Estratégias para o enfrentamento da depressão

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ESTRATÉGIAS PARA O ENFRENTAMENTO DA DEPRESSÃO

Dr. Antonio Maspoli

Introdução

Andrew Solomon, na obra O demônio do meio dia, uma anatomia da depressão, lista inúmeras formas de tratamentos existentes. Os quais serão tratados a seguir. O século XX, marcado pelo cientificismo, foi palco do antagonismo entre a fé e a razão, a religião e a ciência. A psiquiatria, e mesmo a psicologia, considerava a intervenção religiosa sobre a depressão com certa desconfiança. Esse quadro está em rápida mudança. O tratamento da depressão, atualmente, recomenda a utilização de algumas estratégias conjugadas: a) tratamento psicofarmacológico; b) tratamento espiritual; c) tratamento psicoterápico ou psicológico; d) qualidade de vida; e) acolhimento do grupo família.

Formas de Tratamento da Depressão

A) O tratamento médico psiquiátrico. Sobre o tratamento médico psiquiátrico, recomendamos voltar ao capítulo deste livro, escrito pelo Dr. Pérsio Gomes de Deus (DEUS, 2009). A depressão é uma doença a não subestimar, mas que se pode tratar com ótimos resultados, recorrendo aos meios mais seguros e eficazes. O diagnóstico de depressão é, de fato, um primeiro passo ao qual se deve seguir a identificação exata do tipo de depressão e a reconstrução da história do doente, a fim de que o problema seja devidamente enquadrado. Só quando o médico está na posse desses dados pode prescrever o tratamento.

Para estabelecer com a máxima precisão o tipo e o grau de depressão, os especialistas dispõem de diversas escalas que, na prática, são questionários aos quais os doentes têm de responder. Com base na pontuação e na interpretação das respostas pelo psicólogo, será então possível obter indicações úteis sobre a gravidade da doença e selecionar o tipo de terapêutica.
Atualmente, a solução ideal prevê a associação da psicoterapia aos psicofármacos, qualidade de vida e orientação espiritual. Em qualquer caso, é necessário iniciar o tratamento de imediato, ou seja, aos primeiros sinais da doença, porque só desse modo este será mais eficaz.

Nenhum psiquiatra negará que a farmacoterapia moderna tornou o tratamento da depressão consideravelmente mais fácil e mais rápido. Entretanto, ela não tornou a psicoterapia supérflua. Se a depressão for tratada simplesmente com drogas, o paciente amiúde se sente uma pessoa desprezível. Ele sofre como pessoa, de modo que quando o tratamento consiste simplesmente em comprimidos e injeções, ele fica com a impressão de que não esta sendo tratado por médicos, e sim por veterinários – Frase usada por Manfred Bleuler em um simpósio que ocorreu no hospital psiquiátrico da Universidade de Zurique (FIERZ, 1997, p. 374).

Os fármacos antidepressivos atuam sobre os sistemas do cérebro que regulam a transmissão nervosa e, concretamente, sobre os neurotransmissores serotonina e noradrenalina, que estão diretamente envolvidos na origem da depressão. O princípio que está na base do seu funcionamento é o de aumentar o nível desses mediadores químicos, potencializando os seus efeitos em nível cerebral e reequilibrando, no tempo, os mecanismos neuronais alterados pela doença. Na prática, os fármacos impedem que a serotonina e ou a noradrenalina sejam absorvidos pelos neurônios que as produzem, de modo a poderem chegar ao destino, designadamente aos neurônios que devem recebê-la. Isso faz com que os dois neurotransmissores consigam desempenhar corretamente a sua função, que consiste em transportar mensagens eletroquímicas entre os neurônios. Normalmente, os fármacos são eficazes em cerca de 80% dos casos de depressão, independentemente da causa que se encontra na sua origem. A ação dos fármacos começa a ter os seus primeiros resultados após um período que varia entre duas e três semanas de administração diária, podendo ser necessária uma administração mais prolongada para obter o máximo de eficácia. 1

Solomon apresenta os principais medicamentos utilizados no tratamento da depressão:

Quatro classes de antidepressivos estão disponíveis atualmente. A mais popular são os IRSs, que acarretam níveis mais altos de serotonina no cérebro. Prozac, Luvox, Paxil, Zoloft e Celexa são todos IRSs. Os tricíclicos, assim denominados por sua estrutura química, afetam a serotonina e a dopamina. Elavil, Anafranil, Norpramin, Tofranil e Pamelor são todos tricícliclos. Os inibidores da monoamiooxidase (IMAOs) inibem o colapso da serotonina, dopamina e norepinefrina. Nardil e Parnate são ambos IMAOs. Outra categoria de drogas que operam em sistemas neurotransmissores múltiplos é chamada de Antidepressivos Atípicos (2002, p. 108).

Portanto, atualmente, temos no mercado uma gama de medicamentos que abrange com eficácia basicamente todos os tipos de depressão: 1) depressão devida a alterações predominantes da serotonina tem os IRSS, os inibidores seletivos da recaptação de serotonina; 2) depressão devida a alterações predominantes em serotonina e noradrenalina tem os IRSNs ou os inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina; 3) depressões devidas a alterações predominantes em noradrenalina e dopamina possuem a bupropiona ou inibidores da recaptação de noradrenalina e dopamina; 4) depressões com alteração de vários mediadores químicos combinados têm os tricíclicos.

Na categoria dos antidepressivos atípicos estão: Asendin, Welbutrin, Serzone e Efexor. Esses são considerados inibidores da recaptação de noradrenalina e dopamina. Dentre esses, o mais utilizado é a bupropiona, com o nome no mercado de Wellbutrim e Zetron. Tal medicação é controlada, produz riscos de dependência química e somente deve ser utilizada mediante prescrição e acompanhamento médico.

B) O Tratamento Psicoterápico. A depressão produz alterações neurológicas, bioquímicas e psicológicas. Na crise de depressão, o paciente deve ser encaminhado para a psiquiatria (KAPLAN; SADOCK; GREBB, 1997, p. 320-324). Após a necessária e devida medicação, deve ser encaminhado também para o tratamento psicológico. O tratamento psicológico é recomendado especialmente quando o remédio começa a produzir seus efeitos e o paciente começa a melhorar. Fierz afirma que:

Ademais, o problema psicológico ligado à depressão não é solucionado com drogas, sendo, com frequência simplesmente reprimida, o que naturalmente, não pode ser bom para o prognóstico em longo prazo. Por conseguinte, a aceleração do tratamento através do medicamento exige particular cuidado e atenção da parte do terapeuta. Quando a depressão regride, o problema psicológico (o pequeno peixe) pode emergir repentinamente, mas também pode desaparecer de novo, igualmente de repente. É por isso que temos que ter em mente o princípio hipocrático: “A arte é longa, porém o momento é efêmero” (1997, p. 374).

Existem muitas formas de psicoterapia: destacamos a Terapia Cognitiva Comportamental, a Psicoterapia Psicodinâmica Psicanalítica e a Análise de Carl Gustav Jung.

Terapia cognitiva comportamental. Tem por objetivo colocar em evidência hábitos, comportamentos e pensamentos que possam favorecer o aparecimento de sintomas depressivos e procura convencer o deprimido a modificar o curso dos acontecimentos, de forma a superar as suas próprias dificuldades. Ajuda a examinar os pensamentos e a visão da realidade e tem por objetivo modificar os pensamentos pessimistas (RANGÉ, 2001, p. 50-51; 287-316; 275-287). De acordo com o modelo cognitivo, o indivíduo deprimido apresenta um padrão de pensamento negativista em relação a si mesmo, em relação ao mundo e em relação ao futuro. Ele se percebe como defeituoso, inadequado e, por isso, considera-se indesejável e sem valor. Percebe o mundo como cheio de obstáculos insuperáveis e se vê derrotado diante das suas experiências. Além disso, prevê um futuro negro, cheio de sofrimentos, frustrações e perdas.

A terapia cognitiva busca produzir mudanças no pensamento e no sistema de crenças do cliente, com o objetivo de promover mudanças emocionais e comportamentais duradouras. Procura ainda ajustar o sujeito a si mesmo e ao mundo. Os princípios que norteiam essa técnica psicoterápica são: a) ênfase na aliança terapêutica; b) seu caráter educativo, isto é, ensina o cliente a ser seu próprio terapeuta; c) baseia-se no estabelecimento de metas e focos de tratamento específico para resolver determinados problemas; d) revisão de todo o sistema e crenças e comportamentos que estão relacionados à emissão do comportamento que está sendo tratado.

Psicoterapia Psicodinâmica Psicanalítica. Inicialmente formulada por Sigmund Freud, posteriormente, desenvolvida por Lacan e Melanie Kline, essa técnica baseia-se no conceito de inconsciente. O analista ou psicoterapeuta buscará desenvolver no paciente uma aliança terapêutica com vista ao desenvolvimento do amor transferência. Somente após o estabelecimento do amor transferencial, fruto da neurose de transferência, é que a análise se inicia. O trabalho buscará compreender o sentido e a linguagem dos sintomas para que a repressão seja resolvida, a fim de que o paciente expresse em palavras a situação traumática que deu origem ao sofrimento. Baseia-se na análise da palavra ou livre associação verba (KHAN, 1977, p. 117-160).

O paciente fala livremente e, por meio da sua fala, o analista busca encontrar a lógica do inconsciente. Para um estudo mais aprofundado sobre a técnica freudiana, fazemos referencia aos três artigos de Sigmund Freud, os quais devem ser encarados como paradigmas para a compreensão da sua técnica (WOLMAN, 1976, p. 1-45). São eles: Um capítulo sobre a técnica, publicado em 1904; O caso Dora, publicado em 1905d; e Sobre psicoterapia, publicado em 1905a (FREUD, 1972). Fenichel sugere o curso do trabalho psicanalítico na clínica da depressão:

Difere muito dos casos de depressões neuróticas para os de psicose maníaco-depressiva a perspectiva terapêutica da psicanálise. Quanto à depressão neurótica, os casos mais brandos não necessitam tratamento especial; solucionados os conflitos infantis básicos, no decurso da análise da neurose principal, solucionam-se automaticamente os sentimentos neuróticos da inferioridade, produzindo-se harmonia relativa com o superego (1981, p. 384-385).

Existem outros modelos psicoterápicos para o tratamento da depressão. Esses, todavia, não serão citados neste texto por escaparem aos objetivos deste trabalho. A psicoterapia é definida como qualquer método de tratamento das desordens psíquicas ou corporais que utilize meios psicológicos e, mais precisamente, a relação entre o terapeuta e o doente. Inclui nessa categoria a hipnose, a sugestão, a reeducação psicológica, a persuasão, o aconselhamento e a análise etc. Existem várias alternativas de psicoterapias, neste trabalho destacaremos a psicoterapia analítica de Carl Gustav Jung (JUNG, 1988).

Psicoterapia Analítica de Carl Gustav Jung. O psiquiatra suíço (idem, 1994a, p. 199-219) adota uma explicação da depressão considerando seus aspectos redutivos, negativos, bem como seus aspectos progressivos, positivos. Quanto aos aspectos positivos, Jung postula que a doença mental é a melhor condição da mente humana diante da realidade. A mente adoece para preservar sua própria psique, sua própria sobrevivência. A depressão está ligada à regressão em seus aspectos regenerativos e enriquecedores. A energia psíquica volta-se para o próprio indivíduo em um processo forçado de introversão. A energia introjetada que permanece represada precisa ser consumida no sofrimento, na dor, na angústia e, até mesmo, na apatia. A abordagem junguiana procura reforçar aquilo que ainda existe de saudável e bom no sujeito. Procura fortalecer seus vínculos familiares, suas crenças religiosas, e tem por objetivo dialético adaptar o sujeito ao seu mundo e transformar a consciência do indivíduo para que este participe do processo de transformação alquímica e espiritual de sua existência. A análise junguiana postula uma posição positiva em relação à família, ao grupo social e à própria religião do sujeito (idem, 1988).

Com relação ao primeiro, ele segue a interpretação freudiana, segundo a qual, de um lado, a psicogênese da depressão deve ser rastreada nas experiências da primeira metade da vida, nas experiências infantis de separação ou perda da figura materna, nas experiências de privação afetiva. Nesse primeiro movimento, por um mecanismo de introjeção, o sujeito redireciona a energia psíquica contra si mesmo. A libido passa a ser consumida na melancolia. Todo o medo, toda a angústia, todo o sofrimento provocado pela perda do objeto amado volta-se contra o self. Jung considera o self como uma imagem arquetípica do potencial mais pleno do homem, semelhante a imago dei. O self também pode ser compreendido como um princípio unificador e central da personalidade humana. O self seria o centro, a totalidade da personalidade, que abrange tantos os aspectos conscientes quanto inconscientes da vida psíquica (SAMUELS et al, 1988, p. 193).

O self passa a consumir tal energia em um sofrimento constante. Esse modelo leva o paciente a compreender as causas e o sentido da depressão. Busca não só o porquê do sofrimento; busca também o para quê! Na análise junguiana, o paciente precisa compreender a necessidade de reformular suas atitudes perante a vida cotidiana. Essa reformulação envolve as atitudes relacionadas a seguir: retirar-se da pressão da vida cotidiana; buscar o essencial por meio da contemplação e da meditação. Buscar o centro de si mesmo e da própria existência; adentrar o medo até ver ruírem as defesas que causam a repressão da energia e produzem a depressão; aprender a enfrentar e responder aos desafios da existência humana; aceitar a mortalidade do corpo e a transcendência da alma (JUNG, 1988, p. 495-514); acordar para as próprias necessidades; reconciliar-se com o biorritmo próprio; encontrar o sentido da vida para dar vazão à energia represada; aceitar conscientemente os próprios papéis sociais; procurar resolver os problemas do sono; criar uma rotina para si mesmo e cumpri-la; encontrar formas saudáveis para expiar as próprias culpas, sejam reais ou imaginárias.

A análise junguiana (EISENDRATH; DAWSON, 2002, p. 101-127; 183-212) é um relacionamento dialético de longo prazo; no mínimo, dois anos de duração. Consistem em um trabalho dirigido para a investigação do inconsciente do paciente, seus conteúdos e processos, a fim de aliviar uma condição psíquica sentida como problemática para a vida cotidiana, posto que já interfira nas relações, no trabalho, na administração do tempo e, até mesmo, nos estudos do paciente.

A depressão pode ser neurótica ou psicótica. Embora, tenha sempre como ponto de partida a queixa do paciente, a análise procura envolver a história de vida, o presente e o futuro dentro do contexto da pessoa analisada. O analista busca compreender o sintoma apresentado dentro do processo de individuação vivenciado pelo sujeito numa concepção holística do doente e da doença. A técnica é sempre um esquema sem alma, e quem considera a psicoterapia como simples técnica corre, no mínimo, o perigo de cometer erros irreparáveis. Um médico consciencioso deve ser capaz de duvidar de todas as suas técnicas e teorias, caso contrário cai nas malhas do esquema. Mas esquema significa estupidez e inumanidade.

Realmente é impossível fazer o tratamento da alma e da personalidade humana, isolando umas partes do resto. Nos distúrbios psíquicos talvez apareça com maior clareza do que nas doenças físicas, que a alma é um todo, onde tudo depende de tudo. Com a sua neurose, o doente não nos põe em presença de uma especialidade, mas de toda uma alma, e com ela, de todo um mundo; essa alma depende dele, e sem ele nunca será possível entendê-la satisfatoriamente. (JUNG, 1988, p. 91).

A análise junguiana procura reforçar aquilo que ainda existe de saudável e bom no sujeito. Procura fortalecer seus vínculos familiares, suas crenças religiosas, e tem por objetivo dialético adaptar o sujeito ao seu mundo e transformar a consciência do indivíduo para que este participe do processo de transformação alquímica e espiritual de sua existência. A análise junguiana postula uma posição positiva em relação à família, ao grupo social e à própria religião do sujeito.

Muitas vezes me perguntaram qual era meu método psicoterapêutico ou analítico; não posso oferecer uma resposta unívoca. Cada caso exige uma terapia diferente. Quando um médico me diz que “obedece” estritamente a este ou àquele “método”, duvido de seus resultados psicoterapêuticos. […] As psicoterapias e as análises são tão diversas quanto os indivíduos. Trato cada doente tão individualmente quanto possível, pois a solução do problema é sempre pessoal. […] Uma solução falsa para mim pode ser justamente a verdadeira para outra pessoa. […] Cada doente exige o emprego de uma linguagem diversa. Assim, numa análise, posso falar uma linguagem adleriana, em outra, uma linguagem freudiana (JUNG, 1963, p. 120).

No processo de análise, considera-se a existência dos mitos, símbolos, ritos e arquétipos pessoais a fim de integrá-los na consciência dentro do processo de cura. Este processo visa estabelecer uma relação terapêutica que integra na consciência do sujeito sua experiência objetiva e subjetiva, seus traumas e complexos na relação com o analista. Considera-se ainda a importância dos arquétipos para a estrutura da mente e da personalidade do sujeito.

Diferentemente da psicanálise, a psicologia analítica de Carl Gustav Jung considera a transferência e a contratransferência como duas faces de uma mesma moeda no trabalho de análise. Jung identificou, em 1929, quatro estágios no processo de análise: a catarse ou estágio da escuta ou confissão; a elucidação ou interpretação do material confessado; a educação e; a transformação (idem, 1988).

  1. O primeiro estágio é a catarse, ab-reação ou purificação. Essa seria na verdade a aplicação científica de uma práxis religiosa, ou seja, a escuta e a confissão. A escuta corre da parte do analista. A confissão serve para aliviar as tensões do sistema nervoso central, colocando o sujeito que confessa de volta à comunidade dos homens.

  2. A fase de interpretação ou elucidação visa trazer à consciência a mensagem que está sendo, dia após dia, comunicada pelo sintoma. O sintoma é encarado como a linguagem de um trauma ou mesmo de um conflito ético, moral ou espiritual que está emergindo na consciência do sujeito.

  3. A terceira etapa consiste na educação. O paciente é instigado a viver de acordo as possibilidades e os limites de sua descoberta pessoal no processo de análise. Essa fase assemelha-se ao conceito psicanalítico de elaboração.

  4. E finalmente, a transformação que corresponde às transformações que devem ocorrer na vida do paciente a partir do processo de análise. Este processo deve ser vivenciado pelo paciente sabendo que cada um sabe “a dor e a delícia de ser o que é” [Ad tempora].

O terapeuta precisa transmitir calma e tranquilidade ao seu paciente que sofre de depressão, encarando ele próprio a depressão como um fenômeno tipicamente humano. Só as pessoas inteligentes e sensíveis sofrem desta moléstia (FIERZ, 1997, p. 141-142). O paciente precisa obedecer a uma rotina em seu dia a dia. A depressão desorganiza o sentido e a percepção do tempo. A rotina é importante para lhe devolver esse sentido. Diz Fierz:

Deve ser estabelecido um programa cotidiano durante o tratamento, se possível em série com a terapia ocupacional. Em sua depressão desestruturada, o paciente caiu “fora do tempo”, por assim dizer, e é por isso que as horas que dividem o dia precisam se tornar novamente visíveis (1997, p. 372).

Em uma atitude absolutamente fenomenológica, o paciente precisa compreender cada sintoma que apresenta à luz da sua depressão. A compreensão dos sintomas como próprios do quadro depressivo auxilia o paciente e pode minorar o seu sofrimento psíquico. Ainda Fierz:

O paciente precisa ser repetidamente examinado, e os sintomas observados devem ser descritos e explicados para ele várias vezes. Por exemplo, se o paciente descobrir que o terapeuta sabe como os deprimidos podem se sentir fisicamente fracos, ele sentirá que é compreendido. Em geral, através de exames e explicações, devemos tentar fazer com que o paciente perceba os aspectos comuns e típicos do seu estado, visto que ele se sente ameaçado por algo estranho e incompreensível.

Sujeito S

Identificação: Chamaremos a cliente de S2

Idade: 30 anos.

Sexo: Feminino.

Estado civil: Solteira.

Religião: Protestante.

S entrou em meu consultório, sem marcar entrevista com antecedência, e disse que já havia passado com seu carro em frente mais de dez vezes e, no entanto, não tivera coragem de parar e entrar. Hoje vencera tal dificuldade e lá estava para contar sua vida. S afirmou que tivera uma vida normal até a adolescência: era tudo alegria, muitos sonhos, projetos e amigos, mas há cerca de cinco anos sua vida mudou completamente: encontrava-se doente e deprimida. S continuou dizendo que sentia que a sua vida começou a mudar, até chegar ao ponto em que se encontrava hoje, depois que começou a atender as exigências de sua mãe no sentido de romper com as suas relações de amizade e viver em função de sua família e de sua Igreja.

A família de S é constituída por seu pai, mãe, irmãos casados e uma irmã solteira. Sua família poder ser entendida como uma constelação familiar complexa e disfuncional, segundo a abordagem junguiana. Então vejamos: o pai de S é ministro de música da Igreja há mais de vinte anos. É viciado em álcool, vício que nunca conseguiu largar. O universo social dele restringe-se ao coral e ao atendimento aos problemas de sua família. Segundo S, em casa, ele é um homem fechado. Não se comunica com ninguém e, quando precisa enfrentar algum problema familiar, logo perde o controle e o equilíbrio emocional, com explosões de ira que são interrompidas pela intervenção da mãe, sempre pacífica, submissa, polida, e claro, a favor do pai.

A mãe de S, segundo seu relato, nunca apresentou problema algum, a não ser uma mania exagerada de limpeza. Ela passa seu tempo limpando tudo e demonstra uma preocupação obsessiva com doenças que podem ser transmitidas pela falta de limpeza. Ela criou a família sem permitir sequer que um filho andasse descalço e pisasse no chão. O centro das atenções da mãe é a limpeza física da casa e a pureza moral e espiritual da família. Preocupação essa que conseguiu inculcar nos filhos. Menos em S, considerada rebelde, já que sempre se rebelou contra a mania de limpeza da mãe e a agressividade desmedida do pai. S continua seu relato sobre sua mãe e afirma que esta, na verdade, é que domina a vida familiar. A agressividade do pai parece esconder uma família estruturada nos moldes matriarcais.

S afirma ainda que sua mãe conseguiu manter os filhos em uma extrema dependência. Mesmo os casados ainda não largaram a “barra de sua saia”. No entanto, sua mãe sempre foi uma pessoa fria em relação a dar e receber afeto familiar. Apresenta-se fechada diante dos problemas da vida, é alexitímica diante das expressões de afetos na família. Segundo relato de S, a mãe só dava algum carinho aos filhos quando se encontravam enfermos, e isso desde criança.

A queixa S procurou um psicólogo que fosse também pastor porque não queria ser tratada por um profissional não cristão. Sua queixa principal é que, há dois anos, foi diagnosticada como sendo portadora de tuberculose e, desde então, encontra-se isolada do mundo, deprimida. Rompeu seu círculo de amizade. Vive trancada em seu quarto, longe tudo e de todos. Procurou ajuda psicológica porque seu médico acredita que a sua doença foi contraída pela falta de cuidados consigo mesma [S é de classe média e a tuberculose é considerada uma doença endêmica que geralmente se manifesta nas classes menos favorecidas no Brasil]. Além disso, S afirma que adoeceu depois de uma grande fragilidade emocional.

A minha ideia sobre a doença de S é que ela é um dos membros sintomáticos, um representante de uma constelação familiar disfuncional. Sua doença medrou, desenvolveu-se e manifesta-se por força de conflitos familiares e pessoais intensos, expressando padrões inadequados de interação familiar e de comportamento pessoal. (CALIL, 1987). É bom lembrar que S afirmou que sua mãe só expressava afeto quando um dos filhos encontrava-se enfermo. Quando S era criança, era comum os irmãos competirem entre si para ver quem estava com a maior doença, pois só assim poderiam receber maior afeto da mãe. Por esse motivo, não é estranho o fato de todos os irmãos de S apresentarem algum tipo de enfermidade hoje, na vida adulta.

Estratégia de tratamento – A abordagem em psicoterapia embasada na psicologia analítica de Carl Gustav Jung focará os aspectos relevantes dos sintomas atuais vivenciados por S, tal como a sua depressão, seu isolamento social e os sintomas psicossomáticos, sem desprezar, contudo, fatores relevantes relacionados à direção da libido de S, tais como repressão da sexualidade e agressividade, impróprios para uma mulher adulta, aos trinta anos de idade (JUNG, 1988).

Esse material será tratado segundo o modelo apresentado por Jung (ibidem), segundo o qual a psicoterapia evolui nas seguintes fases: a confissão, a interpretação, a elaboração e, finalmente, a educação do cliente. Tais fases podem ocorrer, todavia, em uma única sessão.

Na fase da confissão, escutamos as repetidas queixas de S sobre a falta de compreensão de seus pais para com suas necessidades afetivas, e podemos observar o quanto S havia regredido, a ponto de reclamar dos seus pais, aos trinta anos, a mesma atenção requerida por uma criança. S deixou claro que seu isolamento era uma fuga para seus problemas e, por diversas vezes, manifestou o desejo de abandonar o tratamento, evidenciando, desse modo, a sua desconfiança no tratamento e no terapeuta.

Na medida em que a confissão de S foi evoluindo, ela foi se sentindo mais confiante, até o ponto de trazer o relato sobre um caso amoroso que mantivera com um homem dez anos mais velho do que ela. S prosseguiu o relato dizendo que gostaria de ter um filho, mas não queria se casar porque não era uma pessoa convencional. Preferia ser a outra… Há cerca de três anos manteve um relacionamento extraconjugal com um homem, mas deixou bem claro que seria uma relação fora dos padrões convencionais, uma amizade colorida, por isso não deu nenhuma satisfação do seu relacionamento para ninguém e ficou estabelecido que não haveria nenhum compromisso formal nesse relacionamento. O relacionamento ficou apenas no âmbito do conhecimento dos dois: ela e o seu parceiro. Esse relacionamento durou mais de quatro anos e S estava profundamente envolvida com o mesmo, quando, um dia, ao chegar à Igreja, encontrou o seu namorado especial com outra jovem. Algum tempo depois, ele se casou com a jovem, e só então S compreendeu que a relação era mais séria e profunda do que ela pensava. Entretanto, o casamento não interrompeu o relacionamento. Este ficou apenas mais secreto [sic]. Mas agora, sentia que o casamento, com a natural existência da esposa do seu amante, impossibilitava a realização do seu desejo secreto de permanecer com ele.

Quero registrar aqui a opinião de Jung (1991), segundo a qual, quando a libido investida no objeto do amor perde esse objeto, a libido introjeta-se no indivíduo produzindo disfunções psicológicas e, especialmente, a depressão. Tal opinião de Jung é corroborada por Grodeck para quem o sintoma pode ser uma forma do inconsciente comunicar-se com o paciente para expressar, por meio do simbolismo do sintoma, o seu estado moral, espiritual e patológico (GRODECK, 1990).

No desenvolvimento da análise, S teve um insight. Descobriu uma profunda identificação projetiva com seu pai, pois, segundo ela, diante de alguma dificuldade familiar o mesmo se tranca e reage explodindo com a família. S percebeu que, após o rompimento do namoro, ela se fechou para o mundo, rompendo com seus amigos e, assim, realizando um antigo desejo de sua mãe de isolamento dos filhos do mundo. S percebeu também que ficou gravemente enferma não apenas em função da perda do objeto do seu amor, mas também como forma de obter o afeto da família, já que esta não poderia tomar conhecimento do seu caso com um homem mais velho e do desfecho desse amor, visto o mesmo ser secreto. S é evangélica desde o nascimento, o que levanta outra hipótese relevante: ela pode ter adoecido também em função do sentimento de culpa.

S perseverou no atendimento e deu início à fase de elaboração, quando começou a perceber que muito da sua enfermidade e depressão está relacionada com as dificuldades da sua família e o modo como ela própria vem se relacionando com os problemas atuais, fugindo do mundo para não sofrer nenhuma decepção ou para não se contaminar, à semelhança de sua mãe. S vem tentando compreender também os motivos pelos quais contraiu a tuberculose. Descobriu ser a única que gozava de boa saúde na família. Ficar doente tornou-a semelhante em termos de saúde aos outros irmãos, já que até dois anos atrás S não apresentava nenhum sintoma físico.

Após a fase de elaboração, S demonstrou uma intensa resistência, falando sempre em abandonar o atendimento. Até que, um dia, ela expressou que, depois do seu desenlace amoroso, havia perdido completamente a confiança nas pessoas. Agora estava deprimida. A depressão acentuou-se, deu lugar ao aparecimento de uma forte agressividade dirigida para a figura do terapeuta, representante simbólico da figura paterna. Nessa fase do tratamento, S descobriu que ainda tem uma vida para viver. Em uma das entrevistas ela disse textualmente: “A maior descoberta que fiz em minha análise foi que estou viva. Viva!” – repetia enquanto esboçava um largo sorriso.

S encontra-se na fase de educação ou reeducação, isto é, tentando conviver com suas descobertas e redirecionar o curso da sua libido para objetos fora do ambiente familiar. Sua depressão diminuiu. Ela iniciou um curso preparatório para prestar um concurso público e fez um curso de pós-graduação. É visível o investimento afetivo que ela vem fazendo nesse curso e como, inclusive, vem se mostrando preparada para a possibilidade de fracasso na primeira vez que prestar o concurso, o que é um bom sinal. S também vem retomando sua vida afetiva, reatando antigas amizades e, atualmente, vem discorrendo sobre as suas necessidades amorosas, embora ainda não se sinta preparada para iniciar um relacionamento. S encarou o tratamento contra tuberculose de modo sério. Dois anos depois, recebeu alta. S pretende se casar. Desistiu de ser a outra. Pretende ser ela mesma. Assumir seu lugar no mundo.

Abordagem Teológica da Depressão

Outros psicólogos, porém, aproximaram teologia e psicologia. Clyde Narramore (NARRAMORE, 2000, p. 81-86) propôs uma visão integrada para resolver esse conflito: o médico cuidaria dos problemas do corpo; o pastor cuidaria dos problemas espirituais; o psicólogo cuidaria dos problemas emocionais e psicológicos. O psicólogo Ken Wilber (2000), um dos fundadores da psicologia transpessoal, incluiu na teoria de Carl Gustav Jung (1988, p. 134) o conceito de inconsciente espiritual, para que se considere o papel das crenças religiosas nas abordagens das doenças psicossomáticas. Jung (1983, p. 208) considera a religião como uma das primeiras tentativas terapêuticas humanas no combate aos males da alma: “A religião é uma terapêutica revelada por Deus”. Jung considerava a depressão como uma defesa da mente contra os sofrimentos da realidade. Isto é, a depressão é o melhor estado da mente frente ao sofrimento imposto pela realidade. De qualquer modo, a espiritualidade do paciente precisa ser considerada em qualquer estratégia de abordagem para um melhor prognóstico.

Andrew Solomon (2002) lista inúmeras formas de tratamentos existentes para a depressão: alopáticos, psicoterápicos, fitoterápicos e alternativos. O século XX, marcado pelo cientificismo, foi palco do antagonismo entre a fé e a razão, a religião e a ciência. A psiquiatria e mesmo a psicologia considerava a intervenção religiosa sobre a depressão com certa desconfiança. Esse quadro está em rápida mudança. O tratamento da depressão, atualmente, recomenda a utilização de algumas estratégias conjugadas: a) o tratamento psicofarmacológico; b) o tratamento espiritual; c) o tratamento psicoterápico ou psicológico; d) a qualidade de vida e; e) o acolhimento do grupo família (p. 100-120).

A Árvore da cura de Hurding consiste em um manual de aconselhamento espiritual concebido nos moldes dos manuais norte-americanos. A metáfora da árvore utilizada pelo autor representa com propriedade o panorama histórico-teórico-metodológico das teorias e técnicas utilizadas por conselheiros espirituais no mundo cristão. O autor divide sua obra em três partes: na primeira trabalha com os pais da psicologia, Watson, Freud, Jung, Adler, Roger, Skinner etc. Na segunda parte do livro, demonstra a tentativa de psicólogos cristãos e conselheiros espirituais em dialogar com a psicologia. Na terceira parte, ele demonstra como esse diálogo já está estabelecido na prática do aconselhamento espiritual. Esse autor sugere também alguns textos bíblicos que devem ser utilizados no aconselhamento da depressão: Gn 4: 6; Pv 17: 22; 18: 14; Pv 15: 13; Sl 42: 11; 147: 3; 38; 119: 28; Ef 3: 13; Hb 12: 3; 1Co 10: 12-13. Muitos personagens bíblicos também experimentaram aquilo que hoje seria classificado como “depressão”. Vejamos nos textos seguintes: Gn. 4: 7; Sl 34: 19; 37: 23-24; 119: 143; 147: 6; 2Co 12: 9-10; Fp 2: 3-8; 4: 13; 19; Tg 1: 19 (HURDING, 1995).

Cada vez mais pastores, pastoras e conselheiros espirituais se aventuram no tratamento de pessoas com sintomas de depressão, por essa razão incluímos nesta obra algumas recomendações para uma pastoral de solidariedade no acolhimento da depressão por guias espirituais.

Primeiro Princípio: As pessoas adoecem, sofrem e se deprimem por que são humanas (JOHNSON, 1953, p. 15-16). A doença não tem uma causa teológica, espiritual, ou pecaminosa, tem sim uma causa ontológica. Todo ser humano é passível de sofrimento e de enfermidades. Parece que até hoje a religião ainda não resolveu esse problema. Os cristãos são passíveis de depressão, assim como de doenças cardíacas, asma, prisão de ventre e outras enfermidades comuns. Nem sempre, a depressão carrega uma expressão negativa. No mais das vezes, pode representar uma estratégia de adaptação às mudanças naturais da vida adulta, como doenças, desemprego, perdas, transformações bruscas da vida cotidiana etc.

Depoimento 1

Sujeito J

Sexo: Masculino

Idade: 72

Nível de escolaridade: Terceiro Grau Completo.

Profissão: Pastor jubilado

Descrição da depressão: Inicialmente devo apresentar-me: meu nome é , nascido em 18/04/1937, em Joassuba-ES, casado, pastor presbiteriano há 28 anos, pai de um casal de filhos, residente em uma chácara em Itapemirim-ES. Nasci e fui criado em um lar protestante, seguindo fielmente a doutrina reformada, criada, defendida e difundida pela Igreja Presbiteriana do Brasil. Como cristão, sempre acreditava e refutava a ideia que o crente tivesse depressão, e se quer poderia passar por uma experiência ou apresentar um quadro depressivo. Em primeiro lugar, pensava que a depressão não atingia uma pessoa que professe e tem a Cristo Jesus como Senhor e Salvador de sua vida. Em segundo lugar, acreditava que o reconhecimento da presença dessa doença em um crente demonstraria fraqueza ou falta de fé por parte de quem era acometido pela mesma. Diante dessa pré-concepção, passo a relatar minha experiência de vida quanto ao fato de eu, até então, rejeitar e negligenciar a possibilidade do crente vir a ter depressão e precisar pedir ajuda e buscar o tratamento médico, principalmente por ser pastor.

Antes de relatar o meu acometimento pela depressão, importa historiar um pouco sobre o que certamente deve ter contribuído para tal experiência. Em minha família, quando eu ainda era jovem, Jerônimo, meu pai, teve seu primeiro AVC. Depois de trinta dias, sofreu o segundo e, depois desse, após quarenta dias, veio a falecer. Semelhantemente ao que ocorreu com meu pai, um de meus irmãos teve seu primeiro AVC e, depois de trinta dias, sofreu o segundo, e após quarenta dias deste faleceu. Mediante esse histórico familiar, passo a relatar o que aconteceu comigo.

No dia em que comemorávamos o centenário do presbiterianismo no Estado do Espírito Santo, quando retornávamos de São José do Calçado, local em que se deram as comemorações, por volta da 19 horas, percebi que estava com princípio de AVC. Estávamos minha esposa, minha filha e eu de carona com meu genro, em seu carro ao volante. Por causa do ocorrido, fui levado direto ao Hospital da Unimed em Vitória-ES, onde os médicos diagnosticaram-me e constataram o que até então eu suspeitava. Fiquei internado por três dias, isto em 27 de setembro de 2003. Passados exatamente trinta dias, tive um enfarto, fui socorrido, internado e, depois de alguns dias, estava de volta em casa. Desse último ficou uma pequena sequela física, uma leve perda de alguns movimentos no lado direito de meu corpo, que com um tratamento fisioterápico consegui recuperar depois de algum tempo. Fisicamente estou normal. Uma pequena sequela que ficou em decorrência dessas experiências foi a psicoemocional, que me leva a continuar em tratamento e acompanhamento médico. Como exposto, por causa do AVC e do enfarto por mim sofridos, veio, como em um filme em minha mente, os fatos vividos por meu pai e irmão, anteriormente narrados, que culminaram no falecimento deles.

Com isso em mente, estou querendo dizer que os quarenta dias subsequentes ao enfarto foram para mim como a eternidade, difíceis de serem enfrentados. Passei por momentos, experiências e lutas interiores que só Deus é testemunha. Como disse anteriormente, até então, não aceitava que o crente, ainda mais um pastor, como eu, pudesse ter ou passar por depressão. Assim imergi em meus conflitos, passando a ter crises de melancolia, solidão e “dores” internas que me levaram a um quadro clínico de depressão, o qual não tinha outra saída a não ser o tratamento que faço até hoje. Depois do período de quarenta dias, permaneci e ainda estou vivo pela graça de Deus. Não aconteceu comigo o que ocorreu com meu pai e irmão. Assim, vou levando a vida como Deus quer.

Como pastor, seguindo as normas da Igreja Presbiteriana do Brasil, da qual faço parte, ao participar da primeira reunião ordinária do meu presbitério PRGU [Presbitério de Guarapari], concílio eclesiástico do qual todo pastor presbiteriano está filiado como membro, pedi licença para tratamento de saúde. Ao ser afastado das minhas funções de pastor, entrei em um profundo estado melancólico e depressivo. Mesmo assim, em 2004 realizei atividades pastorais na Igreja em que trabalhava, mas a situação foi tão terrível que passei um bom período sem ler a Bíblia, até mesmo com indisposição para ouvi-la quando fazíamos o culto diário em casa. Mas isso não abateu minha fé. Ao retornar minhas leituras, consegui completar, durante um ano, três vezes a leitura da Bíblia, isto é, lia 10 capítulos diários. Foi nesse período que encontrei várias personagens bíblicas que tiveram dias piores do que eu, como Jacó, José do Egito, Jó, os profetas Elias e Jeremias, o rei Davi e outros. E por que não dizer o próprio Cristo, que em certo momento da vida disse: “A minha alma está profundamente triste até a morte” (Mc 14: 13). Daí, entendi que os servos de Deus também passam por horas, dias, meses, até anos de depressão e por experiências que às vezes fogem de nossa limitada e medíocre compreensão.

Mas o mesmo Deus que permite tal situação é o que restaura. Pela graça de Deus estou bem, morando em uma chácara ao sul do meu estado, que tive a honra de adquirir com a ajuda de Deus. Hoje sou, honrosamente, pastor jubilado [aposentado], privilégio dado por Deus, que aconteceu em abril do corrente ano [2009]. Mas dou graças a meu Deus porque pude servi-lo durante trinta e oito anos em seu reino. Essa foi e é a minha experiência e, por fim, posso afirmar o que nos orienta as Escrituras: “Ebenézer, até aqui nos ajudou o Senhor” [sic]. Soli Deo Glória!

Ministro Presbiteriano – IPB

Segundo Princípio: A depressão deve ser compreendida em uma perspectiva bíblica holística: Quando o homem adoece seu corpo, sua mente e seu espírito também sofrem. Embora a teologia procure dividir o homem didaticamente em suas correntes teológicas em dicotomia e tricotomia (dicotomia: corpo e espírito; tricotomia: corpo, alma e espírito). Essa tentativa de classificação das instâncias do ser serve tão somente para propósitos didáticos. Os cristãos costumam dividir sua vida em departamentos: vida corporal, vida material, vida sexual, vida espiritual etc. Essa divisão existe apenas na imaginação daqueles que a utilizam e é antibíblica e imprópria para se compreender o estado de saúde de alguém. O homem deve ser visto como uma totalidade, na qual o todo é maior do que a soma das partes.

Depoimento 2

Sujeito M

Sexo: Feminino
Idade: 54 anos

Nível de escolaridade: Superior

Profissão: Secretária/escritora/administradora

M apresenta claramente indicio de sofrer de uma depressão reativa. Acredita que a sua depressão é produzida pela falta de suporte afetivo e estrutura familiar. “Vivia em uma busca intensa, estava perdida, e assim permaneci durante muitos anos. Além disso, tinha um tremendo complexo de inferioridade, era extremamente pessimista, e baixa autoestima, a ponto de me olhar no espelho e dizer que eu não valia nada, batendo em meu próprio rosto. Tive um pai violento e uma mãe amorosa que contrabalançeava as agressões – verbais – de meu pai. As agressões eram extensivas a todos os membros da família. Tínhamos uma família triste. Como consequência, tornei-me depressiva e meu irmão esquizofrênico.”

M diz ter sofrido de depressão dos 15 aos 35 anos. M afirma ter sido curada da depressão com o uso de remédios, o apoio dos amigos e aconselhamento espiritual. A psicoterapia foi determinante para conscientizar M da importância de permanecer no tratamento. “Já não aceito a ideia de que o cristão não deve tomar remédios. Os remédios são bênçãos que curam pessoas.” M fez psicoterapia com vários psicólogos. M destaca ainda a importância do apoio de amigos e da sua vida espiritual em seu processo de cura.

Por meio de amigos que me levaram a Cristo. Depois de passar pela religião católica, que em nada me ajudou. Porém, conheci um padre psicólogo que se tornou meu amigo, e que muito me ajudou, com ele falava de coisas que tinha vergonha de relatar aos meus mais fiéis amigos. Sim. Há ainda alguns episódios de depressão, mas bem mais leves do que eram antigamente. Com uma vida espiritual intensa e amigos fiéis e “curadores” que não me desampararam nos momentos difíceis foi que me curei. A vida espiritual foi absolutamente essencial, e essa vida cultivo até hoje, e sei que não poderei viver sem ela, assim como cultivo amizades que são preciosíssimas, das quais não abro mão. Hoje meus pais são falecidos, escrevi um livro sobre minha vida, no qual transmito uma mensagem de esperança cristã. Tive câncer – de mama – aos 46 anos e estou curada. Foi também a vida espiritual fundamental para a minha recuperação e, mais uma vez, os amigos. Quero dizer que os amigos em questão são cristãos que me ajudaram a levantar, além do grande amor que a minha mãe me dedicou. Em meu livro – que é meu grande depoimento – descrevo toda a minha trajetória de busca. Fui deprimida, mas sempre busquei sair daquela vida. Foi um caminho muito difícil, mas encontrei o que procurava [sic].

Terceiro Princípio: Nada nos pode separar do amor de Deus. A Bíblia diz em Rm 8: 38-39: “Porque estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nem anjos, nem principados, nem coisas presentes, nem futuras, nem potestades, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor”. O amor incondicional de Deus consiste no fundamento para o acolhimento do deprimido. “Deus é amor” (1Jo 4: 12). Deus ama porque é da sua natureza amar. Seu amor é eterno (Jr 31), imutável (8: 38-39) e incondicional (Is 49: 1) e sacrificial (Jo 3: 16). Deus ama o cristão saudável e o doente. Ama aquele que se encontra em bom estado de saúde e ama especialmente o deprimido. Deus compreende o estado depressivo melhor do que ninguém. Ao longo da história da salvação, seus filhos mais queridos ficaram deprimidos. Basta ler as histórias de Davi, Jeremias, Daniel, Jonas, Ezequiel, Elias etc. para comprovar essa afirmação.

Depoimento 3

Sujeito N

Sexo: Feminino

Idade: 34

Nível de escolaridade: Mestrado

Profissão: Professor

Descrição da depressão: Durante cinco anos, esperei uma promessa que Deus havia me dado e, a cada ano esperado, Deus sempre me mostrou como as coisas seriam e como parte delas aconteceriam. Então, segui por muito tempo nessa promessa e guardando cada detalhe do que Deus me mostrava, a respeito da chegada do meu futuro namorado. E quando os anos foram se findando, Deus foi levantando pessoas para me confirmar aquilo que Ele já havia me mostrado. Finalmente em 2005, eu o conheci, mas só vim a namorá-lo em 2006, em abril daquele ano, foi tudo como Deus havia me mostrado, durante os longos anos de espera. A conversa com ele, a casa onde ele morava, tudo era exato em detalhes. Eu tinha certeza que era ele quem Deus tinha mostrado e escolhido para mim, e sempre falávamos em nos casar, e seguíamos nosso ministério juntos, tudo como um sonho realizado. Mas, depois de um tempo, nossas famílias começaram uma luta contra a nossa união, pessoas começaram a cobiçá-lo, nosso namoro começou a ruir. Por influência de pessoas diversas, ele mudou de casa e foi morar na igreja com a família, e lá, em meio a tantas coisas e opiniões, ele se perdeu, e tudo entre nós começou a acabar. Ruiu o ministério onde trabalhávamos juntos, ele arranjou outra pessoa para namorar. Fui arrancada do meu ministério de três anos e meio para dar lugar e espaço a outra, para que os dois pudessem casar e seguir o ministério, no meu lugar, depois de lutar tanto. Fui jogada para outro lugar para continuar o ministério, e me enviaram, contra a minha vontade, para um psicólogo. Aquilo foi o fim, dentro de mim. Eu só pensava em pôr fim em minha vida. Estava certa disto. Era mais forte do que eu podia suportar. Estava decidida a me jogar da ponte por onde eu sempre passava. Mas algo sempre me segurava, quando ia em direção disso. Cada vez que eu os via, meu lembrava de que esperei durante cinco anos, e agora ele estava nas mãos de outra! Eu não dormia, não comia, andava muito a procura de respostas, não suportava falar com ninguém, e só conseguia ficar deitada no escuro olhando para o céu, sempre me perguntando por que Deus tinha me deixado entrar naquela situação, se eu tinha seguido tudo como ele mandou! Eu odiava, a cada segundo, a humilhação da psicóloga. Não respondia nada a ela e, quando tentava falar para ela as coisas que Deus me mostrava, ela dizia absurdos. E aquilo foi me consumindo além das minhas forças, e comecei a fazer imensos jejuns e orações para que Deus respondesse a toda a minha humilhação. Passava cinco dias sem comer nada, só ingerindo líquidos. Não tinha fome alguma, só uma enorme dor e um vazio, e ninguém podia me ajudar. Para piorar a situação, escutava absurdos da minha igreja, na qual perguntavam como era possível colocar uma doente para cuidar de ministérios. Apesar de toda minha dor, nunca falhei no meu ministério, pois esse nada tinha relação com meus problemas. Lutei com as sobras de força que restavam em mim para que o ministério prevalecesse, pois era para Deus.

Então, quando chegou o final de 2006, contemplei algo que talvez pudesse me ajudar a esquecer a dor que eu sentia. Orei a Deus para entrar no Mestrado, e que ali fosse a minha cura do que eu já não mais suportava, por tantas perdas e acusações de coisas que eu não fiz, mas que só Deus podia fazer, e falar. Então fiz as provas do Mestrado e Deus, por um milagre, ajudou-me a entrar, e a cada aula que eu assistia Deus falava por meio daquelas aulas na minha vida. Eu chorava escondida a cada aula, mas a cada uma delas Deus ia me ajudando a vencer um pouco a cada dia, pois eu não conseguia mais pensar e nem viver, mas entrar ali era o que me ajudava a voltar a viver de novo, e ver que, embora Deus não tenha me respondido o que tanto precisava saber, de uma coisa eu sabia: o que Ele havia prometido Ele cumpriu. Mesmo quando aquela promessa um dia se voltou a Ele e disse que [eu] não era aquilo que ele queria mais, e por isso ele estava devolvendo a Deus, jogando fora o presente que ele falava que eu era!!! Foi muito duro, mas eu sei que “Aquele que começou a boa obra era fiel para cumprir até o fim sua promessa”, e cumpriu. Meu mestrado acabou também por um milagre, pois a cada instante a dor tomava outras proporções em mim, mas tive um excelente professor e orientador, segundo o coração de Deus, e consegui concluir, não só o mestrado, mas parte da minha dor. No ano da minha entrega final da dissertação, tive outras perdas: meu ministério inteiro, a dor que havia diminuído voltou, pois não era só a perda de um ministério de 10 anos, era a certeza de que nunca mais o veria de novo. Não tive ajuda. O que me fez lutar foram as palavras do meu professor: você passou! E eu entendi também que a dor deveria ser esquecida e apagada para sempre: e assim segui! E selei com a frase: “Que aquele que começou a boa obra é fiel para cumprir até o fim”.

A depressão teve uma causa, qual? A perda da promessa de Deus, meu ex-namorado.

Quanto tempo durou? 4 anos.

Como se deu a recuperação? Fazendo meu curso de mestrado.

Tratamento médico psiquiátrico? Não.

Tomou remédios? Não.

Fez psicoterapia? Não.

Como se deu a intervenção divina? Por meio do meu curso de mestrado.

Houve cura? Como? Não me sinto curada totalmente, mas consigo olhar para vida um pouco mais, sem revoltas, e com a certeza de que o melhor de Deus virá de novo, como Ele quiser e se Ele quiser, em tudo.

Quarto Princípio: A graça de Deus como base para a saúde humana e uma possível superação da depressão. No Novo Testamento, temos duas palavras para graça: “dom” e “káris”. Nos dois casos, o sentido é o mesmo: presente. A teologia calvinista define graça como um favor imerecido de Deus. A graça de Deus é o presente de Deus para o seu povo. E tal presente é Jesus Cristo e tudo o que sua pessoa e sua obra representam. Dizendo de outro modo, é o trabalho de Deus pelo seu povo: “Porque antiguidade não se ouviu, nem com ouvidos se percebeu, nem com os olhos se viu um Deus além de ti, que trabalha para aquele que nele espera” (Is 64: 4). A graça é tudo aquilo que Deus já realizou, tudo o que esta fazendo, e tudo o que ele ainda fará pelo seu povo. A graça, portanto, é tudo que Deus já fez (SPURGEON, 2003).

A graça pode ser compreendida de duas maneiras. A graça comum manifestada pela revelação natural e que alcança a todos os homens, conforme ensinou Jesus Cristo no Sermão do Monte: “Para que vos torneis filhos do vosso Pai que está nos céus; porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e faz chover sobre justos e injustos” (Mt 5: 45). E a graça especial, aquela conhecida por todos aqueles que se tornaram filhos de Deus por meio de Cristo Jesus (Ef 2: 1-10 e 1Jo 5: 1-5).

Deus utiliza-se da graça comum por meio da natureza, de todos os elementos do cosmo, de todos os homens: médicos, curandeiros, psicólogos, xamãs, conselheiros, pastores etc. Já a graça especial de Deus é aquela que opera pelo Espírito Santo no coração do filho de Deus, conforme Ef 2:1. A graça comum e especial de Deus cobre todos os pecados, todas as enfermidades, todos os problemas humanos e opera em todos os homens e mulheres, em todas as circunstâncias e situações da vida: depressão, angústia, medo, síndrome do pânico, tendências suicidas, perdas etc (Rm 8: 26-30):

Também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza; porque não sabemos orar como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós sobremaneira, com gemidos inexprimíveis. E aquele que sonda os corações sabe qual é a mente do Espírito, porque segundo a vontade de Deus é que ele intercede pelos santos. Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou.

Quinto Princípio: O perdão incondicional de Deus como suporte para a mente do deprimido. O imaginário cristão cunhou a seguinte parábola –

O cristão procurou viver piedosamente, mas como todo ser humano, não conseguiu. Morreu e no dia do Juízo Final foi chamado diante do Criador, compareceu perante o julgamento do Juiz, do Grande Trono Branco (Ap 20: 11-15). Lá estava Deus, o grande e justo Juiz. Lá estava o acusador dos irmãos fazendo o papel de promotor e o Advogado do cristão, Jesus Cristo (1Jo 2: 1), para fazer a sua defesa. Deu-se início ao julgamento do cristão.

O promotor relatou, um a um, todos os pecados cometidos pelo discípulo de Jesus, inclusive suas promessas de santificação e seus fracassos, suas alianças com Deus e sua incapacidade de cumpri-las, suas omissões, suas negligências e suas fraquezas. E exigiu o cumprimento da justiça, expressa em Ez 18: 4: “A alma que pecar, esta morrerá”, completando com a exigência de Rm 6:23 “O salário do pecado é a morte”. O advogado do cristão pediu a palavra:

– O acusador, o promotor, está correto ao exigir a justiça, contudo quero lembrar que eu cumpri toda a justiça divina quando ofereci a minha vida para o resgate do pecador (Rm 1: 17; 2Co 5: 21). A punição que deve ser imposta ao cristão já me foi atribuída, resta para ele apenas receber a Graça da justificação, que traz o perdão e o alívio para a sua culpa. [“Eu sou o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” – Jo 1: 29]. Fez-se um grande silêncio no céu. O juiz perguntou ao cristão:

– E o que tens para apresentar em tua defesa?

O cristão refletiu um pouco e respondeu:

– Eu cri em Jesus Cristo e fui justificado pela sua pessoa, sua vida e suas obras (Rm 5: 1).

Novamente fez-se um grande silêncio e todos apuraram os ouvidos para ouvir a sentença do Grande Juiz, que assim determinou:

Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8: 1), estais, pois, justificado e perdoados! Deus em Cristo Jesus já perdoou todos os pecados cometidos pelo cristão: perdoou os pecados passados, perdoou os pecados os presentes e até os pecados futuros já foram perdoados. (Is 53: 4-6).

Sexto Princípio: Saúde e qualidade de vida como resultado da comunhão com Deus e da caminhada com o seu povo. Para ajudar quem sofre de depressão a reencontrar a confiança em si próprio e a não ficar passivo, amigos e familiares podem pôr em prática algumas regras (DEUS, 2008, p. 89). Ao notar que uma pessoa querida tem qualquer problema, é necessário falar com ela para que tente descrever o seu estado de alma. Após ter determinado que se trata de um problema sério e não se consiste apenas de estresse ou fadiga passageiras, é preciso convencê-la a consultar um especialista. Feito o diagnóstico de depressão, é importante fazer compreender ao doente que os medicamentos não têm um efeito imediato, mas que é preciso esperar pelo menos 2 ou 3 semanas até se obterem os primeiros benefícios. É, sobretudo, necessário encorajá-lo a não abandonar o tratamento devido ao desconforto eventualmente provocado. Colaborar com o médico para o êxito da terapêutica pode ser útil. De fato, frequentemente, o doente não tem sequer a capacidade de concentração necessária para seguir as suas indicações. É preciso ter paciência com o doente e compreender que o seu comportamento não é voluntário. É conveniente estimulá-lo a não permanecer inativo, a cultivar interesses, mesmo que não se mostre entusiasmado.

É importante possibilitar atividades construtivas para o deprimido realizar sozinho: andar a pé; dar um passeio; ir a um espetáculo; ir a um parque; ir a um museu; assistir a um acontecimento desportivo; praticar desporto; correr; ir a uma conferência; fazer uma viagem; ir a uma festa; ir a uma manifestação; comprar qualquer coisa para si próprio; falar sozinho; cantarolar; projetar; programar qualquer coisa; jogar paciência, um puzzle, palavras cruzadas; ocupar-se de animais; fotografar; filmar; refletir, pensar, meditar; contemplar; rezar; estudar; tocar um instrumento; colecionar qualquer coisa; tratar do próprio corpo; relaxar.

Também, atividades construtivas para o deprimido realizar acompanhado: estar com amigos; brincar com os filhos; estar com as crianças da família; trocar carinhos; travar novos conhecimentos; desenvolver uma atividade política; desenvolver uma atividade de voluntariado; jogar cartas, damas, xadrez; comer, beber; participar de cerimônias; criticar, elogiar alguém; dar a sua própria ajuda; dar um conselho; discutir, conversar, falar; cantar em coro, recitar; dar um presente; visitar um amigo enfermo; participar das atividades comunitárias da Igreja ou da sua religião etc.

O primeiro método natural é a prática de exercícios físicos. O exercício físico libera endorfina, que por sua vez tem importância no aumento da biodisponibilidade da serotonina. Aqui, entretanto, há uma dificuldade adicional: um deprimido não tem vontade ou energia nem para as pequenas coisas ou atividades; não é possível, portanto, cobrar do paciente atividades físicas no início do tratamento. É necessário esperar por uma melhora e, então, é possível começar a incentivá-lo. O sol é bastante benéfico, pois age no organismo estimulando a liberação de hormônios como os produzidos pela suprarrenal [que serão importantes para os mediadores químicos cerebrais] e até substâncias específicas como a melatonina, importantes neuro-hormônios liberados ao anoitecer pela glândula pineal. A melatonina age como um “antidepressivo” natural e é importante na regularização do sono, além de possuir propriedades imunológicas.

Sétimo princípio: O acolhimento familiar e comunitário. A depressão tem implicações morais. O deprimido pode não se sentir doente, sente-se, todavia mal consigo mesmo, com Deus e com o próximo. No caso do cristão, essa situação é mais complexa. Além de se sentir deprimido, permanece aquela sensação de que todo o seu esquema espiritual fracassou. Contudo, o sentimento de fracasso afetivo, físico, mental e espiritual é um dos principais sintomas da depressão. É falta de serotonina no cérebro, só isso! 3 Depressão pode ter causas espirituais, contudo é bom registrar que não é só isso. Julgar o deprimido como um fracassado espiritual agrava o quadro dele, aumentando a sua dor. Fica ainda pior quando outros cristãos cobram-lhe uma atitude frente ao sofrimento. A cobrança aumenta o sentimento de fracasso e de impotência frente à dor. Por mais que o cristão saiba quais são as causas de sua depressão seja ela química, traumática, sistêmica, neurológica, ou até genética isso não resolve o problema central: o sofrimento que se alimenta do sofrimento e gera mais sofrimento.

A depressão mina o organismo como um todo. Baixa a resistência do sujeito e gera uma gama de pequenas enfermidades, que vão desde a prisão de ventre, até algo mais grave, como uma pneumonia ou mesmo um câncer.  A questão primordial é como lidar com a depressão. Lidar com a questão de frente é o que mais ajuda. O deprimido deve acolher a sua própria dor. Sem autocomiseração, sem pena de si mesmo. Tem de amar a sua dor sem alimentá-la. Só que ter dó de si mesmo é outro sintoma forte da depressão! E é normal que seja assim. A dor, no entanto, deve ser acolhida com tranquilidade. O deprimido precisa de espaço para chorar. Por outro lado, precisa ser tratado como uma pessoa normal. Está doente, mas não inválido.

A depressão é uma doença dos afetos e das emoções; contudo, a vontade do deprimido permanece sã. Sua vontade continua livre diante de Deus, de si mesmo e dos homens. A liberdade da vontade abre caminho para buscar ajuda e, quem sabe, perseverar. Ora, mesmo sabendo de todas essas variáveis que acomete a todos os deprimidos, independentemente da causa da depressão, segue abaixo uma sugestão de estratégia para o acolhimento do deprimido e enfretamento da depressão:

1. Faça de qualquer depressão um bem. Não alimente a associação entre o estado de depressão a qualquer forma de culpa moral. E, caso tenha havido culpa real no nascedouro do estado depressivo, receba o perdão de Jesus Cristo (Jo 2: 1-10).

2. Brinque com a depressão. Se puder zombe especialmente daqueles pensamentos que o deprimem. O deprimido desenvolve a tendência de considerar seus pensamentos poderosos, mágicos mesmo. Pensamentos são apenas pensamentos, eles não têm tanto poder como o deprimido imagina.

3. Depressão é morte. Cristo chama a vida para renascer da morte. A vida de Cristo nasceu da morte! Ou seja: se a depressão permanecer, já não será como tristeza para a morte, que é fruto da culpa; mas sim como tristeza para a vida, e que fará melhor e mais doce o coração. (Is 53).

4. Não mime a depressão. Não se fixe na depressão. Deixe que ela se vire sozinha. Dar atenção à depressão é como agasalhar uma serpente enregelada debaixo do casaco. O calor do corpo vai aquecê-la e fortalecê-la e ela irá mordê-lo em primeiro lugar. Portanto, não a negue, mas não a sente no trono de seu ser como senhora de seus sentimentos. Você não é o único deprimido no mundo. Somente no Brasil são mais de 10% da população. Sinta-se unido a todos os deprimidos do mundo. Sinta-se pertencente a essa comunidade, isso diminuirá a sensação de isolamento própria do deprimido.

5. Seja autêntico. Procure conhecer a si mesmo. Respeite seus limites. Busque a natureza, o ar livre, a praia, a piscina, o sol, o pé no chão, a grama, a terra, as fontes de água, as atividades físicas, o toque, o amor, o sexo saudável, a companhia de amigos, os papos diferentes e, sobretudo, descanse no amor de Deus. Sei que uma pessoa deprimida quer se prender dentro do quarto, fechar a janela e se enterrar na escuridão, noite e dia, mas há vida lá fora esperando para acontecer!

6. Não fique com pena de si mesmo. Depressão ama auto-piedade. Olhe para a depressão como um estado criativo, e não como algo paralisante. A depressão consome uma grande quantidade de energia. Logo, ela concentra uma grande quantidade de energia. Use a energia a seu favor, da depressão para viver.

7. Ninguém dá adeus com alegria, nem à própria tristeza. Leia os Salmos, medite sobre Eclesiastes. Este foi escrito por um deprimido e aquele por vários. Na força da fé, você pode encontrar forças para dar adeus às tristezas. Não se apegue ao sofrimento como se fosse o maior bem da sua vida. Não se utilize do sofrimento para alcançar afeto de outrem. O máximo que você irá conseguir é piedade!

8. Quando estiver deprimido, ore. Deus jamais rejeitou as orações de um coração partido! E observe que a alegria e a tristeza têm o mesmo poder: gerar orações. A alegria produz ações de graça, e a depressão produz a expansão da comunhão com Deus, produzindo verdadeiras orações viscerais. As orações do deprimido são como gemidos de dor (Rm 8) . Se a depressão não passar, crie uma rotina. Comece seu dia lendo a Bíblia! A Palavra de Deus tem força para alimentar o seu coração! Nela você encontrará relatos existenciais de pessoas deprimidas como você.

9. Não encare a depressão como doença mental. Ser deprimido não é ser louco. Loucura é não se tratar! Pelo CID-10, Classificação Universal das Doenças Mentais da Organização Mundial de Saúde, o deprimido sofre apenas de transtornos de humor.

10. Tome os remédios próprios sem culpa e sem julgamento moral e espiritual acerca do estado para o qual eles são receitados.  Aprender a lidar com a depressão é um exercício de sabedoria espiritual, especialmente para quem vive massacrado pelos “demônios” da urbanidade e da chamada vida pós-moderna.

11. Use a depressão. Não a deixe usar você.  Você deve saber, no entanto, que quem tem depressão de natureza química ou neurológica deverá tomar medicação com o mesmo carinho e simplicidade prática com a qual um diabético toma insulina. Muitas vezes, quando se detecta quais são os elementos químicos que estão faltando no cérebro, e se faz suplementação deles por via médica, as depressões vão desaparecendo à medida que a química orgânica vai se reequilibrando com a medicação apropriada. Tenho visto pessoas que sofriam de depressão crônica por décadas ficarem completamente boas de seus desconfortos, apenas fazendo reposição de elementos químicos que faltavam no corpo.

T é uma senhora de 63 anos de idade. Relata que ficou deprimida aos 40, quando teve seu filho. Uma típica depressão puerperal agravada pela morte abrupta do pai. T nunca tratou de depressão. Afirma que a depressão arruinou a sua vida pessoal e profissional. O casamento e a carreira acabaram com a depressão. T vive na mais absoluta solidão. Solidão esta imposta pela depressão. T passa a fazer sessão de psicoterapia. Depois de muita resistência T aceita visitar um psiquiatra. Seis meses depois T, está outra mulher. Renasceu das cinzas segundo ela. Recuperou a alegria de viver. Reaprendeu a sorrir. T lamenta ter ficado tanto tempo sem tratamento. Ela mostra-se confiante e resolve permanecer mais tempo no tratamento.

Depoimento 4

Sexo: Masculino

Idade: 63

Nível de escolaridade: Pós-graduado

Profissão: engenheiro

Descrição da depressão: Típica – apatia, desinteresse, dificuldade de concentração, cansaço, dores nos ossos, excesso de sono e insônia, tristeza, medo, falta de iniciativa.

A depressão teve uma causa, qual? Aparentemente foi a falta de sono, decorrente de insônia que sempre tive.

Quanto tempo durou? Ela é recidiva. Creio que convivo com ela desde os 14 anos. A cada quatro anos, sofro um episódio. Procurei ajuda apenas em 1995 (com 49 anos), quando o clínico geral diagnosticou a doença e recomendou ajuda psiquiátrica.

Como se deu a recuperação?

Tratamento médico psiquiátrico? Sim. E a cada quatro anos preciso de tratamento.

Tomou remédios? Sim.

Fez psicoterapia? Não.

Como se deu a intervenção divina? Eu não me suicidei porque tinha fé. Embora sofresse muito e não entendesse o que estava acontecendo comigo, confiava no meu Deus e sabia que Ele não me abandonaria.

Houve cura? Como? Com o tratamento.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A depressão pode ser considerada o mal do século XXI. A cada dia, cada vez mais pessoas são acometidas de depressão e, ou episódios depressivos. O consumo de antidepressivos no Brasil é um dos maiores do mundo. No universo religioso, e especialmente no mundo cristão, a depressão é representada socialmente como um problema de natureza espiritual à semelhança da medicina primitiva. Isso pode criar um problema a mais para o deprimido, seja no retardamento da busca de tratamento, seja na compreensão da própria enfermidade, compreensão essa essencial para o processo de cura.

As pesquisas sobre depressão no contexto da religião ainda são escassas no Brasil. Este trabalho busca contribuir para diminuir essa lacuna, haja visto, que cada vez mais os quadros depressivos e aspectos próprios da experiência religiosa encontram-se intimamente relacionados e, por vezes, são confundidos tanto pelos religiosos quanto por alguns profissionais da medicina e da psicologia. Tal confusão pode ser potencializada quando o profissional de saúde comunga da mesma fé religiosa que o seu paciente. Não raro, esse profissional também pode cair na armadilha de espiritualização da enfermidade, atualmente tão comum nos meios religiosos.

A patologização da depressão e mesmo da experiência religiosa não nos parece um bom caminho, ou um caminho de bom senso para tratar dessa questão. A relação entre doença mental e experiência religiosa foi trabalhada por Carl Gustav Jung e abriu a possibilidade de um diagnóstico diferencial entre saúde mental e vivências puramente espirituais. É nessa direção que trabalhamos, é isso que procuramos desenvolver e apresentamos nesta pesquisa. Jung demonstrou ainda que a doença mental e a experiência religiosa apresentam rituais e práticas muito semelhantes na sua evolução, especialmente naqueles casos da esquizofrenia. Essa proposição de Jung foi demonstrada pelas pesquisas de Nise da Silveira com mais de uma centena de pacientes em mais de quatro décadas, e hoje se encontram no acervo do Museu das Imagens do Inconsciente no Hospital Pedro II (JUNG, 1986; SILVEIRA, 1981).

No Mundo Antigo, na Mesopotâmia, a doença mental foi inicialmente considerada como resultado da ação da magia sobre o espírito e o corpo do sujeito. Mais tarde, essa concepção evoluiu e a doença mental passou a ser imputada à ação de espíritos malignos e demônios. O judaísmo e o cristianismo produziram uma transformação no conceito de doença mental e essa foi imputada ao pecado e a culpa. A moderna psiquiatria e a psicologia há cerca de duzentos anos considerava a doença mental como resultado de disfunções no cérebro e mais recentemente, tais disfunções foram substituídas pela concepção neuropsicológica. A etiologia da doença mental atualmente é atribuída a problemas ocorridos nas reações bioquímicas dos mediadores químicas nas sinapses dos neurônios.

Este trabalho propõe que a depressão seja tratada de forma holística. Todo o conhecimento que o paciente traz sobre sua doença é relevante para o seu tratamento. Mesmo aquele conhecimento que o psiquiatra e o psicólogo muitas vezes consideram primitivo, como a concepção religiosa da depressão. Todos os fatores envolvidos na depressão devem ser considerados. Assim, um tratamento eficaz não prescinde da ação do guia espiritual, como não pode abrir mão da medicina neurológica e psiquiátrica, e nem dos conhecimentos psicológicos de um bom psicoterapeuta ou analista.

Jung postula que a doença mental é a melhor condição da mente humana diante da realidade. A mente adoece para preservar sua própria psique, e sobreviver. Depressão está ligada à repressão em seus aspetos regenerativos e enriquecedores. A energia psíquica volta-se para o próprio indivíduo em um processo forçado de introversão. A energia introjetada fica represada e precisa ser consumida no sofrimento, na dor, na angústia.

Este pesquisador tem consciência de que alguns aspectos do texto precisam ser aprofundados e comprovados empiricamente. Essas comprovações podem ser levadas a cabo por outros pesquisadores, que poderão inclusive explicitar melhor as relações entre religião e depressão e mesmo esclarecer aspectos ligados à fase de mania dos transtornos bipolares, que foram deixados de lado neste texto.

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1 http://www.pfizer.pt/saude/nerv_dep_curas.php, acessado em 30 de Janeiro de 2009.

2 Anotações dos fragmentos de uma análise usadas com o consentimento do sujeito.

Antonio Maspoli
Antonio Maspoli
Sou Antonio Maspoli, cidadão do mundo, Teólogo e Psicólogo. Deus é a minha herança pessoal, meu caso de amor! Deus encantou-me com o a sua presença. E abriu-me as porta do conhecimento do numinoso: "Eu cri, por isso compreendi" (Agostinho). Desde então dediquei a minha vida a conhecer a Deus. E a minha existência a compreender a natureza humana.

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