíduo se forma através de sua relação com a sociedade total de que faz parte. Portanto para entender a personalidade é essencial estudar a natureza da sociedade específica em que a pessoa se desenvolveu.

Froom procura mostrar da sua forma, se pode esperar que cada tipo de pessoa, é influenciado por cada tipo diferente da sociedade.

Sullivan e as “relações interpessoais” – para ele a personalidade é “o padrão relativamente duradouro de situações interpessoais, repetidas, que caracterizam uma vida humana”. Para Sullivan, não existe personalidade fora de suas relações com outras pessoas; tudo que é característica da humanidade é um produto de interações sociais, a partir do nascimento da criatura humana. Para ele não existe idade para o estabelecimento da personalidade, isto é, não tem relação com a idade do indivíduo, esta se estabelece continuamente à medida que surgem novos tipos de relações interpessoais.

  1. Allport e a autonomia funcional – Allport faz dos traços, o centro de sua teoria. No seu uso desse termo, ele dá ao mesmo, um conceito mais amplo do que normalmente ele tem. Um traço é uma predisposição duradoura para responder de uma maneira peculiar, consistente e adaptativa, a certos grupos gerais de estímulos.

Alguns traços são centrais na constituição da pessoa, outros são indubitavelmente mais periféricas as maneiras peculiares pela qual os traços se ordenam e configuram o caráter. Com o desenvolvimento da maturidade psicológica, existe uma unificação na configuração dos traços.

Henry Murray – caracteriza a sua teoria de personalidade, pelas necessidades psicológicas do indivíduo. Segundo ele, o que caracteriza a personalidade de um indivíduo é a qualidade e a quantidade relativa de cada necessidade, assim como a maneira pela qual as necessidades se tornam dinamicamente organizadas durante o desenvolvimento, a personalidade se torna dependente das necessidades psicológicas do indivíduo.

CAPÍTULO II – O CARÁTER

CONCEITO ETIMOLÓGICO DO CARÁTER

A palavra caráter vem de uma origem grega, que significa a “máscara” do ator, que como se sabe, era no teatro grego imóvel e destinado a determinado papel específico.

Com SHAKESPEARE e sob forte influência deste, as figuras típicas do drama adquiriram traços cada vez mais individuais, a significação da palavra “caráter”, sofre uma transformação no mesmo sentido, o caráter torna-se de agora em diante algo que pertencia especialmente a um único homem, e que era característico dele.

Na linguagem moderna, empregamos caráter para designar algo de uno e único, simples e incontestável, que pertence especificamente a uma pessoa, como o qualificativo “característico” designa uma qualidade especialmente ligada a uma figura qualquer.

O CONCEITO DE CARÁTER

A circunstância de que, em todos os tempos e lugares e em todas as culturas exista o par conceitual: Bem-Mal, indica a crença da humanidade na existência de uma Lei Universal de valores. Ninguém duvidará, de que toda a conduta humana seja orientada por esta lei, e prefira conservar os valores mais elevados (subjetivamente) ao invés dos inferiores. Aquela lei de preferência dos valores, apoiado na qual um indivíduo humano orienta sua conduta, não é outra coisa senão o que chamamos de caráter. O caráter de um homem é, portanto a forma, ou, uma forma de legalidade de sua conduta, qualquer coisa como uma regra ou uma norma. Na medida em que uma regra contém a forma geral de preferência, ou menosprezo dos valores, por parte de uma pessoa, pode o caráter ser chamado, para nos apoiarmos na conhecida expressão de Kant, “o imperativo categórico individual”. Não se pode afirmar, de maneira nenhuma que seja possível exprimir em palavras, ou em cada caso as regras ou, leis individuais de preferência valorativas. Existe na verdade caráteres ou pelo menos tipos de caráter de estrutura relativamente simples e para as quais é possível uma tal formulação; pensa-se por exemplo, no “homem econômico” de Spranger, um tipo no qual todas as ações se orientam para o valor central da Utilidade. De modo geral, quando se trata de pessoas singulares tal formulação é quase impossível. Não que não possamos por o caráter humano numa fórmula simples, nós não podemos é dar uma determinação essencial do Caráter.

A NATUREZA DO CARÁTER

As opiniões de autores sobre esse assunto, tão contraditórias que ficamos impossibilitados de recorrermos a eles. Então seguiremos um conceito independente, com o fim de colhermos ensinamentos e determinarmos a natureza do caráter.

Quando queremos conhecer o caráter de um homem, olha-se em primeiro lugar para o que ele faz. Na verdade todos pressupõem mais ou menos, que as declarações de um homem a respeito de suas concepções, intenções e sentimentos devem concordar também com suas ações. Entretanto, a experiência nos mostra muitas pessoas conscientemente ou não, não se comportam de conformidade com os princípios que apresentam em suas palavras. Que “as belas palavras” possam encobrir feias intenções é um fato constantemente verificado. A verdade é que em tais casos, as más intenções sempre deverão aparecer em qualquer tempo ou ocasião. Sempre se soube e se ensinou que a conduta do homem, esclarece plenamente seus sentimentos, sua verdadeira opinião e, também aquilo que se chama caráter. Não se deve, porém tomar em um sentido estrito este conceito de conduta ou ação. Não só devem ser examinados os fatos que recebem especificamente aquelas denominações, como também todos os movimentos, gestos, expressões fisionômicas, atitudes corporais e traços de rosto, além da maneira pela qual a pessoa se porta em diversas atividades ditadas pelas situações, numa palavra, todas as particularidades compreendidas num conceito amplo de “comportamento” fornecem uma base à natureza do caráter.

Todo comportamento, porém é, por sua própria natureza, ação e reação. Na realidade há modos involuntários de comportar-se: o susto diante de uma viva impressão repentina, o gesto involuntário que trai uma comoção sentimental, a vermelhidão da cólera, ou a palidez do medo são exemplos disso. Como estamos convencidos de antemão, e de um modo geral, que é necessária para o conhecimento do caráter, a observação mútua, de múltiplas opções e modos de proceder as individuais de uma pessoa por outra. Segue-se evidentemente que o caráter deve ser alguma coisa que está por assim dizer contido em uma ação isolada e é, de qualquer modo, alguma coisa de comum, e que pode ser atribuída a todas as ações em particular. O caráter não é uma soma, ou como quer a Psicologia Moderna, um constituído somático, mas o caráter é uma unidade.

CARÁTER AMBIENTE E HERANÇA

Depois de precisas pesquisas, chegou-se a conclusão de que para uma fundamentação científica da lei de preferência de valores do indivíduo ou, para a fundamentação de seu caráter, existem dois elementos de fundamental importância: a formação da pessoa e, o modo pela qual esta representa o mundo, melhor conceituando, o conjunto de mundos a que ela como os outros homens se exprime e pertence. Como segundo momento, se exprime a importância (que nunca pode ser desprezada), do ambiente de uma pessoa, na formação do seu caráter. Mas a isso, não devemos entender no sentido de uma teoria naturalista do meio, como queriam H. Taine e seus sucessores, que afirmavam ser o caráter a resultante de diversas forças atuando sobre o homem.

TENDÊNCIAS PRIMÁRIAS

Pode se afirmar a priori que, em todo homem, deve estar em ação pelo menos aquela tendência fundamental que existe em todo ser vivo e, talvez em todo ser criado em geral. Em biologia, essa tendência é denominada instinto de conservação. Uma tendência a preservar no modo existente do ser, ou parecer não poderia ser considerada, ser razão como um traço essencial de todos os seres, qualquer que fosse sua espécie, como o faz, por exemplo, Espinoza ao afirmar: “Uma tendência a permanecer em seu ser existente, um impulso para a auto conservação, só podem de fato, se tornar um impulso visível de modo geral, quando uma força qualquer pode modificar o ser existente ou ameaçar a continuação do ser vivo”.

O instinto de conservação é a tendência a conservar o existente, diante de quaisquer ações que o ameacem. Essas ações só podem naturalmente ser eficazes, naquelas regiões do ser a que pertence à natureza em questão, e no homem a tendência a autopreservação manifesta-se de diversas maneiras.

Para o desenvolvimento do homem, e a forma do seu caráter, não importa somente o ser, as conexões real e existencial a que se acha constantemente ligado, mas também a consciência; não importa apenas as condições e maneira de sua vida, mas também e mui especialmente, a de sua vivência. O mundo ambiente do homem é, antes de tudo, o mundo da sociedade, o dos outros homens. Por isso, a tendência à autoafirmação adquire na forma orientada para a sociedade uma importância dominante. Como veremos, o predomínio da relação de sociedade positiva ou negativa é tão considerável, que sua formação correta serve de base para as relações igualmente corretas com as outras regiões do ser. Não é necessário dizer que uma viva participação nos fatos culturais, no reino do espírito objetivo não pode ter lugar sem uma relação correspondente com a sociedade ambiente. Mas a união do homem com o espírito ideal, com o reino das verdades e valores efetivos é absolutamente inconcebível, sem o intermediário de outrem. Verifica-se também que a relação com o sobrenatural nunca se pode formar de modo adequado, quando não lhe serve de base uma relação anterior com a sociedade. A ordem na sociedade e a conformidade com a ordem sobrenatural é o reflexo analógico da relação estabelecida entre os dois domínios pelo ensinamento de Deus.

ORIGEM RELATIVA DOS TRAÇOS

Não é fácil decidir se um traço qualquer que nos aparece na natureza de um homem, ou qualquer peculiaridade distintiva da sua norma de conduta ou caráter deve considerar-se como uma formação reativa, uma resposta, as influências do ambiente, ou como pertencente à essência última do homem a sua própria pessoa. Tem-se a impressão de que não há uma propriedade, ou traço de caráter que não pudesse, em última análise ter uma origem reativa. Sabemos por exemplo que uma certa preguiça, uma lerdeza e limitação intelectuais e um sentimento embaralhado surgem em consequência de um funcionamento abaixo do normal, são portanto características que assinalam determinado estado do organismo e como este é, uma face da natureza integral corpóreo-espiritual do homem, elas podem ser também consideradas como sinais de um estado dessa natureza nesses casos. Porque sabemos e comprovamos que traços, ou pelo menos aparências idênticas que para nós são indiscerníveis das devidas à insuficiência da tireoide, podem aparecer como formação reativa.

Deixando de lado as conjunturas sobre os traços na infância, que muitas vezes não podemos tomar como exatos consideramos que devam existir traços essenciais primários e dependentes do estado último e mais profundo da pessoa; duvidamos muito, porém, de que pelo menos no estado atual de nosso conhecimento seja capaz de reconhecer esses traços essenciais como tais e distingui-los dos de formação reativa. Devemos nos contentar, com a hipótese de traços essenciais constitucionais e firmados na estrutura pessoal, quando uma indicação da reação (influências ambientais), não pode ser obtida.

Não podemos subordinar os traços à vida interior, orgânica e de outra forma, não podemos julgar os traços de origem social apenas, ambos, o organismo e o meio são intrinsecamente responsáveis pela formação e desenvolvimento dos traços. Deste modo, um homem que tenha sido criado nas mesmas condições de outro, pode apresentar traços, e sempre apresentam diferentes, um do outro, o fato é porque nunca encontramos dois seres humanos que tenham tido as mesmas “condições de vida”.

FONTE DE IDEIAS

As ideias que no decorrer de uma vida podem sofrer transformações substanciais derivam de várias fontes principais. Em primeiro lugar, se originam do seguimento e imitação. Esses dois com fronteiras nítidas, ou melhor, ditas bem determinadas. Do mesmo modo, o verdadeiro seguimento que pressupomos formar a afirmação interior da pessoa tomada como exemplar produz facilmente a imitação. Reciprocamente, a pura imitação pode passar a seguimento, ou servir de base para um seguimento. Mas a face negativa da imitação também pode servir de base para um ideal de caráter.

A importância do ideal de caráter para a vida individual e para a formação do caráter realmente acabado que é a norma fundamental da conduta é variável, segundo o tipo de ideal e sua formação originária.

Quanto ao modo de geração, ou as fontes do ideal de caráter devemos acrescentar que existem duas forças agindo neste sentido: o conhecimento das leis de valores efetivos e da hierarquia de valores, e segundo as formas de caráter, não se pode naturalmente querer atribuir todas as formas de ideal apenas e unicamente aos efeitos de compensação. Quem assim fizer, estará desconhecendo uma fundamental lei da conduta humana, que vem ao mesmo tempo do Eu, e do não-Eu. A forma naturalístico-psicológica de ser rejeitado no que concerne à atribuição da formação dos ideais, somente a compensação ou supercompensação. No entanto estes fatores subjetivos carecem de uma rigorosa observação, porque de fato, a compensação, está estritamente associada à geração do ideal, e seu desprezo prejudicará os esforços feitos pelos educadores e psicólogos, para aproximar o discípulo de determinadas exigências do ideal.

O IDEAL DO CARÁTER

Verifica-se, pois ao retomar o problema do ideal do caráter, que em cada forma de ideal existente, de certo modo, no fundo da própria pessoa e emprestando-lhe uma forte marca, pode estar oculto um perigo bem considerável e por isso deve-se ter sério cuidado em implantar fortemente essas ideias na criança. No fundo existe apenas um ideal: o da objetividade, da dedicação, do serviço. Há também no fundo uma única virtude, a vontade humilde de conformar-se com a vontade de Deus, e um único pecado, a revolta contra a vontade Divina.

Em múltiplos aspectos difíceis de ver, mostra o orgulho, sua natureza; ele se disfarça por trás de inúmeras máscaras. Do ponto de vista, a que o demônio aparece, por vezes, como um anjo de luz, assim também o orgulho se encobre sob as vestes da humildade. Não é nos modos pelos quais se apresenta que pode na maioria das vezes profundamente conhecê-lo. Só nos efeitos das atitudes interiores dos homens, se oculta, o que ela realmente é. A essência do homem consiste numa posição absoluta da própria pessoa, numa recusa de toda ligação. Daí as consequências posteriores, isto é, um isolamento ou pelo menos, uma fuga da realidade na sociedade, no trabalho, no amor, ou finalmente na relação com Deus.

O único ideal de caráter que pode ser plenamente justificado pelas condições essenciais da existência e da natureza humana, por mais variáveis que sejam estas condições individuais, culturais, nacionais, etc., representa uma tensão, dentro dos limites de uma forma de vida que é uma unidade de polos contraditórios; indivíduo e sociedade, valor próprio da pessoa e valor da totalidade, finitude da criatura e vocação para participar da eternidade Divina.

NEUROSE

Tendo em vista vasta divergência quanto à natureza da neurose, consideraremos aqui, somente a teoria que considera a neurose como dependente de certas alterações orgânicas do corpo. A afirmação de que um “sistema de nervos” fraco, é a base de todas as manifestações neuróticas, é inteiramente falso. Elas provem por sua vez, de uma concepção essencialmente materialista, que não pode nem quer ver outra coisa, senão as perturbações da natureza e da conduta humana condicionada pelas alterações orgânicas.

Para determinarmos a natureza da neurose, devemos indagar primeiramente se podemos falar com razão da neurose, uma vez que o estado assim denominado pode aparecer sob uma multiplicidade de formas, nos fazendo duvidar de que existe um conceito unitário. Numa pura descrição a histeria, a gagueira, a fobia, a hipocondria, as neuroses do coração e do estômago, a neurastenia, etc., nos dão a impressão de que se trata, em cada caso de um tipo inteiramente diferente. Em primeiro lugar, uma experiência de que em uma única e mesma pessoa, tais estados se revezam e podem mesmo alternar-se. Por conseguinte, não podemos supor uma disposição de fundo constitucional para uma neurose. Pelo contrário, o que se verifica é que a modificação da forma é condicionada situativamente pelos estados de vida e a experiência especifica de cada indivíduo.

A neurose no fundo é uma só apenas, e ela apenas variará com as condições de manifestações ou em outras condições “acidentais”. Em segundo lugar uma análise psicológica descobre nos estados neuróticos certos traços gerais, comuns a todos; esses traços são em essência, os mesmos existentes na criança, difíceis de aprender.

Considerada geneticamente, a neurose se origina da exaltação, da tensão que existe em todo homem, entre a vontade de poder e a possibilidade do poder. Em outras palavras, a neurose é um resultado imediato da situação essencialmente humana, que se baseia na natureza decaída. Pode-se dizer que a neurose é uma consequência da revolta da criatura contra o seu Criador.

FINS NEURÓTICOS E TRAÇOS DE NEUROSE

A tensão vivida pela pessoa, entre suas exigências e ideias e sua consciência de produção, é decisiva. A insegurança que nela reina nascida da vivência da depreciação, que, por sua vez leva a um grau tanto maior ver se elevando desmedidamente através desse afastamento, sempre crescente entre as exigências e as possibilidades da pessoa. Se o homem se contentasse “com possuir um talento”, não precisaria de artificialismo e de ilusão da neurose e, poderia realizar uma espantosa experiência: verificar que essas possibilidades embora não atinjam o que reclama, pode ir bem além do que costumava julgar impossível. “Eu possuía uma terra”, disse certa vez um neurótico compulsivo. “Não era muito boa, mas chovia lá dentro. Agora, porém, só possuo um monte de tijolos. O senhor destruiu minha torre”, (referindo-se a seu psicólogo), então o psicólogo lhe respondeu: “Com estes tijolos você poderia construir uma casa de família”, dois anos mais tarde este neurótico casou-se de modo inesperado.

Como traços de neurose, enumeramos as seguintes:

  1. A sensibilidade que é sem dúvida um dos disfarces do orgulhoso, é encontrada no homem sob a forma de sensibilidade, porque o homem desta natureza, orgulhoso, julga-se sensível por estar sempre impondo aos seus semelhantes o modo pelo qual ele julga, deveria ser tratado. Desta forma o que se conhece por “sensibilidade”, que caracteriza os indivíduos “afetados” é um traço de neurose;

  2. Outro traço da neurose é a chamada “desilusão”. Tais indivíduos que sempre se desiludem com tudo, estão sempre julgando que o mundo deveria ser governado pela sua cabeça, assim, nunca as coisas acontecem como ele julgava, tendo em vista porque ele não pode aceitar como são;

  3. Podemos também citar como traço de neurose, a incapacidade de decidir, sempre apresentada por alguém. Estas pessoas estão sempre a pedir conselhos aos outros, e quando fracassam logo põem a culpa no conselheiro que ele buscou, exatamente prevendo este tipo de fuga.

POSSIBILIDADE DE AUTODESENVOLVIMENTO

A autoeducação pressupõe como é natural um conhecimento de si, isto é, um conhecimento de si mesmo. Embora seja impossível a pessoa tornar-se objeto de si mesmo, o conhecimento de si mesmo, tem que ser levado a efeito. Este conhecimento não pode ser nunca um conhecimento intuitivo de sua natureza, mas sim um conhecimento baseado em certos dados, que por sua vez permitirão a posteriori, um conhecimento mais profundo.

Desta forma o método usado para o autoconhecimento é o mesmo usado para o conhecimento de outrem. Isto é, para compreendermos, assimilarmos o conhecimento sobre determinada pessoa humana, isto só é possível não pelas declarações, pensamentos e sentimentos que o outro faz a respeito de si, mas sim pelas alterações reais, que este outro introduz na realidade. Assim para conhecermos a nossa própria pessoa, devemos tomar a mesma atitude de comprovação que tomamos para conhecermos o caráter do outro.

CAPÍTULO III – O TEMPERAMENTO

CONCEITO DE TEMPERAMENTO

A confusão entre o caráter tem acarretado sérias confusões e consequências para a teoria ética. As preferências atinentes a diferenças de temperamento são mera questão subjetiva de predileção, ao passo que as diferenças de caráter são eticamente de fundamental importância.

Temperamento refere-se à maneira de reagir, sendo constitucional e imutável. O caráter é essencialmente formado pelas experiências da pessoa especialmente na infância e modificável até certo ponto, por novas espécies de experiências.

Temperamento é antes de mais nada, a condição ou série de condições anatomofisiológicas que emprestam maior ou menor calor a nossas reações, as tornando, ora mais, ora menos, rápidas e vivas, ora mais ou menos lenta e apagadas.

O temperamento depende principalmente da constituição original do sistema neuromuscular, assim como da atividade funcional das glândulas de secreção interna, assim, o temperamento não raras vezes é a causa imediata dos mais incisivos efeitos e feitios da nossa personalidade. Dele é por certo, de onde provém na maioria das vezes, sermos ou não calmos, ponderados, afoitos ou irrequietos, agressivos ou tímidos.

CONSTITUIDORES DO TEMPERAMENTO

O temperamento depende de fatores internos e externos, os fatores internos resultam de condições existentes no próprio indivíduo e os fatores externos, de condições que se encontram no seu exterior.

  1. Fatores internos são tudo aquilo que hereditária ou originalmente nos é inerente, e, por conseguinte nos acompanha desde a nossa formação. São estes fatores que fazem com que um determinado indivíduo tenha estes, e outro tenham aqueles desejos ou inclinações. É o que faz com que uma pessoa, seja mais inteligente do que outra, mais tenaz, que tenha este ou aquele gosto pela arte.

Depende muito principalmente da constituição original do sistema neuromuscular, assim da atividade funcional das glândulas de secreção interna.

  1. Os fatores externos são representados pelas influências do meio físico e do meio social. O meio físico compreende todas as circunstâncias cósmicas, que não dependem do homem e que não são criadas, tais são: a flora, a fauna, condições meteorológicas da região por ele habitada, bem como acidente do terreno ou das águas, riquezas ou pobreza mineral e assim por diante.

Desde os dias mais remotos da história, muito antes de aparecerem os escritos relativamente recentes de CUVIER e MONTESQUIEU em favor da mesma e significativa tese, os pensadores da Índia e da Pérsia antiga, os poetas, historiadores e eminentes da Roma e Grécia, quase todos já haviam repetido e insistido no insólito fator desenvolvido pelo meio físico sobre o ser humano. Como influências do meio físico não podemos esquecer-nos das doenças e moléstias a que sempre está sujeita a criatura humana, principalmente aqueles que o surpreendem nas primeiras etapas do seu desenvolvimento biológico, quando a criatura por bem dizer, ainda vegeta no seio materno. São, com efeito, sem contar as intoxicações e as infecções que insidiosamente costumam acometer o embrião, ou o feto, ocasionando em seus frágeis órgãos ainda inacabados, alterações que mais tarde poderão acarretar sensíveis variações no temperamento.

CLASSIFICAÇÃO DOS TEMPERAMENTOS

A velha teoria dos temperamentos exposta por Hipócrates, 460 anos antes de Cristo, perfilhada mais tarde por Galeno (Grego), tornada corrente durante toda a Idade Média, e com alguns retoques aproveitados em nossos dias por Wundt, pode considerar-se a primeira tentativa séria de uma ordenação metódica da personalidade, do temperamento, assim ordenados: 1º Temperamento sanguíneo, 2º Temperamento bilioso ou colérico, 3º Temperamento atrabiliário ou melancólico e 4º Temperamento pituitoso ou fleumático. Apesar de atualmente relegadas, absoletas, a sistematização não deixa em alguns pontos de coincidir com a moderna sistematização de Ivanov, Smolenski, sistematização esta que por sua vez, não passa de uma simples transposição para o domínio humano da discriminação feita por Pavlov.

A discriminação feita por Pavlov tem por base as suas memoráveis experiências sobre o chamado reflexo condicionado. O grande e inolvidável fisiologista soviético notou, com efeito, nos ditos animais quatro diferentes tipos constitucionais, que muito de perto lembram os quatro tipos de temperamentos:

  1. Tipo excitável – corresponde ao clássico colérico, no qual os reflexos condicionados positivos se estabelecem prontamente, mas os negativos, isto é, os que dependem de uma inibição, custam a implantar-se. Os animais desse tipo, impetuosos e agressivos, facilmente se descontrolam e se rebelam quando punidos pela mão amiga e conhecida do seu dono;

  2. Tipos de temperamentos inibidos – corresponde ao melancólico, e que predominam os processos de inibição, e por isso mesmo, são difíceis de assimilar os reflexos condicionados positivos. Os cães dessa espécie caracterizam-se por uma índole sumamente submissa, e excessiva timidez, que caracterizam os comportamentos amedrontados do cão diante uma palavra áspera do seu dono;

  3. Tipos de temperamento equilibrado, mas ativo – equivale por assim dizer ao temperamento sanguíneo com animais desse tipo, são espertos e curiosos, vivem a farejar e a correr por toda parte, tornando-se difícil o domínio sobre eles;

  4. Tipo equilibrado mais inerte, isto é, imperturbável e preguiçoso, e que se pode muito bem equiparar ao temperamento fleugmático.

CLASSIFICAÇÃO DE EDUARD SPRANGER

Spranger, filósofo germânico, fez interessante classificação tipológica, publicada em sua obra famosa “Formas da Vida”, cuja primeira edição data de 1914. Sustenta o mencionado filósofo que o modo de ser de cada indivíduo humano resulta, acima de tudo do sistema de valores por ele adotado em face da vida, sistema esse que, por sua vez, deriva das tendências ou interesses básicos, que a sua revelia e por força de circunstâncias e valores especiais, nele se desenvolveram. Assim tomando em consideração a natureza dessas tendências ou interesses, concluiu ele, podem os homens classificar em seis grandes categorias: o homem teórico, o homem econômico, o homem estético, o homem social, o homem político e o homem religioso.

Eminentemente intelectual o homem teórico só se preocupa com o saber, podendo apresentar-se sob as distintas máscaras do empírico, do apriorista, do analista, do sintetizador, do crítico ou do cético. No meio social ele é personificado pelos filósofos, os cientistas puros, os pensadores, os investigadores de toda ordem.

O homem econômico, avesso em geral a tudo que seja conhecimento especulativo, é um espírito eminentemente prático, que só, ou quase só, se interessa pelo que lhe possa trazer proveito. Especialmente glorificado, isto é apresentado pela civilização norte americana. Esse tipo é fartamente representado por advogados, engenheiros, industriais, banqueiros, organizadores de empresas e negociantes de qualquer espécie.

O homem estético sobressai entre os que rodeiam por seus estranhos amores, os aspectos estéticos da vida. A arte pela arte é seu lema predileto. É nele que se encarnam não só o poeta, o pintor, o escultor e o músico, como também todos aqueles que incapazes de criar, se mostram propensos à admiração de tudo o que é belo.

O homem social caracteriza-se, sobretudo, por sua extrema benevolência e seu mal contido altruísmo. Servir ao próximo e ampará-lo de todas as maneiras parecem-lhe a única razão de ser. São os filantropos e auxiliadores da humanidade em geral.

O homem político, que nos tem dado os ditadores, os condutores de massas, os tiranos e os chefes de todos os matizes pode se dizer que são aqueles que nascem com vocação do poder e do mando. Se não é o mais comum, é pelo menos o mais universal de todos os tipos. Não podemos confundi-los com os homens sociais, pois estes só demonstram interesses pelo bem público e na maioria das vezes, como um disfarce para acobertar seus sentimentos egoísticos. César Bórgia, tão exaltadamente decantado por Maquiavel, em sua imortal obra “O Príncipe” é o modelo mais acabado do tipo político.

O homem religioso não se deixa confundir por nenhum dos outros tipos indiferentes, absorto em suas esperanças, só pensa nas alegrias da vida futura e nos insondáveis mistérios do além.

Contra tal classificação costumam sempre se levantar, articulados e bem ponderados reparos. Este sistema não é completo, é muito filosófico, é restrito em seus tipos, que bem poderiam ser acrescentados de mais tipos. Ela tem certa aprovação, porque tem um quê de Ocidentalismo e este mundo nos toca profundamente, a nós, em nossa cultura.

CLASSIFICAÇÃO DE JUNG

A classificação de Jung enquadra-se dentro das classificações que mais são aceitas em nossos dias. Jung, preocupado apenas com o aspecto anímico da personalidade, o grande psiquiatra suíço, tomando em consideração as relações fundamentais do indivíduo com o universo, ou, por outros termos, do sujeito com o objeto, separa dois capitais e importantes tipos humanos: o introvertido e o extrovertido.

O introvertido, conforme sugere a palavra, vive voltado para seu interino, isto é, para o mundo dos seus próprios sentimentos, de suas próprias ideias, as quais consideram ele, como sendo os únicos dignos de atenção. Mais ou menos alheios aos acontecimentos que o envolvem, ao contrário do extrovertido, ele procede como se quisesse esconder-se da influência das coisas, e sobretudo das pessoas que o cercam.

O extrovertido, ao contrário como a palavra insinua, vive voltado para as pessoas, as coisas, para o mundo exterior onde parece encontrar tudo aquilo de que necessita para satisfazer seus interesses. Facilmente ele é adaptável ao mundo, e as mudanças que ocorrem nele, dir-se-ia que ele procura evitar o contato íntimo de seu ego, como se quisesse defender-se das exigências deste. Quase sempre otimista, versátil, curioso e sociável, o extrovertido, quando porventura cai vítima de alguma neurose, de preferência descamba para a histeria.

Jung faz questão de frisar que os tipos por ele demarcados não se excluem, como a primeira vista pode parecer, mas estão antes sempre juntos em cada ser humano: na realidade, o que de fato comumente se nos depara é a fusão dos dois, com o variável predomínio de um sobre o outro.

CLASSIFICAÇÃO DE TEMPERAMENTO SEGUNDO ALGUMAS ESCOLAS

No início do século XIX, surge com Gall e Spurheim (cientistas da França), uma tentativa de fixar tipos humanos a frenologia, ou teoria da frenologia, que procura descrever as relações entre a forma do corpo (particularmente do crânio), e o tipo de inteligência. Esta classificação que apresenta três tipos tornou-se conhecida graças a descrição feita por Rostan, que divulgou em 1826. A Escola Francesa está assim distribuída:

  1. Tipos digestivos são de inteligência apoucada, crânio pequeno e sem bossas, ou poucas bossas, dominada pela função de nutrição, indivíduo “que vive para comer”;

  2. Tipos respiratórios são fortes, enérgicos, dominados por movimentos, indivíduos que “vive para fazer”;

  3. São indivíduos com grandes bossas, cabeças salientes, são tipos chamados cerebrais. São dominados pela vida de relação, de interesses morais e intelectuais, “indivíduos que vivem”.

Os Holandeses trabalhando em outra direção, isto é, com critérios e teses puramente psicológicas, deram uma contribuição apreciável. Trata-se dos trabalhos de G. Heymens e E. Wiersma. Apresentaram em 1910 uma classificação das personalidades, á base do temperamento. O temperamento estaria constituído de três atributos, cuja combinação determina os diferentes tipos. Estes atributos são os seguintes: a emotividade, a atividade e a função secundária ou perseveração. Segundo estes critérios, os temperamentos foram agrupados do seguinte modo:

  1. Emotivo, não ativo, de função primária-nervosa;

  2. Emotivo, não ativo de função secundária-sentimental;

  3. Emotivo, ativo, de função primária-colérica;

  4. Emotivo, ativo, de função secundária-apaixonado;

  5. Não emotivo, ativo, de função primária-sanguíneo;

  6. Não emotivo, ativo, de função secundária-fleugmático;

  7. Não emotivo, não ativo, de função primária-amorfo;

  8. Não emotivo, não ativo, de função secundária-apático.

Embora estas escolas agradem a alguns psicólogos, ela não é mais usada nos dias de hoje, tendo em vista que os adjetivos amorfos, sanguíneo e apaixonado nada nos dizerem.

A Escola Italiana, também contribuiu para a fixação da biotipologia, em meados do século XIX, a Escola Italiana baseou-se em estudos antropológicos, e o precursor dos estudos Italianos foi Giovanni, e quem sistematizou tais estudos foi o médico e fisiologista Viola. Viola por meio da antropometria, conseguiu distinguir dois grandes grupos, cujos tipos característicos são:

  1. Macrosplâncnico – vísceras grandes;

  2. Microsplâncnico – vísceras pequenas.

Os macrosplâncnicos, seriam hipeevoluídos, de inteligência muito presa a preocupações digestivas, mentalmente apoucado e moralmente embrutecido.

Os microsplâncnicos, ao contrário, seriam hiperevoluídos, dinâmicos, intelectualmente avançados e moralmente refinados.

A classificação de Viola, gozava de grande crédito, até que apareceu a Escola Alemã, estruturada por Ernst Kretschmer, que publicou “Estrutura do Corpo e o Caráter”, (pesquisa sobre os problemas da constituição e da ciência dos temperamentos), ao contrário da maioria das classificações anteriores, tinha o grande mérito de basear-se nas reações psíquicas para estabelecer a tipologia, apoiando-se mais no critério psicológico, embora combinado com o fisiológico, até empregado quase exclusivamente. Segundo esta escola, os tipos ficaram assim distribuídos:

  1. Ciclotímico:

  1. Hábito externo: brevilíneos ou pícnicos;

  2. Temperamento: ritmo fisiológico-psíquico cheio, ondulatório, passando da alegria para a tristeza e vice-versa, quase sempre em função de estímulos externos do meio social;

  3. Caráter ou atitudes sociais: prático, objetivo, sociável, entusiasta, gostando de conviver com outros, expansivo, pouco imaginoso, ativo, realizador, gostando de muitos ao mesmo tempo.

  1. Esquizotímico:

  1. Hábito externo: maior percentagem de longilíneos ou leptossomáticos;

  2. Temperamentos: ritmo fisiológicos-psíquicos oscilatório, passagem inesperada do prazer a dor, e da alegria a tristeza, motivações subjetivas, razões estranhas na maioria das vezes á situação ambiente;

  3. Caráter ou atitudes sociais: subjetivos, gostando de esquematizar e interpretar os fatos dentro de fórmulas, contemplativos, concentrados, adaptação ao meio social apenas externa, amigos da solidão, das ideias e atos originais, forte espírito de síntese, predomínio da reflexão sobre a afetividade, etc.

  1. Gliscroide:

  1. Hábito externo: maior percentagem de normolíneos atléticos;

  2. Temperamento: ritmo fisiológico-psíquico constante, martelado, igual, afetivo-acumulativo, concentração ou polo do prazer, ou no da dor, viscosidade;

  3. Caráter ou atitude social: metódicos, escrupulosos, perseverantes, tenazes, hábitos fixos, aderem sentimentalmente aos objetos, pessoas ou atos, conservadores, sentimento de dever e responsabilidade em alto grau, intransigência moral, etc.

O trabalho de Kretschmer teve merecida repercussão, não só pela originalidade, como pelos fundamentos científicos, antropológicos, estatísticos e psicológicos com que foi apresentado.

VARIEDADES GERAIS DE TEMPERAMENTOS

  1. Viscerotônico, quando teve ambiente cultural elevado, e foi cercado de situações favoráveis, apresenta finura no trato, maneiras educadas, é dado. São estas pessoas que causam sempre boa impressão e apresentam ótimas qualidades normais. Quando, porém o viscerotônico é criado em ambiente desfavorável, torna-se completamente materializado;

  2. Somatotônico, é o tipo que distingue pela firmeza de ação, dinamismo e combatividade. Prefere estar em movimento a ficar quieto, sobretudo nos momentos de crise e aflição. Quando cresce em meio educacional propício, desenvolve atitude de liderança. É progressista, reformador e realizador. Quando cresce em meio social detestável, torna-se brutal, agressivo, impiedoso, tirânico, indisciplinado;

  3. Cerebrotônico, é caracterizado por seu estado permanente de contenção (tolhimento, ou constrangimento), é muito sensível a qualquer excitante externo, por isso vemo-lo constantemente apreensivo, como se esperando alguma coisa. Os cerebrotônicos, são de pessoas de nervos “a flor da pele”.

Quando crescem em condições culturais elevadas, o cerebrotônico torna-se pessoa requisitada, idealista, com gosto acentuado pelos prazeres dos sentidos ou do espírito; ou, ao contrário, fria, distante, aristocrática, dando a impressão de detestar este mundo de necessidades baixas e gritantes.

Quando, porém, cresce em condições sociais desfavoráveis, o cerebrotônico dá impressão de pessoa infeliz, sem iniciativa, que está sempre na dependência que outros o ajudem a fazer e a falar. Este tipo quando é dotado de baixo Q.I. torna-se extremamente desamparado e incapaz perante a sociedade.

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  13. WOODWORTH, Robert S. e Donald S. Marquis – 8ª edição – Companhia Editora Nacional – São Paulo, 1976, 116 páginas.

Antonio Maspoli
Antonio Maspoli
Sou Antonio Maspoli, cidadão do mundo, Teólogo e Psicólogo. Deus é a minha herança pessoal, meu caso de amor! Deus encantou-me com o a sua presença. E abriu-me as porta do conhecimento do numinoso: "Eu cri, por isso compreendi" (Agostinho). Desde então dediquei a minha vida a conhecer a Deus. E a minha existência a compreender a natureza humana.

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