O Pensamento de João Calvino e a Ética Protestante de Max Weber, Aproximações e Contrastes

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Resumo: O homem contemporâneo geralmente atribui a origem da ética protestante de Max Weber a teologia de João Calvino. Neste artigo o autor compara as principais categorias teológicas do pensamento de João Calvino com a ética protestante de Max Weber, demonstrando que o advento do capitalismo moderno é um processo posterior a Reforma Protestante do século XVI, produto talvez da cultura protestante norte-americana e explicitando as aproximações e contrastes que se verificam na obra de Calvino e Weber no campo da ética do trabalho.

Palavras Chaves: teologia, sociologia da religião, ética, protestantismo.

 

  1. Esboço esquemático da vida e obra João Calvino

Lessa, (s.d.) traçou uma importante biografia de Calvino que passamos a considerar em nosso trabalho Além de outros autores. João Calvino nasceu em meio a uma teocracia. Nascido na cidade de Noyon, na França, aos 10 de julho de 1509, o que era então uma pequena cidade eclesial, dominada por sua catedral e seu bispo: desde o nascimento ele já teve o conhecimento e a experiência do significado de um governo de uma sociedade dominada pelo clero e exercido em nome de Deus. Além do mais seu pai, Gerard Chauvin, era secretário do bispo e ao mesmo tempo era fiscal de condado, o que lhe dava condição econômica privilegiada para os padrões da época. Calvino, comparado aos critérios contemporâneos, teria nascido na classe média, pertencia à burguesia. Calvino perdeu sua mãe ainda muito cedo e este fato marcou profundamente a sua personalidade.  Esta perda produziu um Calvino circunspecto, introvertido, fechado dentro de si mesmo, dono de uma riquíssima vida interior que mercê do Espírito Santo de Deus, produziu uma espiritualidade profunda e cautelosa. Tendo Gerard Chauvin ficado viúvo muito cedo (João Calvino era ainda muito jovem quando isto aconteceu) casou em segundas núpcias e acreditam alguns historiadores que muito da sobriedade de Calvino adviesse de uma estrita educação imposta pela sua madrasta, uma mulher refinada.

Três dos seus irmãos foram consagrados por Gerard Chauvin ao sacerdócio, numa tentativa de melhorar o patrimônio da família haja vista que na idade média as riquezas pertenciam ao clero e a nobreza. Um dos irmãos de Calvino, Charles, veio a se tornar um herético e morreu recusando-se receber os sacramentos depois de haver se tornado um clérigo em Noyon.  Pouco antes de morrer foi excomungado pela Santa Sé. Somente seu irmão mais novo, Antonie, e uma de suas duas meio-irmãs, Marie, adotaram a fé Protestante de Calvino e mais tarde o seguiriam para Genebra. Calvino latinizou o nome da família Chauvin para Calvinus de onde veio mais tarde dar no francês Calvin.

Irwin (1947) registra que Calvino estudou em Noyon depois, aos 14 anos de idade, foi enviado por seu pai a Paris, aonde viria estudar na Universidade de Paris. Ele se matriculou no famoso Colige de la Marche, onde ensinavam ilustres professores, como o latinista Mathurin Cordier e que viria mais tarde passar os seus últimos anos na companhia de seu ex-pupilo em Genebra. Dali ele passou para o ainda mais famoso Collége de Montaigu, aonde viria encontrar alguém que teria uma profunda influência na sua vida acadêmica que exercia uma forte influência sobre todo o corpo docente da escola, o intelectual conservador, Noel Beda. Ainda que mais tarde Calvino viesse a se afastar do conservantismo de Beda aprendeu com ele, em suas aulas de lógica, a grande arte da argumentação, que iria expressar em todo seu esplendor, na sua obra teológica.

Registra-se que uma crise entre seu pai e a igreja ajudou nesta mudança que foi precipitada por uma disputa financeira entre seu pai e a catedral de Noyon, tendo o mesmo, mais tarde, sido também excomungado pela Igreja Católica Apostólica Romana.

Convém destacar que no mesmo ano de 1528, em que Calvino deixou a Montaigu, lá chegou àquele que viria ser seu mais austero rival, Inácio de Loyola, o fundador da Companhia de Jesus e um dos maiores estimuladores da Contra Reforma. Ao mesmo tempo em que estudava Direito em Orleans, estudava grego com Melchior Wolmar, um alemão de tendência luterana, e assim vislumbrou a possibilidade de se tornar um humanista. Com a morte de seu pai, porém, em 1531, após completar o seu doutorado em Direito, ele dedico-se de corpo e alma ao estudo de línguas e de literatura, tendo, como conseqüência de seus dois novos interesses, a literatura e as idéias do florescente luteranismo. Ainda não se conhece no Brasil a influência de Lutero sobre Calvino.

Em 1532, Calvino publica o seu primeiro livro, um comentário à obra De Clementia de Sêneca, este livro, Calvino já procurava induzir o Rei Francisco I a exercer clemência para com os protestantes da França. Segundo um dos seus maiores estudiosos; na contemporaneidade, John T. Macneill, esse livro tinha como intenção induzir o Rei Francisco I, a exercer clemência para com os Protestantes da França. Calvino demonstrava neste seu trabalho uma óbvia simpatia para com a causa Protestante, mas a oportunidade deveria forçar um pouco as coisas de modo que, um amigo íntimo de Calvino, Nicolas Cop, foi nomeado reitor da Universidade de Paris em 1553, e o seu discurso de posse recheado de críticas aos censores da Sorbonne, com citações que começavam com Erasmo, passando pela Doutrina Luterana da Justificação pela Fé, terminava com um veemente apelo para uma maior tolerância em relação às novas idéias religiosas da reforma protestante.

O resultado foi tremendo, Nicolas e todos os seus amigos tiveram que abandonar Paris, ficando o mesmo com a cabeça a prêmio. Sem dúvida, este incidente acelerou a aproximação de Calvino com o grupo Protestante. Na sua fuga para Angoulême, Calvino encontrou na rica biblioteca de Louis de Tillet, a paz e a oportunidade para escrever suas Institutas. Depois de uma certa clandestinidade, Calvino volta a Noyon, é reconhecido, preso, solto e preso novamente para ser solto pouco tempo depois. Volta a Paris onde alguns simpatizantes dos Protestantes haviam colocado alguns cartazes desafiadores em vários pontos da cidade, o que fez recair uma violenta perseguição decretada por Francisco I sobre a Igreja.

Calvino foge em tempo e se reúne a Cop em Basel, isto em 1534. E é lá, que um jovem de apenas 26 anos de idade conclui a mais eloqüente, fervorosa, lúcida, influenciadora e terrível obra em toda a literatura da revolução religiosa, Christianae religionis institutio, ou as Institutas da Religião Cristão.

Numa noite de Agosto de 1536, Calvino parou em Genebra para dormir, e naquela mesma noite ele foi procurado por um homem mais velho do que ele, um evangelista, que liderava a pregação do Evangelho em Genebra, Guilherme Farel. Farel instou para que Calvino ficasse em Genebra e o ajudasse na liderança da Igreja, Calvino relutava, afirmando que era um homem de letras, de estudos e não um pastor.  A certa altura da conversa, Farel elevou a voz e bradou, com sua voz de pregador experimentado: “Digo-te em nome de Deus Todo Poderoso, que estás apresentando os teus estudos como pretexto. Deus te amaldiçoará se não nos ajudares a levar adiante o seu trabalho, pois doutra forma estaria buscando a tua própria honra, em vez da de Cristo” (ad tempora). Calvino não tinha mais o que discutir, aceitou o cargo. Febvre (2002) registra este fato:

“Ali está. Em 21 de maio de 1536, havia feito com que o povo prestasse juramento de fidelidade ao evangelho. Foi um êxito. Mas impunha-se-lhes uma tarefa enorme: a de organizar a nova vida religiosa da cidade e, por intrépido que fosse, Farel conhecida suas limitações. Não era um grande teólogo. Nem um grande organizador. Titubeava, encontrava-se sozinho – e ele, apesar de audacioso, não se atrevia. De repente, soube da chegada de Calvino. Um desconhecido, ou pouco menos. Farel, já sabia quem ele era. Quem sabe tivesse lido o livro em latim do qual falávamos há pouco, o livro que o picardo errante levava em mente pelos caminhos do exílio e que finalmente tinha publicado em Estrasburgo, em 1535, O Institutio Christiana. Em todo caso, Farel tinha lido os prefácios que Calvino escrevera para o Novo testamento, traduzido ao francês, em Neuchâtel, pelo seu primo Olivetan. Portanto, ele não duvida. Corre à pousada e ameaça Calvino. ‘Fique. Ajude-me. Deve fazê-lo. A obra de Deus te requer, necessita de operários.’ Calvino vacila, recusa, invoca sua magreza, sua inexperiência. Farel ressoa, convoca a cólera divina, atemoriza seu interlocutor. Finalmente, arranca-lhe o consentimento. Calvino fica. (p. 20).

Nesta sua primeira fase do seu ministério em Genebra, o que realmente se pode contar sobre Calvino, foi o seu tremendo esforço para cristianizar a cidade, e sua vitória contra aos Católicos Romanos em Lausane, quando Calvino demonstrou as suas grandes qualidades de orador, erudito e teólogo. No entanto, a oposição a Calvino cresceu na pessoa do grupo chamado de Libertinos, que eram os libertários da época, os progressistas, nas arte e nos costumes, de muita influência em Genebra, e o Reformador e seu amigo Farel, tiveram de abandonar a cidade, para alguns poucos anos de exílio. No exílio, Calvino tornou-se pastor de uma Igreja de franceses na cidade de Germânica de Strabourg. Em Strabourg, Calvino veio a conhecer a viúva Idelete Bure, com quem veio a contrair suas núpcias Farel, seu fiel companheiro, veio à cidade presidir a cerimônia.

A saída de Calvino abalou os alicerces da nascente reforma em genebra. A igreja percebeu o quanto necessitava do seu trabalho e através dos Síndicos e dos Conselheiros de Genebra, a 22 de outubro de 1540, solicitam a volta do reformador. A 23 de outubro do mesmo ano este respondeu afirmativamente a referida carta e numa terça-feira de setembro, dia 13, de 1541, o Reformador adentrou a cidade de Genebra, retornando para cumprir a vocação que segundo o mesmo, que Deus lhe reservara.

Nesta sua nova estada em Genebra, grande era o labor que o aguardava. A cidade precisava ser organizada nos moldes do novo cristianismo bíblico reformado, mas para isso precisava mudar a vida espiritual do seu povo, e Calvino pôs mãos à obra, pregando o Evangelho e enviando ao Conselho da Cidade, uma proposta de regulamentos a fim de reorganizar a vida política e inclusive os usos e costumes da cidade. Em meios a estes trabalhos, Calvino viu a sua fiel esposa partir para a Glória, no dia 29 de março de 1548. Viúvo, porém, sempre fiel aos designos do mestre, o homem não se abateu, continuou a sua tarefa. Dinamizou a igreja da cidade. Organizou um Consistório que deveria dirigir a vida da mesma, cuidando da fiscalização do ministério e do cumprimento das leis estabelecidas dentro dos princípios escriturísticos segundo a concepção reformada. No entanto, ainda desta vez os Libertinos não se deram por vencidos, e empreenderam suas intrigas contra Calvino.

Outro grande problema que Calvino teve de enfrentar nesta época foi o caso de Miguel de Servetus. Este apareceu em Genebra afirmando que as Escrituras Sagradas nada falavam sobre o Dogma da Trindade. Servetus insistia ainda que Jesus não era o Filho Eterno de Deus, mas apenas um homem. Em Genebra esta pregação representava um grande perigo para a Igreja florescente, logo o Conselho da Igreja tomou as providências de prendê-lo. Preso foi levado a julgamento, as leis da época o exigiam, mas é bom deixar claro que o poder de sentenciar Servetus, não estava nas mãos de Calvino, e sim, nas mãos do Conselho de Genebra, o Pequeno Conselho, contudo aquele grande reformador nada fez para impedir a condenação de Miguel de Servetus. Este depois de um processo sumário foi condenado e em 27 de outubro em 1553, com seus livros amarrados entre os braços, inclusive suas Restitutas, livro onde expunha sua teologia divergente, foi queimado na colina de Champel. Este episódio tem sido utilizado pelos inimigos de Calvino para denegrir a sua obra. Contudo é bom lembrar que a condenação daqueles que a igreja considerava hereges era uma prática da época iniciada implantada e validada pela Igreja Católica Romana que não só a aprovava como a utilizava sistematicamente na condenação de protestantes e mulheres acusados de bruxarias.

Continuando em sua missão de converter Genebra João Calvino divisou na educação um poderoso instrumento de evangelização e formação de liderança para a nascente igreja reformada, como demonstrou Gomes, (2000). No dia cinco de junho de 1559, uma Segunda-feira, Calvino celebrou a cerimônia inaugural da Academia de Genebra. Esta Academia, ao que parece, foi tão importante para a Reforma, quanto foram as Institutas, e a vida do Reformador Francês. Lessa (s.d.) registrou:

“Os começos eram humildes. Cinco professores apenas formavam o quadro: Dois de teologia, um de hebraico, outro de grego e outro de filosofia. Em seu discurso inaugural, Calvino prometera cursos de direito e medicina para mais adiante. O de direito foi inaugurado um ano depois de sua morte. Com o andar dos tempos a Academia tornou-se Universidade. O reformador limitou-se a ensinar teologia no notável instituo” (P. 243).

Nela se aglutinaram homens de todos os lugares sob o lema “O temor do Senhor é o Princípio da Sabedoria”, (Provérbios 1:7) que resplandecia em um de seus pilares. A Academia supra citada tornou-se um modelo de Escola de primeira linha, e nela estudaram homens como Jonh Knox, o Reformador da Escócia. A esta altura dos acontecimentos o tabernáculo terrestre de Calvino já estava se desfazendo e a 27 de maio de 1554, foi lavrado na Ata do Conselho da Igreja onde pastoreava: “Chamado à presença de Deus, no Sábado, 27”. (Apud Lessa, s.d.  p. 267. Febvre, (2002) assim resumiu a vida de Calvino: “Fazer o que Deus quer. Recordemos que Calvino, em sua vida inteira, obedeceu aos chamados de Deus”. (p. 27).

  1. Síntese do pensamento de João Calvino nas Institutas da Religião Cristã

A obra de Calvino é imensa. Seria muito pretensiosa a intenção de querer em poucas palavras esquematizar uma obra descrita de acordo com as palavras acima. As Institutas, não foi à única obra de Calvino, tendo ele, entre outras, escrito um comentário detalhado para cada livro das Escrituras, o que demonstra e comprova sua rara capacidade de trabalho e produtividade. Estaremos resumindo neste trabalho apenas alguns aspectos da sua obra que sejam relevantes para compreender o seu pensamento e que atenda a finalidade desta pesquisa e para isto focalizaremos nosso trabalho nas Institutas.  Não temos qualquer pretensão de originalidade apenas de contribuir para a divulgação do pensamento deste reformador, especialmente porque o calvinismo brasileiro veio da lavra norte americana eivado viés pietista que transformou o calvinismo de Genebra no puritanismo vitoriano.

As Institutas estão divididas em 4 livros, que tratam das doutrinas da Igreja Cristã do seguinte modo:

  • Livro I: Teodicéia, ou livro do conhecimento de Deus enquanto criador do mundo e de todas as coisas;
  • Livro II: Cristologia, ou livro do conhecimento de Deus enquanto redentor: o contraste entre lei e evangelho;
  • Livro III: santificação, ou livro da vida pela fé e a atividade santificadora do Espírito Santo que não age indiscriminadamente sobre todos, mas somente sobre os, eleitos de Deus, aqueles predestinados que são os que vivem pela Fé;
  • Livro IV: eclesiologia, tanto no seu aspecto interno e no tratamento dos Sacramentos, como no seu relacionamento externo, com o poder secular ou civil.

As Institutas da Religião cristã segue em seu escopo os grandes temas do Credo Apostólico, sendo por isso mesmo uma obra apologética de defesa do novo cristianismo bíblico reformado em face do velho cristianismo tradicionalista da Igreja Romana.

  • Livro L: Teodicéia: “Creio em Deus Pai todo poderoso criador do céu e da terra”. (Credo Apostólico) Neste primeiro livro João Calvino trata claramente do Conhecimento de Deus em suas relações com o homem, não do conhecimento cognitivo que seria uma atividade mais humana e sim do conhecimento que provém da fé, que seria o mais elaborado tipo de conhecimento que provém do próprio Deus. Este conhecimento na concepção calvinista seria fruto da obra do Espírito Santo, que através da iluminação abre a mente e o coração do ser humano para compreender a verdade divina revelada na Bíblia Sagrada e aplica no coração do homem a obra redentora de Cristo na cruz do calvário.  Deus se dá a conhecer ao homem, pois este não seria capaz, por livre iniciativa de ter conhecido de Deus em função da queda de Adão que degradou a natureza humana e obnubilou sua capacidade de conhecê-lo. Calvino usa duas palavras para falar deste conhecimento notitia e cognitio. Calvino, porém, usa as duas palavras mais ou menos misturadas, pois, para ele o conhecimento de Deus (notitia) deve ser sempre acompanhado de autoconhecimento que o homem deve ter de si mesmo (cognitio), que decorre do conhecimento revelado por Deus em Sua Palavra. Deus é para Calvino o totalmente outro, e que demonstra sempre sua absoluta perfeição em todos os seus atos, ao mesmo tempo em que permite ao ser humano conhecer sua condição de absoluta pobreza Calvino (1967) especificamente afirma:

“Novamente é bem certo que o homem nunca atinge um conhecimento claro de si mesmo a menos que ele olhe primeiro na face de Deus e então desça dessa contemplação pra escrutinar-se, porque nós sempre nos sentimos justos, corretos, sábios e santos este orgulho é inato em todos nós a menos que através de provas claras sejamos conhecedores de nossa própria injustiça, torpeza, tolice e impureza” (p.4 ).

É evidente, portanto que o verdadeiro conhecimento de Deus (notitia) não pode ser encontrado no homem, porque embora ele seja naturalmente implantando na mente humana, ele é embotado, parcialmente pela ignorância e parcialmente pela má índole, conseqüência do pecado de Adão, que atingiu todo ser humano, e não apenas parte do ser humano como pretendia o tomismo. Embora ele não desenvolva plenamente uma epistemologia nesta sua primeira parte de sua Sistemática, é evidente a reação de Calvino ao realismo tomista que afirma que a existência de Deus pode ser conhecida tanto pela razão como pela revelação, e chegava mesmo apontar cinco vias de acesso a Deus. Para Calvino, havia no homem uma corrupção total, e nem seu espírito, nem seu corpo, nem sua mente escapavam da mancha do pecado.

Como podemos então, conhecer á Deus? Certamente que não pelo Universo em si, a revelação natural que embora seja uma manifestação da grandeza de Deus, nosso pecado não nos deixa percebê-lo, e tais manifestações passam por nós sem quaisquer benefícios, mas só pelas Escrituras Sagradas, a revelação especial, somos capazes de conhecer e apreender o conhecimento de Deus, pois é esta quem nos permite aprender as marcas que distinguem Deus, como criador do Mundo, da sua criação e de toda multidão de deuses fictícios. No calvinismo pietista, fruto dos reavivamentos norte americano todo o aspecto humanista do conhecimento de si mesmo, do auto conhecimento, fruto do conhecimento que o homem tem de Deus foi totalmente desprezado e hoje é absolutamente desconhecido. Segundo Calvino (1967):

“Portanto é necessário que entre o conhecimento de Deus e de nós mesmo haja uma grande união e relação, a doutrina verdadeira requer que tratemos primeiro do conhecimento que devemos ter de Deus e fonte daquele que devemos ter de nós mesmos logo em seguida.” (p. 5).

As Sagradas Escrituras passam a ocupar o centro da teologia reformada. É neste ponto que o ensino de Calvino se mostra muito importante, pois, é aqui que o mesmo desenvolve melhor o seu conceito que Sola Scriptura[1] com um forte desprezo por aqueles que afirmam que as Escrituras dependem do aval da Igreja em suas decisões conciliares para ser considerada palavra de Deus ou que incluem na revelação a tradição cristã como é o caso da teologia Católica Apostólica Romana. Ele diz:

“Um dos maiores perniciosos erros tem sido mantido de que a Escritura só tem valor quando ele for concedido pelo consentimento da Igreja. Como se a eterna e inviolável vontade de Deus pudesse depender da decisão de homens! Pois eles ridicularizam o Espírito Santo quando perguntam: Quem pode nos convencer de que estes escritos vieram de Deus? Quem pode assegurar-nos que as Escrituras vieram até nós completas e intactas até nossos próprios dias? Quem pode persuadir-nos a receber um livro com reverência e excluir outro, a menos que a igreja prescreva uma regra segura para todos estes assuntos? Qual a reverência que é devida ás Escrituras e quais os livros que devem ser colocados dentro de seu cânon depende, eles dizem, de uma determinação da Igreja”.(Calvino, 1967 P.30 ).

E mais adiante ele conclui com sua posição realmente apologética contra a primazia da tradição da igreja sobre as Escrituras Sagradas, asseverando:

“Assim, estes homens sacrílegos querendo impor-nos uma tirania sem limites sob a capa da Igreja, não se preocupam com os absurdos em que eles se emaranham e a outros desde que eles possam forçar esta idéia na mente dos mais simples: que a igreja tem autoridade sobre todas as coisas”. (Calvino, 1967 P. 30).

Os ensinos calvinianos sobre a Bíblia Sagrada elevaram na a categoria de única regra de fé e prática na teologia pela confissão de fé de Westminster, conforme Hodge, (1999) transformando o cristianismo, uma religião de tradição oral no catolicismo romano, numa religião de tradição escrita, literalmente na religião do Livro. Com este argumento Calvino não deixa nenhuma margem para a revelação natural sobre a salvação humana. Entende-se que este trecho é explicitamente dirigido ao argumento tomista da Lei Natural, segundo a qual, o homem pela razão e no exercício de sua vontade, poderia assimilar princípio esternos, não revelados. Na Bíblia Sagrada este argumento tomista é o fundamento da teologia católica especialmente no aspecto referente as boas obras. Calvino dirigiu-se, diretamente contra qualquer forma de Teologia Natural, afirmando sempre que o abismo entre Deus e o Homem é muito grande, e somente Deus poderia atravessar esse abismo.

Assim, Calvino começa a nos preparar para os dois livros seguintes da sua sistemática, sendo que o II, é sem dúvida o central na sua exposição, ou seja:

LIVRO II – CristologiaCreio em Jesus Cristo, seu único filho, nosso Senhor.(Credo Apostólico.) Calvino considera tanto o Velho quanto o Novo Testamento a fiel expressão da palavra de Deus. no final do livro I, quando considerando ainda as Escrituras, ele demonstra a justaposição do Velho e do Novo Testamento como instantes do antes e do depois do momento em que a palavra se tornou carne. Ele sustenta a idéia de que o Novo testamento era latente no Velho e este patente no Novo Testamento. E só por essa razão que existe um antes e um depois, o que nos traz diretamente ao mistério da pessoa de Jesus Cristo. Sua interpretação do Velho Testamento assim como do Novo Testamento, é que dão testemunho de Jesus, afirmando ser ele sem qualquer sombra de dúvida o Cristo, o filho unigênito d de Deus.

A sentença pela qual Calvino abre o seu capítulo 12 deste livro II é expressiva posto que reafirma a doutrina da pessoa teantrópica de Jesus, na verdade a doutrina central de toda a teologia cristã segundo a qual o Mediador é tanto verdadeiro Deus quanto verdadeiro homem. É, portanto nessa condição que ele assume o papel de Redentor, pois era o único propósito de sua encarnação. Tal propósito já havia sido estabelecido desde o início e a imagem de Cristo deveria ter sido entendida nos sacrifícios da velha dispensação, os quais tinham a intenção de dar aos crentes a esperança de que Deus seria gracioso para com eles.

É, portanto, como Redentor que Cristo é descrito, e a seguir Calvino passa a discutir a obra da redenção a partir de dois aspectos que se completam: A ocasião da redenção e a sua necessidade em vista do pecado de Adão, que passou para todo o gênero humano. Sob o tema da ocasião da Redenção, Calvino trata dos seguintes tópicos: O pecado original: que é descrito por ele acima de tudo como desobediência a Deus. O pecado é descrito por Calvino como tendo como conseqüência a alienação de Deus.

Na teologia calviniana o homem perdeu sua liberdade diante de Deus e passa a viver miseravelmente escravizado aos seus desejos e vive inconscientemente em total estado de desgraça e pobreza espirituais. (Romanos 3) Somente o homem, que movido pelo Espírito Santo, sinta-se profundamente alarmado com sua condição e que tenha consciência de sua desgraça, pobreza, nudez e miséria é que se volta para Deus, na conversão e faz o maior progresso no conhecimento de si próprio, na santificação.

A única forma de superar esta condição humana de depravação total [2] é Cristo que representa em sua vida e sua obra, a intervenção divina a favor do homem, colocando-se entre a vontade pecadora do homem e a vontade misericordiosa de Deus, e é exatamente por isso que ele é Mediador. Cristo é na teologia calviniana a mais alta expressão da graça especial de Deus, no espírito de Romanos 8. O homem em nada pode ajudar na obra da sua salvação, sendo esta fruto da ação soberana de Deus que alem de conceder a salvação, oferece todos os meios necessários para levá-la até a sua consecução. Toda a ação de Deus em favor dos seus eleitos por meio de Jesus Cristo Calvino considera como sendo a graça especial de Deus. Como deve atuar no homem, porém, esta graça alcançada em Cristo Jesus? Qual a maneira pela qual Deus torna efetiva a presença em nossos corações de poder salvado do Mediador? Assim, Calvino, começa a preparar no terceiro Livro das Institutas, vejamos o que Calvino (1967) tem a dizer:

“Conclusão. Mas, sobre tudo é necessário apreender o que acabo de dizer: que o Filho de Deus nos deu uma excelente graça especial através da nossa relação com ele pela nossa participação em sua natureza, posto que Cristo havendo se encarnado, destruiu a morte e o pecado, a fim de que seu triunfo e vitória, pela fé fossem imputados a nós; porque Cristo ofereceu seu corpo e seu sangue em sacrifício, para destruir a condenação de Deus que pesava sobre nós, expiando assim nossos pecados e aplacando a justa ira de Deus pela nossa desobediência. (p. 344)”.

Livro III – Santificação: “Creio no Espírito Santo.” (Credo Apostólico.).

É através da ação especial do Espírito Santo que aqueles que foram predestinados por Deus para a salvação são convencidos de seus pecados e entram em comunhão especial com Cristo Jesus. Inicia-se, então, para o crente, um processo diferente da conversão e decorrente dela, que é a Santificação. Nesta parte das Institutas, Calvino irá tratar especialmente da doutrina da Fé, que vem até cada um de nós por uma atuação e graça do Espírito de Deus. O homem decaído não nasce com a fé, nasce apenas com a capacidade de crer. A fé calvinista é um Dom de Deus para seus escolhidos. (Efésios 2: 1-10.) Tudo isso só acontece aquele que tem fé, mas não devemos nos esquecer que o homem não consegue a verdadeira fé por méritos próprios, mas pela doação de Deus como diz Paulo, “ e isto não vem de vós, para que ninguém se glorie, mas sim de Deus”, (Efésios 2:8-9). Portanto, aqueles a quem o Espírito Santo deu o privilégio de crer, também deu o privilégio de tornarem-se Filhos de Deus, aos que crêem no seu nome, os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas da vontade de Deus segundo João 1:12-13.

Calvino lançou então as bases para a sua premissa maior que a sua argumentação sobre mistério da eleição. Tudo isto deve ser decorrente da livre e soberana vontade de Deus a favor dos seus eleitos. Deus é soberano e não escolheu nenhum homem por mérito destes, como também não rejeitou algum por demérito. Ele que é soberano é que dá a conhecer, por meio da sua palavra, aos seus eleitos, através da mediação de Cristo, que eles são eleitos pela sua fé, e que por isso mesmo são justificados diante de Deus. (Romanos 5:1).

Assim, Calvino define fé como segue é um conhecimento firme e certo da benevolência de Deus para conosco, fundamentado sobre a verdade da promessa livremente dada em Cristo, sendo ao mesmo tempo revelada ás nossas mentes e selada em nossos corações através do Espírito Santo. Esta fé verdadeira produz um arrependimento verdadeiro que é a marca do convertido e que consiste principalmente da mortificação da carne e na regeneração de uma nova vida pelo Espírito. Aqui, Calvino demonstra sua afinidade e conhecimento dos argumentos de Lutero quanto à doutrina da Justificação pela Fé, refutando e demonstrando a fragilidade daqueles que aceitam a Justificação pelas obras como a Igreja Católica Apostólica Romana. Sua argumentação pode ser resumida pelo seguinte parágrafo:

“Cristo tendo sido dado a nós pela bondade de DEUS é apreendido e possuído pela fé, por meio da qual nós obtemos em particular, um duplo benefício (1) sendo reconciliados pela justiça de Cristo, Deus se torna ao invés de juiz, um Pai compassivo; (2) sendo santificados pelo seu Espírito nós aspiramos a integridade e a pureza da vida”.

Podemos afirmar que os dois benefícios que a Fé produz no ser humano são a Justificação e a Regeneração. É considerado “Justificado” todo aquele que não é mais considerado pecador, mas justo; justificação sendo então a “aceitação que Deus nos dá e com a qual nos recebe como se fôssemos justos; e dizemos que esta justificação consiste no perdão dos pecados e na imputação da justiça de Cristo”. (Calvino, 1967. P. 557).

A vida do justificado é mantida em contínua regeneração pela obra do Espírito Santo nele, e por sua vida de oração, pois a oração é o principal exercício da Fé e também o meio ou instrumento através do qual diariamente procuramos as bênçãos de Deus. Nada, porém, parece ter levantado maior celeuma, na dogmática de Calvino, do que os capítulos 21 e 24 do seu livro III, quando ele desenvolve, com incrível clareza e lógica, sua doutrina da Eleição ou Predestinação.

Como se pode notar, até este ponto, Calvino diverge muito pouco dos demais reformadores, mas é aqui, que sua presença tem sido mais marcante no mundo teológico. A influência dos estudos de Agostinho, sobre a Predestinação, em Calvino é imensa, e agora sua capacidade de argumentação e lucidez se tornam terrivelmente presentes, quando anuncia: Da Eleição Eterna, segundo a qual Deus Predestinou, alguns para a salvação e outros para a Destruição. Este é considerado o seu decretus terribli, o qual Calvino reafirmava corajosa e claramente com base nas Escrituras Sagradas, com ele as entendia, que Deus escolheu alguns para salvação, dentre todos aqueles que já se encontravam perdidos. Como Calvino entendia a Predestinação?  Não há dúvida, que era a partir da soberania de Deus. Deus é o Senhor, e não precisa consultar ninguém sobre o que ele pretende fazer ou não fazer. Todos os homens estavam no pecado, mortos e debaixo da mesma condenação eterna. Deus escolheu seus eleitos em Cristo Jesus, com base na sua soberania e na obra de Cristo sem considerar os possíveis méritos ou deméritos do homem. O homem sem Deus, na concepção calvinista, encontra-se morto em seus delitos e pecados. (Efésios 2) Quem pode, pois reclamar contra sua bondade? Assim a semente de Abraão era a certeza de que Deus amara um povo que não tinha méritos para ser amado, mas a quem Deus escolhera. Ainda que haja alguma relação com a presciência divina, Calvino, se recusa a deduzir uma da outra. A predestinação na sua concepção deve ser inferida apenas da soberania de Deus e dos seus decretos eternos aplicados dos seus predestinados por meio de Jesus Cristo.  Diz o Reformador de Genebra:

“Nós de fato, atribuímos presciência tanto quanto a predestinação a Deus; mas afirmamos ser um absurdo a ultima subordinada á primeira… Quando atribuímos presciência a Deus, queremos dizer que todas as coisas sempre estiveram e estarão sob seus olhos; que para seu conhecimento não existem nem passado e nem futuro, mas que todas as coisas são presentes…” (Calvino, 1967. P.728).

(…) “Por predestinação queremos nos referir ao decreto eterno de Deus, pelo qual ele determinou, consigo mesmo, o que quer que seja que ele desejava que acontecesse com relação a todos os homens.

Todos não são criados em tempos iguais, mas alguns são pré-ordenados para a vida eterna e outros para a perdição eterna; e foi predestinado para a vida ou para a morte “. (Calvino, 1967 P. 728)”.

Febvre (2002) sintetiza a importância da soberania de Deus[3] e da predestinação para a arquitetura da teologia calvinista, diz ele:

“Calvino não ignorou a condição mesma desta aceitação viril da morte, contemplada sem temor, cara a cara”.Pequei tanto! Não serei maldito?”Não. Não te inquietes. Tua salvação não a fazes tu”. Tu despido de toda virtude, mas revestido de Deus, vazio de todo bem, mas pleno de Sua obra “. Admiráveis expressões da Epístola a Francisco I, escrito de tanta força e relevo. Tua salvação, esta opera Deus somente, em sua criatura, gratuitamente, por um Dom de graça a que nada O força. E que O deixa livre para escolher como quer e a quem quer para a salvação. O que é isto senão a predestinação? Doutrina de rara e profunda psicologia, sempre a partir de nosso ângulo que nada tem de dogmático, que é de historiador e não de teólogo. A predestinação, a peça final do edifício, a coroação. O último toque da alma de um cavaleiro que não trai. Que não teme. Que se mostra fiel sem medo, até a morte.”(P. 29).

Livro IV – Eclesiologia – “Creio na comunhão dos santos”.(Credo Apostólico)

A reforma protestante foi um movimento desencadeado em função de uma grave crise que se abateu sobre a igreja medieval, por isso, a maior parte da obra de Calvino é dedicada a este tópico. Calvino dedicou mais de 500 páginas ao estudo da Igreja e dos meios de graça, bem como no seu relacionamento com o Governo Civil. Calvino colocava a existência da Igreja totalmente na dependência do Espírito Santo.(Salmo 62) A igreja na concepção calviniana é a comunidade dos regenerados por Deus, dos eleitos de Deus conforme Efésios capítulo 1. Está igreja nasce do chamado de Deus, sua vocação eficaz e continua através dos séculos por meio do Ide de Jesus, isto é, a Igreja deve proclamar a glória de Deus a fim de anunciar aos homens o reino de Deus e a sua justiça a fim de que os eleitos tomem conhecimento da sua salvação em Cristo Jesus, por meio do Espírito Santo. A verdadeira Igreja, porém apresenta alguns sinais que a identificam como tal, e uma citação já famosa e conhecida de Calvino, (1967) afirma que:

“Onde quer que vejamos a Palavra de Deus sinceramente pregada e ouvida, onde quer que vejamos os sacramentos administrados de acordo com a instituição de Cristo, aí, não pode haver qualquer dúvida de que a Igreja de Deus tem existência, desde que sua promessa não pode falhar, de que onde dois ou três estiveram reunidos em seu nome, ali estarei eu no meio deles (Mateus 18:20). (P. 812).

Neste Livro das Institutas Calvino trata também dos sacramentos. O batismo e a Ceia do Senhor. Estes são sinais visíveis da graça invisível de Deus sobre seus escolhidos.  O batismo calvinista, este ato simbólico de lavar cerimonialmente com água, aplicada sobre a cabeça do batizado em nome do pai, do Filho e do Espírito santo simbolizam a união do cristão com Cristo, significa ainda que o cristão é participante das bênçãos do pacto da graça realizado entre Deus e o homem, tendo Cristo como seu mediador, sua base e seu fiador e ainda o batismo sela a promessa de que de fato o homem tornou-se filho de Deus em Cristo Jesus. Já a Santa Ceia, é o sinal visível de uma graça invisível por excelência. Através desta o Espírito Santo aplica no coração dos eleitos todos os benefícios da obra vicária de Cristo na cruz do calvário.

“Ora na Santa Ceia temos o pão, que é visível, para simbolizar o corpo do Senhor, que se acha invisível aos nossos olhos; temos o vinho, presente com sua cor e seu sabor, para simbolizar o sangue da aliança, o qual não vemos ao celebrar o sacramento; temos os emblemas do corpo e do sangue separados, para representar sua morte”. (Almeida, 1959, p. (161).

  1. Aspectos relevantes para a compreensão da ética em João Calvino

A cosmovisão que traduz os valores e até mesmo a ideologia de um determinado povo ou grupo social é a base para a construção da ética e da moral deste povo ou grupo. A Ética, derivada do grego ethos é teórica, e se constituiu no conjunto de princípios que traduzem a vontade moral de um grupo social específico. A ética pode ser definida também como o estudo crítico da moralidade. Consiste na análise sistemática da natureza moral humana, incluindo aqueles padrões que a sociedade considera certo ou errado e suas implicações para as atitudes morais do indivíduo. Já a moral, derivado do grego moris, é essencialmente prática, é a tradução ou aplicação do conjunto de valores éticos numa situação social concreta. É em última análise o valor regulador das relações interpessoais, que contribuem para a edificação das relações e dos contratos sociais estabelecidos entre os indivíduos, grupos ou instituições. Um código de ética, portanto, é uma explicitação dos princípios éticos de um grupo e sua aplicação prática na conduta do indivíduo no seio de uma determinada comunidade.

A ética calvinista é derivada dos preceitos contidos nas Sagradas Escrituras do Velho e do Novo Testamento e na tradição humanista do cristianismo, perpetrada nos escritos do Apóstolo São Paulo, Santo Agostinho, São Tomas de Aquino, Martin Lutero, João Calvino, dentre outros renomados. A ética calvinista postula que Deus é soberano sobre todo o universo e toda a criação e que o homem foi criado a sua imagem e semelhança. Imagem e semelhança entendia aqui em sentido ético e moral. O homem reflete em sua natureza, embora decaída, aqueles atributos de Deus ligados à ética e a moralidade como o amor, a justiça, a santidade e a autodeterminação. O homem é livre para fazer a vontade de Deus.

A ética pressupõe liberdade e responsabilidade, estando preocupada diretamente com todos os atos livres de cada indivíduo que faz parte desta instituição. A liberdade moral significa a capacidade de autodeterminação no sentido de que somos livres para escolher o bem em lugar do mal, a luz em lugar das trevas, o certo em lugar do errado, a verdade em lugar da mentira, o altruísmo em lugar do egoísmo, o amor em lugar do ódio.

O relacionamento do homem com Deus decorre do amor de Deus ao homem através de Cristo e do amor deste a Deus, a si mesmo e ao seu próximo. O amor a si mesmo deve se expressar em termos de autopreservação e cuidados pessoais. Já o amor ao próximo deve ser manifestado por meio do trabalho em favor do bem estar da comunidade, diz Weber:

“A atividade social do cristão no mundo é primeiramente uma atividade in majorem gloriam Dei. Este caráter é assim partilhado pelo labor especializado em vocações, justificado em termos de amor ao próximo. (…) O amor ao próximo – desde que só podia ser praticado para a glória de Deus não em benefício da carne – é expresso em primeiro lugar, no cumprimento das tarefas diárias dadas pela lex naturae, assumindo então um caráter peculiarmente objetivo e impessoal – aquele de serviço em prol da organização racional do nosso ambiente social”. (Weber, 1994. P. 75).

Também no quarto Livro das Institutas encontram-se aspectos fundamentais da ética calviniana sobre o corpo, a separação entre os limites da ética da vida pública e da vida privada e mesmo sobre o trabalho. Estas questões poderão ser matéria de pesquisas posteriores por este e, ou por outros pesquisadores. Estes aspectos serão citados aqui de forma extremamente esquemática apensas para servir de referência a trabalhos posteriores. Calvino foi o primeiro a propor a distinção entre a Igreja e o Estado, sendo por esta razão o precursor dos limites entre a ética da vida pública e a ética da vida privada. Na sua concepção o Estado e tudo o que lhe diz respeito estaria na ordem da ética da vida pública e a Igreja nos limites da ética da vida privada. Esta contribuição foi fundamental para o surgimento dos estados nacionais, especialmente na França e posteriormente para o nascimento do Estado laico. A realidade do estado laico foi desconhecida no Brasil até meados do século XIX quando da proclamação da República em 15 de novembro de 1989. Sobre este tema convém consultar a obra de Skinner, (1996) As Fundações do Pensamento Político Ocidental.

Outro aspecto relevante do pensamento político de João Calvino também decantado por Skinner (1996) e desenvolvido numa tese de doutorado por Silvestre (2002) consiste naquilo que se convencionou denominar a resistência ao governo civil. Calvino foi o primeiro a levantar a questão dos limites da submissão e da resistência às autoridades constituídas por Deus. Tema este posteriormente aprofundado por Bonhoefer, (1980) na obra Resistência e Submissão. Atualizando a interpretação calviniana pode-se afirmar que para ele a autoridade que deve ser acatada é aquela que permanece fiel a Deus e a sua Palavra, submissa as leis. Este ensino de Calvino segundo Skinner é o pressuposto fundamental da construção e florescimento da democracia em alguns paises da Europa ocidental tais como a França, Inglaterra e Escócia, só para citar alguns. Escrevendo sobre as autoridades como ministros de Deus para executar os seus juízos Calvino (1967) afirma:

“Porque quanta é a integridade, prudência, clemência, moderação e inocência que deve possuir aquele que se reconhece como ministro da justiça divina? Com que confiança buscarão realizar sua sede de justiça sobre qualquer iniqüidade, sabendo que julgam por delegação do trono do Deus vivo? Com que atrevimento pronunciarão sentença injusta com sua boca sabendo que esta foi consagrada para ser instrumento da verdade de Deus? (p.1172) e ainda:

(….) Se existirem magistrados do povo, não é parte de minhas intenções proibi-los de agir em conformidade com seu dever de resistir à licenciosidade e ao furor dos reis; ao contrário, se eles forem coniventes com a violência desenfreada e suas ofensas contra as pessoas pobres em geral, direi que uma tal negligência constitui uma infame traição de seu juramento. Eles estão traindo o povo e lesando – o daquela liberdade cuja defesa sabem ter-lhes ordenada por Deus. (1193).

Cabe também registrar que ainda não se estudou no Brasil a ética do corpo em João Calvino e suas implicações sobre a vida dos calvinistas. Para este renomado reformador o corpo é o templo do Espírito Santo e este postulado sem dúvida traz implicações para a compreensão do corpo humano em todas as suas dimensões que merecem uma pesquisa a parte. Neste ensaio serão apontados apenas alguns aspectos da ética calvinista que sirvam de pedra de toque para uma reflexão crítica sobre a ética protestante de Weber.

Em João Calvino as questões éticas aparecem de forma embrionária. É necessário um esforço hermenêutico para uma melhor sistematização do seu pensamento neste campo. Pode-se tomar como exemplo a ética do trabalho. Segundo Febvre (2002) Calvino considerava todos aqueles que trabalhavam como operários de Deus. Possivelmente seguindo a lógica luterana sobre a vocação que considerava como vocação todo o trabalho religioso ou não que fosse realizado para a glória de Deus. Os trabalhos de Biéler (1990) e Prades (1966) são tentativas de compreender a ética calvinista do trabalho, a partir da perspectiva weberiana. Este tópico será trabalhado logo mais quando for abordada a ética protestante em Max Weber.

Outro aspecto importante que se deve considerar sobre a ética de Calvino consiste na afirmação do cristão como eleito de Deus. A crença calvinista na eleição resolve nesta vida o problema existencial do destino eterno do homem e o desafia a se transformar num cidadão do reino de Deus. Este estatus de cidadania espiritual deverá levá-lo a assumir paulatinamente sua condição de cidadão do mundo com todas as suas implicações e responsabilidades. O desafio do cristão reside então em viver os princípios éticos nas suas relações interpessoais com Deus consigo mesmo e com o próximo de forma objetiva. O mundo é a clausura do cristão; segundo Calvino, (1967) somos templos de Deus, templos do Espírito Santo:

“Por esta razão São Paulo conclui que somos templos de Deus, por seu Espírito que habita em nós (I Cor. 3; 17; 6:19; II Cor. 2; 6). (…) E o mesmo apostolo com idêntico sentido algumas vezes nos chama templos de Deus e outras templos do Espírito Santo”. (p. 80)

O amor pelo próximo deve ser expresso na forma de trabalho em favor do bem estar da coletividade, aquela idéia totalmente esquecida em nossa sociedade da busca do bem comum como bem supremo. A ética calvinista é um desafio a busca deste bem supremo posto que o homem deve envolver-se na construção da cidade de Deus, isto é na consecução do reino de Deus entre os homens. A partir destes pressupostos estaremos escrevendo criticamente sobre as implicações da teologia calvinista na formulação da ética do trabalho segundo as concepções de Max Weber.

  1. Sobre a ética protestante na sociologia de Max Weber

A sociologia de Max Weber (1864-1920) é ampla e consistente. Jaspers (1977) e Prades (1966) parte da distinção entre quatro tipos de ação: a ação racional com relação a um valor, a ação afetiva ou emocional e, por último, a ação tradicional. As ciências da história e da sociedade possuem três características originais e distintivas: elas são compreensivas, históricas e se orientam para a cultura. A Sociologia é possível pelo fato de sermos capazes de compreender, o que resulta na possibilidade de explicar fenômenos singulares sem a intermediação das proposições gerais.

Diferente da história, do relato daquilo que não acontecerá uma segunda vez, a Sociologia se preocupa da reconstrução conceptual das instituições sociais e do seu funcionamento. A Sociologia, para ser ciência, não deve fazer julgamento de valor, mas deve relacionar a matéria estudada com um valor (relação com os valores) o Sociólogo pode ter o senso de interesse daquilo que os homens viveram para compreendê-los autenticamente; mas é preciso distanciar-se do próprio interesse para encontrar uma resposta universalmente válida a uma questão inspirada pelas paixões do homem histórico.

A sociologia weberiana se inspira numa filosofia existencialista que propõe uma dupla negação: Nenhuma ciência poderá dizer aos homens como devem viver, ou ensinar às sociedades como devem se organizar e, também, não poderá indicar à humanidade qual é o seu futuro. Por causa destas negações, Weber se opunha a Durkhein e Marx. A Sociologia pretende explicar casualmente, além de interpretar de maneira compreensiva. Esta investigação causal se orienta em dois sentidos: Causalidade histórica e causalidade sociológica.

Todo o pensamento causal de Max Weber se exprime em termos de probabilidades ou de oportunidades, para ele não há determinação unilateral do conjunto da sociedade por um elemento, seja ele o econômico, o político ou o religioso. As relações são parciais e prováveis.

Segundo Weber, (1982) a política passa a ser uma das atividades nobres da humanidade porque o futuro é incerto e alguns homens podem forjá-lo. Uma das formas de se refletir a respeito da história é de compreender que um acontecimento histórico teria sido diferente se pessoas não agissem ou tomassem decisões diferentes, se as decisões fossem tomadas ou não, se as circunstâncias não acontecessem ou ocorressem de forma diferente. Essa interpretação tem o mérito de devolver às pessoas e aos acontecimentos sua eficácia; de mostrar que o curso da história não está determinado antecipadamente, e que os homens de ação podem alterá-lo.

Ao estabelecer a teoria da causalidade parcial e racional, Weber pretendia refutar a interpretação vulgar do materialismo histórico, pois exclui a possibilidade de que um elemento da realidade seja considerado como determinante dos outros aspectos da realidade, sem ser também influenciado por eles, e também que, o conjunto da sociedade futura seja determinado a partir de certas características da sociedade presente.

A distinção radical entre os fatos e os valores, feita por Weber, parte da proposta feita pela filosofia neo-Kantiana, tal como era apresentada no seu tempo nas Universidades da Alemanha os valores, portanto, não são dados nem no plano sensível nem no plano transcendente, são criados pelas decisões humanas, que diferem dos atos pelos quais o espírito percebe o real e elabora a verdade. Os valores são aceitos por causa do livre arbítrio e da livre afirmação.

A ação é produzida pela moral da responsabilidade e pela moral da convicção, sendo que a ética da responsabilidade se preocupa com a eficácia e se define pela escolha dos meios ajustados ao fim que se pretende; e a ética da convicção incita a agir de acordo com os nossos sentimentos, sem referência, explícita ou implícita, às conseqüências.

Outro aspecto importante da sociologia de Weber é aquela parte que o mesmo dedica ao estudo da religião, especialmente do protestantismo. Weber concluiu que a ética religiosa era uma das variantes mais influentes na conduta dos homens nas diversas sociedades, pois o homem age de acordo com a sua cosmovisão, e os dogmas religiosos e as suas interpretações são partes integrantes dessa visão do mundo. Voltemos “A Ética protestante e o espírito do capitalismo” de Max Weber. Neste trabalho serão discutidos aspectos da sociologia da religião em Weber e essencialmente aqueles relacionados com a sociologia do protestantismo, considerando neste aspecto a releitura realizada por Prades, (1966).

O século XX se iniciou dominado pelo O Capital de Karl Marx e terminou vencido pela Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo de Max Weber. Muito mais que uma questão de semântica a obra de Weber ressuscitou inúmeras polêmicas sobre a ética protestante do trabalho especialmente em face dos novos ditames econômicos do neoliberalismo que prefigura mais uma ética do consumo do que do labor.

A obra “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo” demonstra que Weber não apenas minimiza a variável econômica na estruturação e funcionamento de um determinado modelo social, conforme reivindicado pelo marxismo como tenta explicar a significação cultural e econômica da racionalidade metódica protestantes na geração de um modelo capitalista como aquele praticado pela sociedade norte americana. Segundo Max Weber, a cosmovisão religiosa determina certos comportamentos próprios para a acumulação de riquezas capitalismo. Seguindo a tese de Laveleye, (1951) Weber demonstra por meio de dados estatísticos que com freqüência, os líderes do mundo dos negócios e os proprietários do capital e alto nível de mão-de-obra qualificada; principalmente, aquele técnico e comerciante especializados nas empresas modernas era preponderante protestante.

Max Weber deu novo sentido a doutrina luterana da vocação, doutrina esta que se encontra na base do processo de secularização do mundo contemporâneo. Segundo esta doutrina o homem deve viver para a glória de Deus não só em sua vocação religiosa como também em seu trabalho secular: “A vocação para Martim Lutero era algo aceito como uma ordem divina, a qual cada um devia adaptar-se. Essa tendência domina o outro pensamento, também presente, de que o trabalho é uma vocação divina, ou melhor, a tarefa ordenada por Deus”. (Weber, 1994. p. 57).

Além da racionalidade metódica do protestantismo, Weber observa nas sociedades protestantes a existência da justiça proporcional ou meritória e esta é o centro do sistema de mobilidade social no mundo protestante. Ou seja, os valores e talentos individuais devem ser incentivados pelo estado para que estes possam ser convertidos em energia positiva para o sistema.  Esta forma de justiça distributiva seria a responsável última pelo individualismo oriundo do capitalismo moderno. Neste sistema a livre iniciativa é altamente incentivada e premiada.

Nesta obra Weber (1982) estudou as origens do ethos protestante e realizou seus ensaios sobre a cosmovisão protestante e o desenvolvimento do capitalismo a partir de pesquisas realizadas com protestantes puritanos (1) e concluiu que o protestantismo puritano é portador de um espírito racionalista e metódico capaz de desenvolver com a sua praxes os instrumentos teóricos que dão suporte ao acúmulo do capital que se encontram na base da instauração do capitalismo. Este espírito consiste no modo de vida protestante. Isto é na aplicação da racionalidade metódica nas relações entre capital, trabalho e conseqüentemente no acúmulo de lucros.

Weber procura demonstrar a validade de sua hipótese estudando a relação entre a religião e o ramo de atividade dos protestantes e católicos em algumas cidades do interior da Alemanha do século XIX e conclui que a religião encontra-se na base da escolha da formação profissional e das atividades comerciais. Os católicos procuram realizar sua formação nos ginásios clássicos porque a industria e o comércio não os atraia tanto, enquanto os protestantes são atraídos especialmente pelas atividades comerciais e industriais. Posteriormente Weber (1982), estudando estatísticas sobre as atividades profissionais de países onde havia católicos e protestantes, verificou que os protestantes, proporcionalmente são mais numerosos entre os profissionais técnicos e comerciais de nível superior, isto é, o pragmatismo protestante facilita a aquisição de tecnologia e habilidades comerciais, enquanto que os católicos são mais voltados para a metafísica, a filosofia e as questões existenciais. Este modo de vida protestante é responsável nos Estados Unidos pelo surgimento do pragmatismo e de uma certa corrente de liberalismo ligada ao pietismo [4] protestante.

A relação que existe entre a religião e o acúmulo de capital segundo Weber consiste em que o protestantismo puritano era portador de um certo espírito próprio para o desenvolvimento do capitalismo. Que espírito é este? A fim de responder a esta questão Weber (1994) afirma as suas teses principais que são:

A ética protestante consiste no modo de vida protestante, que seria marcado pela simplicidade e frugalidade e ainda na forma como este encara o trabalho e as riquezas. Quanto ao trabalho este deveria ser encarado como uma vocação divina e as riquezas como bênçãos do Senhor. Weber demonstra que os puritanos projetaram a idéia de vocação religiosa sobre o labor:

 “O trabalho deve, ao contrário, ser executado como um fim absoluto por si mesmo – como uma vocação. Tal atitude, todavia, não é absolutamente um produto da natureza. Ela não pode ser provocada por baixos salários ou apenas salários elevados, mas somente pode ser o produto de um longo e árduo processo de educação (Weber, 1994. P. 39).

Weber destacou alguns aspectos importantes no modo de vida protestante que seria segundo ele os responsáveis pelo acúmulo de capital nestas comunidades. Vejamos algumas destas variáveis.  As riquezas eram encaradas pelos protestantes como sinais das bênçãos de Deus sobre os eleitos, todavia estas eram pertencentes a Deus e por isso deveriam ser bem administradas posto que o crente é apenas um mordomo de Senhor aqui na terra. Outro aspecto importante no modo vida cristão consiste na pregação de que estes devem evitar a luxuria e os prazeres mundanos, a única fonte divina de prazer é o trabalho, o qual deve ser realizado de forma metódica e racional. O modo de vida protestante e sua maneira de encarar o trabalho levavam necessariamente a poupança:

“A velha atitude de lazer e conforto para com a vida deu lugar à rija frugalidade que alguns acompanharam e com isso subiram, porque não desejavam consumir, mas ganhar, enquanto outros, que conservavam o antigo modo de vida, viram-se forçados a reduzir o seu consumo” (Weber, 1994 p. 44).

Por outro lado, no protestantismo, o lucro não é visto como pecado resultado da usura. O lucro é encarado com naturalidade como fruto do esforço do cristão para agradar a Deus através do seu trabalho. O resultado da ética protestante é a racionalidade metódica no trabalho que parece ter sido também a gênese da concepção de que o trabalho deve ser igualmente uma atividade organizada dirigida para o lucro. Os puritanos desenvolviam uma religião metódica e absolutamente racional e projetaram este modo de vida nas relações com o capital e o trabalho. Esta maneira peculiar de ver a vida, o trabalho e o lucro Weber entendeu como sendo o espírito protestante.  A origem desta visão encontra-se na sua concepção de vocação em Lutero:

“Da mesma forma que o significado da palavra – e isto deve ser sabido de todos – o pensamento subjacente é novo, e é um produto da Reforma. É verdade que certa valorização do trabalho cotidiano secular, contida nesta concepção, já se havia manifestado, não apenas na Idade Média, mas também na baixa antigüidade helenística, e isto será debatido mais adiante. Indubitavelmente nova era, sem dúvida, esta valorização do cumprimento do dever dentro das profissões seculares, no mais alto grau permitido pela atividade moral do indivíduo. Foi isso que deu pela primeira vez este sentido ao termo vocação, e que inevitavelmente teve como conseqüência a atribuição de um significado religiosos ao trabalho secular cotidiano. Foi, portanto, neste conceito de vocação que se manifestou o dogma central de todos os ramos do Protestantismo, descartado pela divisão católica dos preceitos éticos em praecepta e consilia, e segundo a qual a única maneira de viver a aceitável para Deus não estava na superação. da moralidade secular pela ascese monástica, mas sim no cumprimento das tarefas do século, imposta ao indivíduo pela sua posição no mundo, nisso é que está a sua vocação.”(Weber, 1994 P. 53)”.

Sob o termo protestante Weber arrolou os principais representantes históricos do protestantismo ascético: O calvinismo na forma que assumiu na sua principal área de influência na Europa Ocidental, especialmente no século XVII; o pietismo; o metodismo; as seitas derivadas do movimento batista. Todos estes grupos religiosos, segundo Weber, de uma ou de outra forma foram influenciados pela doutrina calvinista da soberania de Deus e da predestinação. A partir desta doutrina o cristão descobre que não vive para si, mas para a honra e glória de Deus, soberano, que decreta os destinos de toda a humanidade e de cada homem. Esta doutrina torna a religião uma experiência absolutamente individual e solitária.

João Calvino deu ao protestantismo francês sua doutrina e organização. Mais rigoroso do que Lutero, suas idéias se estenderam imediatamente e muito, a partir da Universidade de Genebra, Suíça, da qual foi fundador. Suas concepções educacionais foram espalhadas pela Holanda, Bélgica, Escócia, Inglaterra etc. e, tempos depois, nas colônias inglesas na América do Norte. (Irwin, 1947; Lessa, s.d.). O sistema de doutrina calvinista é complexo e deriva – se do pensamento de Santo Agostinho, em sua totalidade encontra – se exposto, nos comentários bíblicos de João Calvino e principalmente, em sua principal obra de teologia sistemática, intitulada Institución De La Relligión Cristiana. Seu ponto de partida era o mesmo de Lutero.

Calvino só admitia, em matéria de religião, uma autoridade: a Bíblia. Como Lutero, também assegurava que unicamente a fé podia salvar o homem, e não as obras. Partindo da idéia da onipotência e onisciência divina, Calvino afirmou que a fé é uma graça especial que Deus outorga aos eleitos desde a eternidade em oposição à graça comum, concedida a todos os homens em Adão. Esta última inclui a crença na divindade e é inata. A doutrina da soberania de Deus e a crença nesta graça especial, concedida como resultado da obra vicária de Cristo na cruz, é a base para a doutrina da predestinação, a qual afirma que Deus, pela sua presciência e soberania, escolheu alguns para a salvação eterna, enquanto deixou outros entregues ao seu próprio destino eterno.

O calvinismo sustenta que, desde a queda de Adão e em conseqüência de seu pecado, todos os homens são naturalmente necessitados de salvação e santidade, totalmente alienados de Deus e justamente submetidos a seu decreto eterno. O plano de salvação do homem deste estado é, do princípio ao fim, um sistema de graça imerecido. A mediação de Jesus Cristo, incluindo sua instrução, seu exemplo, seu sacrifício na cruz, sua ressurreição, ascensão e intercessão, são os únicos meios de salvação do homem e de sua volta para Deus, pelo arrependimento. Ainda estes meios seriam sem eficácia se Deus não houvesse revelado ao homem uma justificação gratuita, através dos méritos da pessoa e do sacrifício de Jesus Cristo e se o Espírito Santo não aplicasse esta obra no coração dos pecadores.

Para Weber, a doutrina da soberania de Deus e a predestinação teriam gerado o que ele denominou de individualismo protestante.  Este individualismo imprime uma marca particular no Calvinismo sobre o mandamento divino do amor ao próximo. Não é o próximo considerado em si mesmo que é o gerador deste amor. O amor ao próximo é uma decorrência do amor de Deus pelo homem pecador e por isso este amor ao próximo vai concretizar-se por meio do trabalho objetivo em favor do outro e é medido pela utilidade deste trabalho para o bem comum.

Analisando a obra de Richard Baxter, Christian Directory, Diretório Cristão, um exemplo de teologia moral puritana, um manual de conduta totalmente voltado para a ação prática do cristão no mundo. Weber conclui que esta moralidade prática de base ascética levou a um santo desprezo pela riqueza e ao ardor pelo trabalho. O puritano recusa-se a gozar os benefícios da riqueza e o perigo da ociosidade. O resultado desta ética segundo Weber é a acumulação de bens:

“Combinando essa restrição do consumo com essa liberação da procura da riqueza, é óbvio o resultado que daí decorre: a acumulação capitalista através da compulsão ascética a poupança. As restrições impostas ao uso da riqueza adquirida só poderiam levar a seu uso produtivo como investimento de capital” (Weber, 1994. P. 124).

Na tese de Weber, (1982), a concepção protestante sobre o lucro e a riqueza é diametralmente oposta a católica romana. Para os católicos o lucro representa a usura e as riquezas podem ser condenadas por isso. Os protestantes acreditavam, porém que o lucro é uma benção divina e as riquezas podem representar um Dom de Deus. As riquezas eram encaradas pelos adeptos das seitas [5] puritanas como pertencentes a Deus e, por isso, deveriam ser bem administradas, pois o crente é apenas um mordomo do Senhor. Por outro lado, o cristão deveria evitar a luxúria e os prazeres mundanos, restando, como única fonte divina de gozo, o trabalho. A combinação entre a racionalidade metódica protestante e o ascetismo puritano desenvolveram o capitalismo na forma como é conhecido no ocidente cristão, segundo Weber.

Weber (1982) acentua que não é a doutrina ética de uma religião, mas a forma de conduta ética a que são atribuídas as recompensas dos respectivos bens de salvação que importa. Para o puritanismo, as recompensas eram atribuídas a quem se “provava” perante Deus, no sentido de alcançar a salvação e “provar-se” frente aos homens no sentido de manter a posição social dentro das seitas puritanas.

Os conventículos e seitas ascéticas formaram uma das bases históricas mais importantes do “individualismo” moderno, devido ao seu rompimento radical com a servidão patriarcal e autoritária e também devido a sua forma de interpretar a declaração de que é devida maior obediência a Deus do que ao homem. Comentando Werber (1982), Biéler (1990) conclui que:

“A ética protestante age no desenvolvimento do capitalismo, de duas maneiras convergentes e extremamente eficazes: sua moral do trabalho e do ativismo prático acumula a produção e força o enriquecimento; seu ascetismo, porém, oposto a todas as formas de luxo e de prazeres inúteis, freia o consumo de riquezas adquiridas e conduz ao acúmulo de capital. O enriquecimento certo a que esta moral conduz não é um alvo, mas uma conseqüência quase inevitável”. (P. 637)

Além da questão econômica Weber abordou outros aspectos relacionados a religião, como por exemplo, a relação entre a religião e a ciência.  A cosmovisão religiosa em Weber (1979) influencia ainda as concepções intelectuais do mundo. A tensão da religião frente ao conhecimento intelectual é grande e fundamentada em princípios. Essa tensão existe pelo fato do conhecimento racional funcionar através do desencantamento do mundo e sua transformação num mecanismo causal; e a religião pela afirmação de que o mundo é um cosmo ordenado por Deus, sendo assim um mundo significativo e eticamente orientado. O aumento da racionalidade na ciência empírica leva à religião, pois a racionalidade fornece os significados para a ocorrência do mundo interior.

É possível uma conciliação entre a religião e a especulação metafísica (mesmo sabendo que esta poderá levar ao ceticismo), como ocorre com o protestantismo ascético e a ciência natural. As diferentes ligações entre a religião e o intelectualismo foram provocadas pelos interesses sacerdotais, a compulsão interiorizante do caráter racional da ética religiosa e a busca intelectualista da salvação produziram a racionalidade metódica no protestantismo; hoje, a religião se tornou um poder supra-humano irracional.

A religião defende que o homem religioso deve libertar-se das substituições enganosas e errôneas, apresentadas como conhecimento pelas impressões confusas dos sentidos e as abstrações vazias do intelecto para perceber o significado do mundo e de sua própria existência. A necessidade de salvação resultou da tentativa de uma racionalização sistemática e prática das realidades da vida; prega-se uma compensação justa para a distribuição desigual da felicidade individual no mundo.

Willian James, por outro caminho, pela psicologia social, parece ter comprovado as teses de Weber sobre o protestantismo europeu do século XIX no protestantismo norte americano do mesmo século. James, (1991), filósofo e psicólogo norte – americano, foi um pesquisador da experiência religiosa e sobre os efeitos desta experiência no comportamento do indivíduo.  Após analisar mais de cem relatos de experiências vividas por membros das mais variadas religiões que existiam nos Estados Unidos em sua época ele sistematizou seu pensamento na obra As Variedades da Experiência Religiosa. Posteriormente foi o criador do pragmatismo[6]. A partir de uma exaustiva análise da experiência religiosa do protestantismo projetado sobre a sociedade norte americana de então, ele concluiu que na maioria absoluta destas experiências:

“Deus não é conhecido, nem compreendido: Deus é usado às vezes como fornecedor de alimentos, outras como sustentáculo moral, às vezes como amigo, às vezes como objeto de amor. Revela-se útil a consciência religiosa não lhe pede mais do que isso. Existe Deus realmente? Como existe? O que é ele? São outras tantas perguntas irrelevantes. Não Deus, mas a vida, mais vida, uma vida maior, mais rica, mais satisfatória, em última análise, é a finalidade da religião. O amor à vida, em qualquer nível de desenvolvimento, é o impulso religioso.” (James, 1991, p. 313).

A partir da tradição weberiana, Niebuhr (1992) demonstra que as denominações cristãs desenvolvidas nos Estados Unidos não são frutos apenas de quizilas ou querelas Teológicas, mas têm suas origens em fatores sociais concretos e, navegando pelos meandros da história, da ética e da sociologia, reafirma as teses de Weber:

“Todas as igrejas dos pobres, cedo ou tarde, se transformaram em igrejas de classe média porque, tendo superado as necessidades, perderam muito do idealismo nascido dessas mesmas necessidades. A tese de Weber de que a piedade conduz ao sucesso econômico é, sem dúvida, verdadeira” (Niebuhr, 1992, p. 40).

Este autor observou que havia uma estreita relação entre denominação e classe social naquele país. Na realidade, tanto a religião influencia no surgimento de uma determinada classe social, quanto esta influencia no desenvolvimento e manutenção de uma determinada religião, e o instrumento desta dialética é a ética religiosa. O mapeamento realizado por este autor sobre igreja e classe social colocou o protestantismo histórico como uma das representações sociais mais bem sucedidas da classe média comercial norte-americana:

“A maioria das igrejas calvinistas da época adquiriram e, desde então, mantiveram caráter definitivo de classe média. É significativo que a distribuição geográfica desta forma de protestantismo coincidiu, desde cedo, com a localização geográfica das classes comerciais emergentes”. (Niebuhr, 1992, P. 63).

As principais críticas que se pode fazer ao pensamento de Weber sobre a sua ética protestante consistem na afirmação de que o acúmulo de capital é anterior ao advento mesmo do protestantismo. Outro dado que se deve considerar reside nas evidências de que Weber não se ateve, em sua pesquisa, aos pressupostos teológicos do protestantismo histórico, derivados do pensamento de Lutero e de Calvino, tendo por outro lado fundamentado suas assertivas na forma como os povos ditos protestantes haviam produzido uma determinada cultura a que Weber chamou de ética protestante, todavia pode se perguntar até que ponto a forma como essas populações assimilaram uma ética protestante em suas representações sociais representam o pensamento da reforma e mesmo o pensamento puritano? Destes pontos de vista as teses de Weber são no mínimo discutíveis.

  1. Considerações críticas finais a ética protestante em Weber.

Os teólogos calvinistas, de modo geral, procuram justificar e mesmo renegar a relação do protestantismo europeu e norte americano com o surgimento do capitalismo moderno apontado por Weber (1994), e costumam argumentar afirmando que a teologia calvinista não demonstra nenhuma tendência capitalista, e não pressupõe por si só, uma ética econômica. Nisto podem ter razão. Todavia é bom lembrar que as afirmações de Weber não se fundamentam na teologia calvinista, mas sim na apropriação e nas representações sociais que a cultura protestante européia e norte americana fizeram de algumas categorias do protestantismo, como o estilo de vida ascético, que leva o protestante a ser, ele mesmo o seu próprio convento, sua vida regada, seu culto a pureza, sua devoção metódica e racional ao trabalho.

No entanto o calcanhar de Aquiles de Weber é outro. João Calvino viveu no século XVI e Max Weber no final do século XIX e primeiro quartel do século XX. Pode se argumentar que

o acúmulo de capital sempre esteve presente as relações econômicas e sociais entre os povos, no entanto não se pode dizer que existia o capitalismo tal qual foi engendrado na Europa Ocidental e nos Estados Unidos na época de Calvino. O capitalismo era desconhecido de Calvino e da sua geração. Não se encontra nas Institutas da Religião Cristã, sua obra magna, e nem nos seus comentários das Escrituras Sagradas nenhum parágrafo defendendo o acúmulo de capital em detrimento da miséria do próximo, encontra-se por outro lado veementes assertivas sobre o amor ao próximo e a forma de expressá-lo: o trabalho em prol do bem comum.

Faz-se necessário considerar que esta forma de capitalismo descrita por Weber, (1994) surgiu após a Revolução Francesa no século XVIII e a Revolução Industrial na Inglaterra no século XIX. Ao contrário do se imagina nos círculos weberianos Calvino também não é o progenitor do individualismo moderno que se encontra na base do capitalismo. No século XVI o conceito de consciência individual e mesmo de indivíduo era relativamente desconhecida. Esta idéia toma corpo após o renascimento, no século XVIII também com a Revolução Francesa como apresentou Holland, (1979) na obra Eu e contexto social. O conceito de si próprio tal como é descrito hoje foi posteriormente burilado pela Psicanálise de Sigmund Freud, não é obra de João Calvino um homem que viveu numa época em que o coletivo exercia primazia sobre o individual e a sociedade estava posta sobre a totalidade do indivíduo. O mérito do reformador de Genebra parece ter sido o de tentar estabelecer os limites então desconhecidos entre o sujeito e a sociedade especialmente quando propôs a separação entre a Igreja e o Estado, isto é, lançado as bases da distinção para o estabelecimento de balizas entre a ética da vida privada e a ética da vida pública, também desconhecidas à época de Calvino. Não se pode atribuir a uma única variável, a ética protestante do trabalho, o surgimento de um processo econômico tão complexo quanto o capitalismo moderno.

Por outro lado considerar a participação da teologia calvinista no advento do capitalismo moderno pressupõe que a religião protestante tenha alcançado um alto grau de secularização [7] já no século XVI, quando do surgimento da reforma religiosa. Neste caso fica difícil supor que Calvino e a igreja protestante como um todo, filha do renascimento do século XVI, tenha conhecido tal categoria sociológica, da sociologia da religião, haja visto que o processo de secularização religioso é bem posterior ao movimento reformado tendo se iniciado a partir das concepções racionalistas do século XIX.

A grande contribuição do calvinismo pode ter sido exatamente tudo isto contribui para a construção de uma ética do trabalho. Faz–se necessário lembrar que no Catolicismo Romano o trabalho é encarado como uma maldição de Deus. O Catolicismo, em sua hermenêutica, não considera que Adão trabalhava desde antes da queda como afirma Gênesis 2[8]. Sobre o trabalho, interpretam, porém, que este teve início somente após a queda, isto é, a partir de Gênesis 3[9] e por esta causa relacionam o trabalho a uma maldição divina.  Já os protestantes consideram o fato de que Adão trabalhava antes mesmo da queda quando ainda desconhecia qualquer maldição de Deus e não relacionam o trabalho com as conseqüências pecaminosas da queda. A teologia protestante relaciona com a queda de Adão apenas os sofrimentos oriundos do trabalho após a queda como afirma Gênesis 3. No protestantismo reformado o trabalho é considerado uma benção do Senhor. Esta visão aliada com um estilo de vida simples, sem ostentação, ascético, produz poupança o que pode ter fomentado o surgimento do capital naqueles países, mas a poupança protestante não pode ser considerada a única variável responsável pela produção de fenômeno tão complexo.

Esta cosmovisão desenvolveu nos povos de cultura protestante uma certa propensão para o desenvolvimento do comércio e da industria, conforme bem prefigurou Laveleye (1951), e demonstrou Gomes, (2000), numa pesquisa sobre as contribuições do Mackenzie College para a formação da mentalidade do empresariado em São Paulo. Neste caso, as conclusões desta pesquisa demonstram que algumas das categorias protestantes presbiterianas, e especialmente da cultura norte – americana, apontadas acima, contribuíram significativamente para a formação do empresariado industrial de São Paulo de 1870 a 1914.

Outro fator importante na cosmovisão protestante se refere a riqueza. No catolicismo existe uma certa glorificação da pobreza numa radicalização dos ensinos evangélicos de que só os pobres herdarão o reino de Deus. O católico costuma ver a riqueza com desconfiança e projeta esta desconfiança naquele que acumulou bens nesta vida, pois o mesmo encontra-se excluído do reino de Deus. No protestantismo, ao contrário, a riqueza advinda do trabalho e da poupança é considerada como um sinal da benção do Senhor. É acúmulo de bens é altamente valorizado. Quanto a relação de católicos e protestantes com o lucro é um aspecto que exige uma discussão mais complexa que ficará de fora deste artigo por falta de espaço e poderá ser abordada posteriormente posto que esta pesquisa pretende focalizar apenas a ética do trabalho e suas relações com o pensamento calviniano.

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[1] A centralização do calvinismo na Palavra de Deus, a Bíblia Sagrada, considerada por Calvino a única revelação especial e suficiente de Deus para o conhecimento da salvação distingue a teologia Reformada da teologia Católica. Esta admite além da própria Bíblia Sagrada a revelação natural e a tradição dos santos padres que é considerada e acatada no mesmo nível da revelação especial e no catolicismo popular no Brasil é mais conhecida do que a própria Bíblia que tem uma posição secundário nesta forma de expressão religiosa.

[2] A depravação total do homem é um dos pilares da teologia calvinista. Por esta doutrina o pecado da desobediência de Adão foi imputado a todo gênero humano. O homem nasce pecador independente do seu pecado pessoal, ser pecador é o seu estado diante de Deus posto que o homem herdou esta condição espiritual de Adão, o arquétipo do pecador e, por isso, encontra-se espiritualmente morto e incapaz de realizar qualquer coisa que agrade a Deus. O pecado afetou sua cognição, sua volição, seu espírito de tal sorte que mesmo conhecendo o bem o pessoal, Ele é incapaz de escolhê-lo e efetuá-lo (Romanos 7).

[3] A doutrina da soberania de Deus é o vértice da teologia calvinista. “Desde toda a eternidade, e pelo sapientíssimo e santíssimo conselho de sua própria vontade, Deus ordenou livre e imutavelmente tudo quanto acontece; porém, de modo tal que nem é Deus o autor do pecado, nem se faz violência à vontade das criaturas, nem é tirada a liberdade ou contingências das causas secundárias, antes são estabelecidas”.(Hodge, 1999, p. 95, citando a seção I da Confissão de Fé de Westminster.).

4 .O fundador do pietismo dentro do luteranismo foi Felipe Jacó Spener (1635-1705), com sua obra Pia Desideria. “No Pietismo protestante é, ressalvado de certo modo a tendência para o monasticismo, o equivalente do misticismo católico. Se este tem características solitárias, aquele é individualista. Tanto o misticismo como pietismo são uma ascese pessoal, no sentido de um apropriar-se do sagrado sem a ajuda de fatores de ordem epistemológica. Parecem ser fatores morfológicos dessas manifestações de vivência religiosa, o platonismo e individualismo. (…) A teologia do puritanismo está expressa, em termos mais radicais nas obras de Milton (Paraíso Perdido, 1667) e João Bunyan (O Peregrino, 1678). Para Max Weber, só a leitura desta última já é suficiente para conhecer a atmosfera peculiar do puritanismo, no que parece estar ele certo. Bunyan mostra a vida cristã como uma caminhada áspera em direção a cidade de Deus.” (Mendonça, 1995, p. 43 ).

5 WEBER, Max. Ensaios de Sociologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan. 1982. Diz ele: “Na verdade, uma Igreja é uma corporação que organiza a graça e administra os dons religiosos da graça, como uma fundação. A filiação a uma Igreja é, em princípio, obrigatória e, portanto, nada prova quanto às qualidades dos membros. A seita é, porém, uma associação voluntária apenas daqueles que, segundo o princípio, são religiosa e moralmente qualificados. Quem encontra a recepção voluntária da sua participação, em virtude da aprovação religiosa, ingressa na seita voluntariamente” (Weber, 1982. P. 351).

[6] Pragmatismo deriva de uma palavra grega que significa ação, ou seja, vindo de nossas palavras “prática” e “prático”. O método pragmático é um método que tenta interpretar cada noção, traçando as suas conseqüências práticas respectivas. Esse método pode parecer tanto uma forma mais radical quanto uma forma menos contraditória. O pragmatismo é diferente do racionalismo e não visa resultados particulares, somente atitude de orientação. (James, 1989).

7 Processo pelo qual o controle mágico e religioso sobre os indivíduos e grupos é substituído pelas formas de controle racional, principalmente pela difusão da tecnologia e da ciência. Todas as atividades socialmente aceitáveis são inicialmente controlados pelas formas mágicas dos ritos religiosos, posteriormente estas formas de controle vão sendo substituídas pôr explicações plausíveis e racionais para o intelecto humano. Geralmente o processo de secularização é acompanhado de um relativo processo de desorganização da esfera religiosa como ocorre na Europa pós-cristã e em alguns setores do estados Unidos da América.

[8]  Assim, pois, foram acabados os céus e a terra e todo o seu exército.  E, havendo Deus terminado no dia sétimo a sua obra, que fizera, descansou nesse dia de toda a sua obra que tinha feito.  E abençoou Deus o dia sétimo e o santificou; porque nele descansou de toda a obra que, como Criador, fizera.  Esta é a gênese dos céus e da terra quando foram criados, quando o SENHOR Deus os criou.  Não havia ainda nenhuma planta do campo na terra, pois ainda nenhuma erva do campo havia brotado; porque o SENHOR Deus não fizera chover sobre a terra, e também não havia homem para lavrar o solo.  Mas uma neblina subia da terra e regava toda a superfície do solo.  Então, formou o SENHOR Deus ao homem do pó da terra e lhe soprou nas narinas o fôlego de vida, e o homem passou a ser alma vivente.  E plantou o SENHOR Deus um jardim no Éden, na direção do Oriente, e pôs nele o homem que havia formado.  Do solo fez o SENHOR Deus brotar toda sorte de árvores agradáveis à vista e boas para alimento; e também a árvore da vida no meio do jardim e a árvore do conhecimento do bem e do mal.  E saía um rio do Éden para regar o jardim e dali se dividia, repartindo-se em quatro braços.  O primeiro chama-se Pisom; é o que rodeia a terra de Havilá, onde há ouro.  O ouro dessa terra é bom; também se encontram lá o bdélio e a pedra de ônix.  O segundo rio chama-se Giom; é o que circunda a terra de Cuxe.  O nome do terceiro rio é Tigre; é o que corre pelo oriente da Assíria. E o quarto é o Eufrates.  Tomou, pois, o SENHOR Deus ao homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar.  E o SENHOR Deus lhe deu esta ordem: De toda árvore do jardim comerás livremente,  mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás.  Disse mais o SENHOR Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idônea.  Havendo, pois, o SENHOR Deus formado da terra todos os animais do campo e todas as aves dos céus, trouxe-os ao homem, para ver como este lhes chamaria; e o nome que o homem desse a todos os seres viventes, esse seria o nome deles.  Deu nome o homem a todos os animais domésticos, às aves dos céus e a todos os animais selváticos; para o homem, todavia, não se achava uma auxiliadora que lhe fosse idônea.  Então, o SENHOR Deus fez cair pesado sono sobre o homem, e este adormeceu; tomou uma das suas costelas e fechou o lugar com carne.  E a costela que o SENHOR Deus tomara ao homem, transformou-a numa mulher e lha trouxe.  E disse o homem: Esta, afinal, é osso dos meus ossos e carne da minha carne; chamar-se-á varoa, porquanto do varão foi tomada.  Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne.  Ora, um e outro, o homem e sua mulher, estavam nus e não se envergonhavam. (Gênesis 2:1-25 RA)

[9]  A cobra era o animal mais esperto que o Deus Eterno havia feito. Ela perguntou à mulher: -É verdade que Deus mandou que vocês não comessem as frutas de nenhuma árvore do jardim? A mulher respondeu: -Podemos comer as frutas de qualquer árvore, menos a fruta da árvore que fica no meio do jardim. Deus nos disse que não devemos comer dessa fruta, nem tocar nela. Se fizermos isso, morreremos. Mas a cobra afirmou: -Vocês não morrerão coisa nenhuma! Deus disse isso porque sabe que, quando vocês comerem a fruta dessa árvore, os seus olhos se abrirão, e vocês serão como Deus, conhecendo o bem e o mal. A mulher viu que a árvore era bonita e que as suas frutas eram boas de se comer. E ela pensou como seria bom ter conhecimento. Aí apanhou uma fruta e comeu; e deu ao seu marido, e ele também comeu. Nesse momento os olhos dos dois se abriram, e eles perceberam que estavam nus. Então costuraram umas folhas de figueira para usarem como tangas. Naquele dia, quando soprava o vento suave da tarde, o homem e a sua mulher ouviram a voz do Deus Eterno, que estava passeando pelo jardim. Então se esconderam dele, no meio das árvores. Mas o Deus Eterno chamou o homem e perguntou: -Onde é que você está? O homem respondeu: -Eu ouvi a tua voz, quando estavas passeando pelo jardim, e fiquei com medo porque estava nu. Por isso me escondi. Aí Deus perguntou: -E quem foi que lhe disse que você estava nu? Por acaso você comeu a fruta da árvore que eu o proibi de comer? O homem disse: -A mulher que me deste para ser a minha companheira me deu a fruta, e eu comi. Então o Deus Eterno perguntou à mulher: -Por que você fez isso? A mulher respondeu: -A cobra me enganou, e eu comi. Então o Deus Eterno disse à cobra: -Por causa do que você fez você será castigada. Entre todos os animais só você receberá esta maldição: de hoje em diante você vai andar se arrastando pelo chão e vai comer o pó da terra. Eu farei que você e a mulher sejam inimigas uma da outra, e assim também serão inimigas a sua descendência e a descendência dela. Esta esmagará a sua cabeça, e você picará o calcanhar da descendência dela. Para a mulher Deus disse: -Vou aumentar o seu sofrimento na gravidez, e com muita dor você dará à luz filhos. Apesar disso, você terá desejo de estar com o seu marido, e ele a dominará. E para o homem Deus disse o seguinte: -Você fez o que a sua mulher disse e comeu a fruta da árvore que eu o proibi de comer. Por causa do que você fez, a terra será maldita. Você terá de trabalhar duramente a vida inteira a fim de que a terra produza alimento suficiente para você. Ela lhe dará mato e espinhos, e você terá de comer ervas do campo. Terá de trabalhar no pesado e suar para fazer que a terra produza algum alimento; isso até que você volte para a terra, pois dela você foi formado. Você foi feito de terra e vai virar terra outra vez. Adão pôs na sua mulher o nome de Eva por ser ela a mãe de todos os seres humanos. E o Deus Eterno fez roupas de peles de animais para Adão e a sua mulher se vestirem. Então o Deus Eterno disse o seguinte: -Agora o homem se tornou como um de nós, pois conhece o bem e o mal. Ele não deve comer a fruta da árvore da vida e viver para sempre. Por isso o Eterno expulsou o homem do jardim do Éden e fez que ele cultivasse a terra da qual havia sido formado. Deus expulsou o homem e no lado leste do jardim pôs os querubins e uma espada de fogo que dava voltas em todas as direções. Deus fez isso para que ninguém chegasse perto da árvore da vida.

Antonio Maspoli
Antonio Maspoli
Sou Antonio Maspoli, cidadão do mundo, Teólogo e Psicólogo. Deus é a minha herança pessoal, meu caso de amor! Deus encantou-me com o a sua presença. E abriu-me as porta do conhecimento do numinoso: "Eu cri, por isso compreendi" (Agostinho). Desde então dediquei a minha vida a conhecer a Deus. E a minha existência a compreender a natureza humana.

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