Educação Protestante Presbiteriana: do pragmatismo ao calvinismo, um longo caminho.

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Presbyterian confessional education: the long road from protestant pragmatism to the calvinism

 

Antonio Maspoli de Araujo Gomes[1]

 

RESUMO:

 

O sistema Mackenzie de Ensino surge em 1870, com o nascimento da Escola Americana, uma instituição paroquial, calvinista confessional. A confessionalidade, contudo, é implantada somente pela reforma dos Estatutos da Universidade, em 1999, quando o nome Universidade Mackenzie é mudado para Universidade Presbiteriana Mackenzie. A partir da análise da literatura, os objetivos deste artigo são: a) inventariar as raízes históricas da educação protestante presbiteriana; b) analisar o processo de transformação recente da educação presbiteriana, na Universidade Presbiteriana Mackenzie, de educação pragmática para educação confessional. O método de pesquisa utilizado é o histórico crítico combinado com princípios da observação participante.

PALAVRAS-CHAVE: Confessionalidade. Educação Presbiteriana. Sistema Mackenzie de Ensino. Calvinismo. Educação Protestante.

 

ABSTRACT:

 

The Mackenzie teaching system was created in 1870 with the birth of what was at the time named American School. The American School was a private, confessional Christian Calvinist institution. Its confessionalism, however, was only established at the university level in 1999 with the changes made to the general statute of the university when the name of the university was changed to Universidade Presbiteriana Mackenzie (Mackenzie Presbyterian University). According to the literature review, the objectives of this article are: a) listing the the historical roots of the Protestant Presbyterian education and b) analyzing the recent transformation at Mackenzie Presbyterian University from a pragmatic education to a confessional education system. The research method used is critical historical combined with principles of participant observation.

KEYWORDS: Confessionalism. Presbyterian Education. Mackenzie Education System. Calvinism. Protestant Education.

 

 

Estudos sobre a educação protestante no Brasil

A educacional dos protestantes presbiterianos, no Brasil, foi ventilada, de uma forma ou de outra, por todos aqueles autores que se ocuparam da história do protestantismo. Nessas obras, a educação protestante aparece mais como pano de fundo dos fatos sociais relacionados à importação da denominação presbiteriana, do que como seu objeto central de pesquisa e discussão.

O estudo sobre a educação protestante iniciou-se com autores de língua inglesa. Dentre estes, destacam-se: Paul Andress (195l), An Educacional Approach to the Work of the Protestant Church in Latin America; Jerry S. Key (1965), The Rise and Development of Baptist Theological Education in Brazil, 1881 – 1963: A Historical and Interpretative Survey; Lory C. Sisk (1974), The History of Agnes Erskine College in Brazil, 1904 – 1970.

No Brasil, os estudos sobre a educação protestante presbiteriana são relativamente recentes. Hélio Oscar Moraes Garcia (1968) narra o episódio de estatização do Mackenzie pelo governador Laudo Natel. Uma história oficial do Colégio Protestante, célula máter da Escola Americana e do Mackenzie College, 1952, foi contada por Benedito Novaes Garcez (1970). Jether Pereira Ramalho (1976) realizou uma pesquisa sobre as várias denominações protestantes (metodistas, presbiterianos, batistas etc.) ao sistema educacional brasileiro. Maria Lucia Barbanti (1977) avalia a influência da educação protestante na província de São Paulo. Uma tese de doutorado sobre os aspectos históricos e culturais da educação presbiteriana foi defendida por Osvaldo Henrique Hack (1985). Yone Quartin (1995) destaca, em sua pesquisa, a participação do Mackenzie na Revolução Constitucionalista de 1932. O historiador M. Albino (1996) inventaria a educação protestante no  Colégio Internacional, um colégio confederado, para a educação em Campinas e região.

Antonio Maspoli de Araujo Gomes (2000) analisa a cooperação  do espírito protestante presbiteriano para a constituição do Mackenzie College e a formação da mentalidade empresarial de São Paulo. Marcel Mendes (1999) apresenta a história do Mackenzie College, especialmente da Escola de Engenharia. Roque Theophilo Júnior (2002) retrata os principais documentos históricos do Mackenzie. Osvaldo Henrique Hack (2003) examina as raízes históricas da confessionalidade do Mackenzie. Marcel Mendes (2005) avalia também aspectos recentes da Universidade Presbiteriana Mackenzie, até 1973, em suas relações com a política e a sociedade brasileira. Marcel Mendes et al. (2013) narram a história do Mackenzie desde as suas origens até a atualidade. Bendito Aguiar Neto e Reynaldo Cavalheiro Marcondes (2014) estudam a Universidade Presbiteriana Mackenzie, no contexto dos desafios enfrentados pela universidade contemporânea.

Os autores que pesquisaram a educação presbiteriana, no Brasil, relacionam em suas teses as escolas protestantes ao projeto missionário presbiteriano de evangelização das massas. Este pesquisador, todavia, considera que a educação presbiteriana foi condicionada também por outros fatores, tais como: a) O projeto educacional missionário, presbiteriano, norte-americano, em São Paulo, não pode ser dissociado do próprio projeto norte-americano de expansão: o destino manifesto de meados do século XIX (GOMES, 2000). b) O Colégio Protestante fundado na cidade São Paulo nasce inicialmente vinculado à igreja e ao idealismo missionário-presbiteriano de evangelização do Brasil; e, posteriormente, após a sua vinculação ao complexo denominado Universidade do Estado de Nova York, sob a direção do comerciante, médico e educador Horace Lane, assumiu uma postura pragmática, própria da sociedade norte-americana, tendo-se voltado para a formação da mentalidade empresarial de São Paulo (GOMES, 2000).  c) Nos primórdios, o  relativo sucesso das escolas presbiterianas em São Paulo deveu-se mais ao pragmatismo de alguns educadores presbiterianos do que ao impulso evangelístico dessas escolas; tal pragmatismo atraiu republicanos, imigrantes judeus, ingleses, italianos e norte-americanos e negociantes da sociedade paulista, especialmente por meio da Escola Normal, Escola de Comércio e Escola de Engenharia. Das mais de sessenta escolas presbiterianas fundadas na segunda metade do século XIX, por missionários norte-americanos, no Sudeste, apenas o Mackenzie sobreviveu (CORREA, 1980). d) A confessionalidade calvinista presbiteriana, a cosmovisão educacional presbiteriana nasce junto com o Colégio Protestante, atual Colégio Mackenzie, mas a confessionalidade na Universidade Presbiteriana permaneceu inconsciente e implícita até meados do século XX, portanto a confessionalidade  explicita da Universidade  é de constituição recente, datando de 1999 (HACK, 2003).

A partir da análise da literatura, os objetivos desta pesquisa são: a) inventariar as raízes histórico-teológicas da educação protestante presbiteriana; b) analisar o processo de transformação recente da educação presbiteriana, na Universidade Presbiteriana Mackenzie, de educação pragmática para educação confessional.     

A pesquisa utilizou-se do método misto: método histórico e o método da observação participante. O método histórico, também chamado de método crítico ou crítica histórica, compreende duas operações a saber: análise e síntese. A análise compreende, por sua vez, quatro operações: a heurística, as críticas interna e externa, e a hermenêutica.A observação participante, adotada pelos antropólogos e também por médicos e psicólogos, consiste em uma participação efetiva na vida e nas atividades dos sujeitos a serem observados, em sua vida cotidiana. É, antes de tudo, uma aprendizagem e um modo de trabalho. Nesse processo, o observador é sujeito e objeto da pesquisa, juntamente com aquele a quem ele observa (MALINOWSKI, 1997).

Raízes históricas da educação presbiteriana no Brasil

A influência da Reforma do século XVI sobre a educação é inegável. Esse movimento religioso será um dos fatores importantes na ascensão de uma cultura escrita, no mundo ocidental, após a descoberta da imprensa. A igreja reformada vai definir a religião a partir de uma relação íntima e pessoal com Deus, e essa comunhão com o sagrado se dará pela mediação do texto bíblico, isto é, por intermédio do contato do cristão com os textos da Bíblia. A Bíblia é elevada pela Reforma protestante à categoria de revelação especial, a palavra de Deus, a única regra de fé e prática. Desde a Reforma protestante, no ato de batismo, os calvinistas prometem ao oficiante ensinar seu filho a ler e escrever, para que, adultos, leiam e compreendam a Bíblia (ANDERSON et alii, 1953). Já no XVI século,  em Genebra Calvino fazia os calvinistas prometerem ensinar aos seus filhos pequenos  a ler e a escrever para entender a Palavra de Deus quando crescidos(BIÉLER, 1990).

Lutero mesmo empenhou a sua vida na tradução da Bíblia para a língua alemã, a fim de colocar a Bíblia nas mãos do povo. Pouco ou nada adiantava colocar a Bíblia nas mãos de um povo analfabeto, mesmo com a vulgarização dos textos escritos pela invenção da imprensa. A evangelização dos povos, imperativo da igreja reformada, não seria levada adiante sem uma estratégia de alfabetização dos leigos e educação do clero (BRENTANO, 1968).

As tendências para a Reforma se tinham notado por muitos anos, mas podemos afirmar que a Reforma nasceu em 31 de outubro de 1517, quando Martinho Lutero (1483-1546) afixou as suas 95 teses à porta da Igreja de Todos os Santos, na cidade de Wittemberg. Da Alemanha rapidamente a Reforma se espalhou para outros países da Europa, como França, Inglaterra, Suíça etc. Na Suíça, chega pela eloquência de Ulrich Zuínglio (1484-1531). A Suíça, ávida pela sua independência, apoiou Zuínglio. Assim como na Alemanha, também na Suíça, na França, na Holanda e na Escócia, os reformadores promoveram a educação pelo trinômio: lar –  igreja-escola (IRWIN, 1947).

A Reforma Religiosa do século XVI teve em João Calvino um dos seus importantes teólogos. A herança calvinista é a Igreja Reformada, aqui no Brasil identificada como Igreja Presbiteriana. Até chegar ao Brasil, a trajetória da igreja reformada percorreu um longo caminho. Iniciada em Genebra, na Suíça, em 1536, no terceiro quartel do século XVI, John Know, um discípulo de Calvino, leva a Reforma para a Escócia, berço do presbiterianismo; da Escócia, a Igreja reformada é transplantada pelos pais fundadores dos Estados Unidos. E vai para a América do Norte (MENDONÇA, 1995, p.71-79). A fim de promover a sustentação da Reforma calvinista, Calvino funda a Academia de Genebra, que influenciou o sistema universitário suíço posterior. A partir da Academia de Genebra, a Reforma formou líderes para a nascente igreja reformada na Holanda, Bélgica, Escócia, Inglaterra etc. A igreja reformada da Escócia é a base da igreja das colônias inglesas na América do Norte (LESSA, 1938.).

O sistema de doutrina calvinista é complexo e deriva do pensamento de Santo Agostinho, em quase sua totalidade. Esse sistema encontra-se exposto, nos comentários bíblicos de João Calvino (1967) e, principalmente, em sua principal obra de teologia sistemática, intitulada Institución de la Religión Cristiana. Posteriormente, em 1636, tal sistema de doutrina foi sistematizado pela Confissão de Fé de Westminster.

A obra de João Calvino  Calvino as Institutas da Religião Cristã (1967)  é imensa e densa. Seria muito pretensiosa a intenção de querer em poucas palavras esquematizar uma obra descrita de acordo com as palavras acima. As Institutas, não foi à única obra de Calvino, tendo ele, entre outras, escrito um comentário detalhado para cada livro das Escrituras, o que demonstra e comprova sua rara capacidade de trabalho e produtividade. Estaremos resumindo neste trabalho apenas alguns aspectos da sua obra que sejam relevantes para compreender o seu pensamento e que atenda a finalidade desta pesquisa e para isto focalizaremos nosso trabalho nas Institutas.  Não temos qualquer pretensão de originalidade apenas de contribuir para a divulgação do pensamento deste reformador, especialmente porque o calvinismo brasileiro veio da lavra norte americana eivado viés pietista que transformou o calvinismo de Genebra no puritanismo vitoriano. As Institutas estão divididas em 4 livros, que tratam das doutrinas da Igreja Cristã do seguinte modo:

 

  • Livro I: Teodicéia, ou livro do conhecimento de Deus enquanto criador do mundo e de todas as coisas;

 

  • Livro II: Cristologia, ou livro do conhecimento de Deus enquanto redentor: o contraste entre lei e evangelho;

 

  • Livro III: santificação, ou livro da vida pela fé e a atividade santificadora do Espírito Santo que não age indiscriminadamente sobre todos, mas somente sobre os, eleitos de Deus, aqueles predestinados que são os que vivem pela Fé;

 

  • Livro IV: eclesiologia, tanto no seu aspecto interno e no tratamento dos Sacramentos, como no seu relacionamento externo, com o poder secular ou civil.

 

As Institutas da Religião cristã segue em seu escopo os grandes temas do Credo Apostólico, sendo por isso mesmo uma obra apologética de defesa do novo cristianismo bíblico reformado em face do velho cristianismo tradicionalista da Igreja Romana.

 

  • Livro L: Teodicéia: “Creio em Deus Pai todo poderoso criador do céu e da terra”. (Credo Apostólico) Neste primeiro livro João Calvino trata claramente do Conhecimento de Deus em suas relações com o homem, não do conhecimento cognitivo que seria uma atividade mais humana e sim do conhecimento que provém da fé, que seria o mais elaborado tipo de conhecimento que provém do próprio Deus. Este conhecimento na concepção calvinista seria fruto da obra do Espírito Santo, que através da iluminação abre a mente e o coração do ser humano para compreender a verdade divina revelada na Bíblia Sagrada e aplica no coração do homem a obra redentora de Cristo na cruz do calvário.  Deus se dá a conhecer ao homem, pois este não seria capaz, por livre iniciativa de ter conhecido de Deus em função da queda de Adão que degradou a natureza humana e obnubilou sua capacidade de conhecê-lo. Calvino usa duas palavras para falar deste conhecimento notitia e cognitio. Calvino, porém, usa as duas palavras mais ou menos misturadas, pois, para ele o conhecimento de Deus (notitia) deve ser sempre acompanhado de autoconhecimento que o homem deve ter de si mesmo (cognitio), que decorre do conhecimento revelado por Deus em Sua Palavra. Deus é para Calvino o totalmente outro, e que demonstra sempre sua absoluta perfeição em todos os seus atos, ao mesmo tempo em que permite ao ser humano conhecer sua condição de absoluta pobreza Calvino (1967) especificamente afirma:

 

“Novamente é bem certo que o homem nunca atinge um conhecimento claro de si mesmo a menos que ele olhe primeiro na face de Deus e então desça dessa contemplação pra escrutinar-se, porque nós sempre nos sentimos justos, corretos, sábios e santos este orgulho é inato em todos nós a menos que através de provas claras sejamos conhecedores de nossa própria injustiça, torpeza, tolice e impureza” (CALVINO, 1967, p.4 ).

 

É evidente, portanto que o verdadeiro conhecimento de Deus (notitia) não pode ser encontrado no homem, porque embora o conhecimento brote naturalmente da mente humana, ele é embotado, parcialmente pela ignorância e parcialmente pela má índole, consequência do pecado de Adão, que atingiu todo ser humano, e não apenas parte do ser humano como pretendia o tomismo. Embora João Calvino  não desenvolva plenamente uma epistemologia nesta sua primeira parte de sua Sistemática, é evidente a reação de Calvino ao realismo tomista que afirma que a existência de Deus pode ser conhecida tanto pela razão como pela revelação, e chegava mesmo apontar cinco vias de acesso a Deus. Para Calvino, havia na natureza humana uma corrupção total, e nem seu espírito, nem seu corpo, nem sua mente escapavam da mancha do pecado.

 

Como podemos então, conhecer á Deus? Certamente que não pelo Universo em si, a revelação natural que embora seja uma manifestação da grandeza de Deus, nosso pecado não nos deixa percebê-lo, e tais manifestações passam por nós sem quaisquer benefícios, mas só pelas Escrituras Sagradas, a revelação especial, somos capazes de conhecer e apreender o conhecimento de Deus, pois é a revelação especial quem nos permite aprender as marcas que distinguem Deus, como criador do mundo, da sua criação e de toda multidão de deuses fictícios. No calvinismo pietista, fruto dos reavivamentos norte americano todo o aspecto humanista do conhecimento de si mesmo, do autoconhecimento, fruto do da graça comum e da revelação natural, nascido do conhecimento que o homem tem de Deus foi totalmente desprezado e hoje é absolutamente desconhecido.

 

“Portanto é necessário que entre o conhecimento de Deus e de nós mesmo haja uma grande união e relação, a doutrina verdadeira requer que tratemos primeiro do conhecimento que devemos ter de Deus e fonte daquele que devemos ter de nós mesmos logo em seguida.” (CALVINO, 1967, p. 5).

 

As Sagradas Escrituras passam a ocupar o centro da teologia reformada. É neste ponto que o ensino de Calvino se mostra muito importante, pois, é aqui que o mesmo desenvolve melhor o seu conceito que Sola Scriptura[2] com um forte desprezo por aqueles que afirmam que as Escrituras dependem do aval da Igreja em suas decisões conciliares para ser considerada palavra de Deus ou que incluem na revelação a tradição cristã como é o caso da teologia Católica Apostólica Romana. Ele diz:

“Um dos maiores perniciosos erros tem sido mantido de que a Escritura só tem valor quando ele for concedido pelo consentimento da Igreja. Como se a eterna e inviolável vontade de Deus pudesse depender da decisão de homens! Pois eles ridicularizam o Espírito Santo quando perguntam: Quem pode nos convencer de que estes escritos vieram de Deus? Quem pode assegurar-nos que as Escrituras vieram até nós completas e intactas até nossos próprios dias? Quem pode persuadir-nos a receber um livro com reverência e excluir outro, a menos que a igreja prescreva uma regra segura para todos estes assuntos? Qual a reverência que é devida ás Escrituras e quais os livros que devem ser colocados dentro de seu cânon depende, eles dizem, de uma determinação da Igreja”.(Calvino, 1967 p..30 ).

 

E mais adiante João Calvino  conclui com sua posição realmente apologética contra a primazia da tradição da igreja sobre as Escrituras Sagradas, asseverando:

 

“Assim, estes homens sacrílegos querendo impor-nos uma tirania sem limites sob a capa da Igreja, não se preocupam com os absurdos em que eles se emaranham e a outros desde que eles possam forçar esta idéia na mente dos mais simples: que a igreja tem autoridade sobre todas as coisas”. (Calvino, 1967 P. 30).

 

Os ensinos calvinistas  sobre a Bíblia Sagrada elevaram na a categoria de única regra de fé e prática na teologia pela confissão de fé de Westminster, conforme Hodge, (1999) transformando o cristianismo, uma religião de tradição oral no catolicismo romano, numa religião de tradição escrita, literalmente na religião do Livro. Com este argumento Calvino não deixa nenhuma margem para a revelação natural sobre a salvação humana. Entende-se que este trecho é explicitamente dirigido ao argumento tomista da Lei Natural, segundo a qual, o homem pela razão e no exercício de sua vontade, poderia assimilar princípio esternos, não revelados. Na Bíblia Sagrada este argumento tomista é o fundamento da teologia católica especialmente no aspecto referente as boas obras. Calvino dirigiu-se, diretamente contra qualquer forma de Teologia Natural, afirmando sempre que o abismo entre Deus e o Homem é muito grande, e somente Deus poderia atravessar esse abismo.

 

Assim, Calvino começa a nos preparar para os dois livros seguintes da sua sistemática, sendo que o II, é sem dúvida o central na sua exposição, ou seja:

 

LIVRO II – CristologiaCreio em Jesus Cristo, seu único filho, nosso Senhor.(Credo Apostólico.) Calvino considera tanto o Velho quanto o Novo Testamento a fiel expressão da palavra de Deus. no final do livro I, quando considerando ainda as Escrituras, ele demonstra a justaposição do Velho e do Novo Testamento como instantes do antes e do depois do momento em que a palavra se tornou carne. Ele sustenta a idéia de que o Novo testamento era latente no Velho e este patente no Novo Testamento. E só por essa razão que existe um antes e um depois, o que nos traz diretamente ao mistério da pessoa de Jesus Cristo. Sua interpretação do Velho Testamento assim como do Novo Testamento, é que dão testemunho de Jesus, afirmando ser ele sem qualquer sombra de dúvida o Cristo, o filho unigênito d de Deus.

 

A sentença pela qual Calvino abre o seu capítulo 12 deste livro II é expressiva posto que reafirma a doutrina da pessoa teantrópica de Jesus, na verdade a doutrina central de toda a teologia cristã segundo a qual o Mediador é tanto verdadeiro Deus quanto verdadeiro homem. É, portanto nessa condição que ele assume o papel de Redentor, pois era o único propósito de sua encarnação. Tal propósito já havia sido estabelecido desde o início e a imagem de Cristo deveria ter sido entendida nos sacrifícios da velha dispensação, os quais tinham a intenção de dar aos crentes a esperança de que Deus seria gracioso para com eles.

 

É, portanto, como Redentor que Cristo é descrito, e a seguir Calvino passa a discutir a obra da redenção a partir de dois aspectos que se completam: A ocasião da redenção e a sua necessidade em vista do pecado de Adão, que passou para todo o gênero humano. Sob o tema da ocasião da Redenção, Calvino trata dos seguintes tópicos: O pecado original: que é descrito por ele acima de tudo como desobediência a Deus. O pecado é descrito por Calvino como tendo como conseqüência a alienação de Deus.

 

Na teologia calviniana o homem perdeu sua liberdade diante de Deus e passa a viver miseravelmente escravizado aos seus desejos e vive inconscientemente em total estado de desgraça e pobreza espirituais. (Romanos 3) Somente o homem, que movido pelo Espírito Santo, sinta-se profundamente alarmado com sua condição e que tenha consciência de sua desgraça, pobreza, nudez e miséria é que se volta para Deus, na conversão e faz o maior progresso no conhecimento de si próprio, na santificação.

 

A única forma de superar esta condição humana de depravação total [3] é Cristo que representa em sua vida e sua obra, a intervenção divina a favor do homem, colocando-se entre a vontade pecadora do homem e a vontade misericordiosa de Deus, e é exatamente por isso que ele é Mediador. Cristo é na teologia calviniana a mais alta expressão da graça especial de Deus, no espírito de Romanos 8. O homem em nada pode ajudar na obra da sua salvação, sendo esta fruto da ação soberana de Deus que alem de conceder a salvação, oferece todos os meios necessários para levá-la até a sua consecução. Toda a ação de Deus em favor dos seus eleitos por meio de Jesus Cristo Calvino considera como sendo a graça especial de Deus. Como deve atuar no homem, porém, esta graça alcançada em Cristo Jesus? Qual a maneira pela qual Deus torna efetiva a presença em nossos corações de poder salvado do Mediador? Assim, Calvino, começa a preparar no terceiro Livro das Institutas, vejamos o que Calvino (1967) tem a dizer:

 

“Conclusão. Mas, sobre tudo é necessário apreender o que acabo de dizer: que o Filho de Deus nos deu uma excelente graça especial através da nossa relação com ele pela nossa participação em sua natureza, posto que Cristo havendo se encarnado, destruiu a morte e o pecado, a fim de que seu triunfo e vitória, pela fé fossem imputados a nós; porque Cristo ofereceu seu corpo e seu sangue em sacrifício, para destruir a condenação de Deus que pesava sobre nós, expiando assim nossos pecados e aplacando a justa ira de Deus pela nossa desobediência. (p. 344)”.

 

Livro III – Santificação: “Creio no Espírito Santo.” (Credo Apostólico.).

É através da ação especial do Espírito Santo que aqueles que foram predestinados por Deus para a salvação são convencidos de seus pecados e entram em comunhão especial com Cristo Jesus. Inicia-se, então, para o crente, um processo diferente da conversão e decorrente dela, que é a Santificação. Nesta parte das Institutas, Calvino irá tratar especialmente da doutrina da Fé, que vem até cada um de nós por uma atuação e graça do Espírito de Deus. O homem decaído não nasce com a fé, nasce apenas com a capacidade de crer. A fé calvinista é um Dom de Deus para seus escolhidos. (Efésios 2: 1-10.) Tudo isso só acontece aquele que tem fé, mas não devemos nos esquecer que o homem não consegue a verdadeira fé por méritos próprios, mas pela doação de Deus como diz Paulo, “ e isto não vem de vós, para que ninguém se glorie, mas sim de Deus”, (Efésios 2:8-9). Portanto, aqueles a quem o Espírito Santo deu o privilégio de crer, também deu o privilégio de tornarem-se Filhos de Deus, aos que crêem no seu nome, os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas da vontade de Deus segundo João 1:12-13.

 

Calvino lançou então as bases para a sua premissa maior que a sua argumentação sobre mistério da eleição. Tudo isto deve ser decorrente da livre e soberana vontade de Deus a favor dos seus eleitos. Deus é soberano e não escolheu nenhum homem por mérito destes, como também não rejeitou algum por demérito. Ele que é soberano é que dá a conhecer, por meio da sua palavra, aos seus eleitos, através da mediação de Cristo, que eles são eleitos pela sua fé, e que por isso mesmo são justificados diante de Deus. (Romanos 5:1).

 

Assim, Calvino define fé como segue é um conhecimento firme e certo da benevolência de Deus para conosco, fundamentado sobre a verdade da promessa livremente dada em Cristo, sendo ao mesmo tempo revelada ás nossas mentes e selada em nossos corações através do Espírito Santo. Esta fé verdadeira produz um arrependimento verdadeiro que é a marca do convertido e que consiste principalmente da mortificação da carne e na regeneração de uma nova vida pelo Espírito. Aqui, Calvino demonstra sua afinidade e conhecimento dos argumentos de Lutero quanto à doutrina da Justificação pela Fé, refutando e demonstrando a fragilidade daqueles que aceitam a Justificação pelas obras como a Igreja Católica Apostólica Romana. Sua argumentação pode ser resumida pelo seguinte parágrafo:

 

“Cristo tendo sido dado a nós pela bondade de DEUS é apreendido e possuído pela fé, por meio da qual nós obtemos em particular, um duplo benefício (1) sendo reconciliados pela justiça de Cristo, Deus se torna ao invés de juiz, um Pai compassivo; (2) sendo santificados pelo seu Espírito nós aspiramos a integridade e a pureza da vida”.

 

Podemos afirmar que os dois benefícios que a Fé produz no ser humano são a Justificação e a Regeneração. É considerado “Justificado” todo aquele que não é mais considerado pecador, mas justo; justificação sendo então a “aceitação que Deus nos dá e com a qual nos recebe como se fôssemos justos; e dizemos que esta justificação consiste no perdão dos pecados e na imputação da justiça de Cristo”. (Calvino, 1967. P. 557).

 

A vida do justificado é mantida em contínua regeneração pela obra do Espírito Santo nele, e por sua vida de oração, pois a oração é o principal exercício da Fé e também o meio ou instrumento através do qual diariamente procuramos as bênçãos de Deus. Nada, porém, parece ter levantado maior celeuma, na dogmática de Calvino, do que os capítulos 21 e 24 do seu livro III, quando ele desenvolve, com incrível clareza e lógica, sua doutrina da Eleição ou Predestinação.

 

Como se pode notar, até este ponto, Calvino diverge muito pouco dos demais reformadores, mas é aqui, que sua presença tem sido mais marcante no mundo teológico. A influência dos estudos de Agostinho, sobre a Predestinação, em Calvino é imensa, e agora sua capacidade de argumentação e lucidez se tornam terrivelmente presentes, quando anuncia: Da Eleição Eterna, segundo a qual Deus Predestinou, alguns para a salvação e outros para a Destruição. Este é considerado o seu decretus terribli, o qual Calvino reafirmava corajosa e claramente com base nas Escrituras Sagradas, com ele as entendia, que Deus escolheu alguns para salvação, dentre todos aqueles que já se encontravam perdidos. Como Calvino entendia a Predestinação?  Não há dúvida, que era a partir da soberania de Deus. Deus é o Senhor, e não precisa consultar ninguém sobre o que ele pretende fazer ou não fazer. Todos os homens estavam no pecado, mortos e debaixo da mesma condenação eterna. Deus escolheu seus eleitos em Cristo Jesus, com base na sua soberania e na obra de Cristo sem considerar os possíveis méritos ou deméritos do homem. O homem sem Deus, na concepção calvinista, encontra-se morto em seus delitos e pecados. (Efésios 2) Quem pode, pois reclamar contra sua bondade? Assim a semente de Abraão era a certeza de que Deus amara um povo que não tinha méritos para ser amado, mas a quem Deus escolhera. Ainda que haja alguma relação com a presciência divina, Calvino, se recusa a deduzir uma da outra. A predestinação na sua concepção deve ser inferida apenas da soberania de Deus e dos seus decretos eternos aplicados dos seus predestinados por meio de Jesus Cristo.  Diz o Reformador de Genebra:

 

“Nós de fato, atribuímos presciência tanto quanto a predestinação a Deus; mas afirmamos ser um absurdo a ultima subordinada á primeira… Quando atribuímos presciência a Deus, queremos dizer que todas as coisas sempre estiveram e estarão sob seus olhos; que para seu conhecimento não existem nem passado e nem futuro, mas que todas as coisas são presentes…” (Calvino, 1967. P.728).

 

(…) “Por predestinação queremos nos referir ao decreto eterno de Deus, pelo qual ele determinou, consigo mesmo, o que quer que seja que ele desejava que acontecesse com relação a todos os homens.

Todos não são criados em tempos iguais, mas alguns são pré-ordenados para a vida eterna e outros para a perdição eterna; e foi predestinado para a vida ou para a morte “. (Calvino, 1967 P. 728)”.

 

Febvre (2002) sintetiza a importância da soberania de Deus[4] e da predestinação para a arquitetura da teologia calvinista, diz ele:

 

“Calvino não ignorou a condição mesma desta aceitação viril da morte, contemplada sem temor, cara a cara”.Pequei tanto! Não serei maldito?”Não. Não te inquietes. Tua salvação não a fazes tu”. Tu despido de toda virtude, mas revestido de Deus, vazio de todo bem, mas pleno de Sua obra “. Admiráveis expressões da Epístola a Francisco I, escrito de tanta força e relevo. Tua salvação, esta opera Deus somente, em sua criatura, gratuitamente, por um Dom de graça a que nada O força. E que O deixa livre para escolher como quer e a quem quer para a salvação. O que é isto senão a predestinação? Doutrina de rara e profunda psicologia, sempre a partir de nosso ângulo que nada tem de dogmático, que é de historiador e não de teólogo. A predestinação, a peça final do edifício, a coroação. O último toque da alma de um cavaleiro que não trai. Que não teme. Que se mostra fiel sem medo, até a morte.”(P. 29).

 

Livro IV – Eclesiologia – “Creio na comunhão dos santos”.(Credo Apostólico)

A reforma protestante foi um movimento desencadeado em função de uma grave crise que se abateu sobre a igreja medieval, por isso, a maior parte da obra de Calvino é dedicada a este tópico. Calvino dedicou mais de 500 páginas ao estudo da Igreja e dos meios de graça, bem como no seu relacionamento com o Governo Civil. Calvino colocava a existência da Igreja totalmente na dependência do Espírito Santo.(Salmo 62) A igreja na concepção calviniana é a comunidade dos regenerados por Deus, dos eleitos de Deus conforme Efésios capítulo 1. Está igreja nasce do chamado de Deus, sua vocação eficaz e continua através dos séculos por meio do Ide de Jesus, isto é, a Igreja deve proclamar a glória de Deus a fim de anunciar aos homens o reino de Deus e a sua justiça a fim de que os eleitos tomem conhecimento da sua salvação em Cristo Jesus, por meio do Espírito Santo. A verdadeira Igreja, porém apresenta alguns sinais que a identificam como tal, e uma citação já famosa e conhecida de Calvino, (1967) afirma que:

 

“Onde quer que vejamos a Palavra de Deus sinceramente pregada e ouvida, onde quer que vejamos os sacramentos administrados de acordo com a instituição de Cristo, aí, não pode haver qualquer dúvida de que a Igreja de Deus tem existência, desde que sua promessa não pode falhar, de que onde dois ou três estiveram reunidos em seu nome, ali estarei eu no meio deles (Mateus 18:20). (P. 812).

 

Neste Livro das Institutas Calvino trata também dos sacramentos. O batismo e a Ceia do Senhor. Estes são sinais visíveis da graça invisível de Deus sobre seus escolhidos.  O batismo calvinista, este ato simbólico de lavar cerimonialmente com água, aplicada sobre a cabeça do batizado em nome do pai, do Filho e do Espírito santo simbolizam a união do cristão com Cristo, significa ainda que o cristão é participante das bênçãos do pacto da graça realizado entre Deus e o homem, tendo Cristo como seu mediador, sua base e seu fiador e ainda o batismo sela a promessa de que de fato o homem tornou-se filho de Deus em Cristo Jesus. Já a Santa Ceia, é o sinal visível de uma graça invisível por excelência. Através desta o Espírito Santo aplica no coração dos eleitos todos os benefícios da obra vicária de Cristo na cruz do calvário.

 

“Ora na Santa Ceia temos o pão, que é visível, para simbolizar o corpo do Senhor, que se acha invisível aos nossos olhos; temos o vinho, presente com sua cor e seu sabor, para simbolizar o sangue da aliança, o qual não vemos ao celebrar o sacramento; temos os emblemas do corpo e do sangue separados, para representar sua morte”. (Almeida, 1959, p. (161).

 

O Protestantismo brasileiro teve suas origens nos interesses comerciais de ingleses e norte-americanos, e no calvinismo missionário, conversionista, conservador e  pietista norte-americano do século XIX (MENDONÇA, 1995, p. 213-234). Os americanos e, em especial, os protestantes norte-americanos, no século XIX, eram representados no Brasil como pregoeiros do progresso científico e tecnológico, os heróis civilizadores. Os missionários reforçaram essa imagem e a veicularam em alguns meios intelectuais e políticos brasileiros (BASTOS, 1938). O Correio Mercantil, de 17 de maio de 1855, publica uma notícia importante sobre uma exposição industrial realizada por Fletcher, missionário presbiteriano, no Rio de Janeiro em 1844.  A exposição industrial, aberta ao público por dois dias, foi um sucesso (KIDDER; FLETCHER, 1941; VIEIRA, 1980).

A 12 de agosto de 1859, a Igreja Reformada chega ao Brasil, no Rio de Janeiro, com Ashbel Green Simonton, missionário do norte dos Estados Unidos.  (RIBEIRO,1973; 1981).

A educação missionária presbiteriana: uma escola ao lado de cada igreja

A Bíblia era o epicentro do protestantismo, especialmente aquele de cunho calvinista, o qual deu origem à Igreja Presbiteriana, no Brasil. A importância da leitura da Bíblia nos cultos desenvolveu nos missionários presbiterianos, no país, um gérmen de projeto educacional vinculado à evangelização. Ashbel Green Simonton (1867), missionário fundador da Igreja Presbiteriana do Brasil, apresenta ao Presbitério do Rio de Janeiro uma tese, na qual afirmava que um dos métodos adequados para a evangelização do Brasil era a fundação de escolas paroquiais: uma escola ao lado de cada igreja. Em 1870, segundo o censo, na cidade de São Paulo, 92% da população era constituída de analfabetos. A visão de Simonton sobre a educação brasileira era realista. Primeiro, era necessário educar, para depois evangelizar (SIMONTON, 1867, p. 4). Não era possível, do ponto de vista protestante, evangelizar analfabetos.

“É de confessar que a educação há de encontrar grandes obstáculos provenientes de muitas causas. Muitos pais de família são descuidados a este respeito, nem querem fazer os sacrifícios preciosos para educar os seus filhos. Estes de sua parte, não estando acostumados a obedecer a seus pais, não gostam do regime da escola bem dirigida. Os costumes do país e a falta de confiança não permitem que uma escola central seja freqüentada por todos como sucede nos Estados Unidos. Faltam professores e professoras com a prática necessária para bem desempenharem esta missão e o governo ainda não admite a instrução e educação da nova geração. Sendo este meio indispensável, temos razão para esperar que Deus nos deparará os meios de atingi – los.” (Os Meios Próprios Para Plantar O Reino de Jesus Cristo no Brasil, Projeto apresentado ao Presbitério do Rio de Janeiro, na cidade do Rio de Janeiro, 16 de julho de 1867, p. 4).

 

No protestantismo calvinista, a fé equivale a conhecimento. E conhecimento que nasce da leitura teológica da Bíblia. O  projeto de educacional de Simonton  terá como objetivo atender a essas necessidades missionárias da igreja e da evangelização:

“Outro meio indispensável para assegurar o futuro da igreja evangélica no Brasil é o estabelecimento de escolas para filhos de seus membros. Em outros países, é reconhecida a superioridade intelectual, e moral da população que procura as igrejas evangélicas: o Evangelho dá estímulo a todas as faculdades do homem e o leva a fazer os maiores esforços para avantajar-se nas sendas do progresso. Se assim não suceder entre nós, a culpa será nossa. Se a nova geração não for superior à atual, não teremos preenchido o nosso dever. (Simonton, op. cit. P. 4).

 

 

Essa necessidade de instrução do povo é uma premência também da própria liturgia calvinista, calcada na tradição escrita da leitura dos textos bíblicos e de longas litanias, assim como nos cânticos congregacionais. “Além disso, o próprio culto protestante exige a leitura, pois o seu material litúrgico é a Bíblia e o livro dos hinos. Para atender a esta necessidade, os missionários colocaram, ao lado de cada comunidade, uma escola. Estas foram as escolas paroquiais, alfabetizadoras e elementares” (MENDONÇA, 1995, p. 97).

“Além disso, o próprio culto protestante exige a leitura, pois o seu  material litúrgico é a Bíblia e o livro dos hinos. Para atender a esta necessidade, os missionários colocaram, ao lado de cada comunidade, uma escola. Estas foram as escolas paroquiais, alfabetizadoras e elementares. “         (Mendonça, 1995, p. 97 ).

 

No último quartel do século XIX, os missionários presbiterianos fundaram cerca de sessenta escolas presbiterianas, somente nos Estados do Sudeste, todas com a mesma finalidade: ensinar o povo a ler, para poder ler e compreender os ensinamentos bíblicos contidos nas Sagradas Escrituras (ALBINO, 1996).

A cosmovisão presbiteriana obrigou no Brasil a prática protestante, desenvolvida na Europa e nos Estados Unidos,  de fundar uma escola  ao  lado  da  igreja, onde quer que se formasse um núcleo de convertidos a fim de ensiná – los a leitura da Bíblia. Fundaram-se escolas paroquiais no Rio de Janeiro, Brotas – São Paulo, Campinas – São Paulo, São Paulo – São Paulo,  Borda da Mata – Minas Gerais,  São João do Rio Claro – São Paulo, Lorena – São Paulo, Petrópolis – Rio de Janeiro, Salvador – Bahia; escolas foram criadas em Pernambuco, e em outros lugares menos citados, todas com a mesma finalidade: ensinar o povo a ler para poder ler e compreender os ensinamentos bíblicos contido nas Sagradas Escrituras. O mesmo projeto dos missionários presbiteriano do norte foi tentado pelos imigrantes sulistas que fundaram o Collegio Internacional de Campinas, em 1869 e inauguraram – no  em 1873   etc. As  Escolas iam sendo fundadas onde eram plantadas as igrejas, assim os presbiterianos reproduziam a sua visão de mundo e produziam seus sistemas de vida por onde quer que se implantassem no Brasil.

Além das primeiras letras, ensinava-se a Bíblia e o Breve Catecismo. Havia culto diário, com oração e cântico de hinos. A escola ao lado de cada igreja destinava-se a

suprir a ineficiência do sistema pedagógico nacional, bem como, onde fosse o caso, prevenir conflitos, que poderiam resultar da imposição de práticas católicas romanas às crianças protestantes.

 

Estas escolas presbiterianas  foram  sustentadas pela missão norte – americana no Brasil como se depreende do orçamento missionário abaixo.

“Os orçamentos da Brazil Mission, ao longo dos anos, invariavelmente destinam verbas para as escolas.

 

Campo do Rio de Janeiro –  Escola……………1:000$000; Campo da Bahia e Cachoeira – Escola……………1:200$000; Campo de Rio Claro – Escola, internato para órfãos e pobres…..5:700$000; Campo de Sorocaba – Escola…………… 400$000;

Campo de Botucatu – Escolas…………..2:368$000;   Campo de Campos (RJ)- Escola…………… 600$000;  Campo de Brotas – Escola……………….1:000$000; Campo de S. Paulo- Escola……………….8:700$000” (RIBEIRO,   1981, p.  190 – 192).

 

 

A Escola Americana e o Mackenzie College

Em São Paulo, o projeto educacional de Ashbel Green Simonton foi transformado em realidade por George Chamberlain, com a fundação da Escola Americana. A tradição afirma que, no ano de 1870, na cidade de São Paulo, a esposa do missionário presbiteriano norte-americano Dr. George W. Chamberlain, Mary Annesley Chamberlain, funda, em sua própria casa, uma pequena escola primária, para atender aos alunos presbiterianos e alguns filhos de republicanos e de abolicionistas, judeus e maçons. Essas crianças, pelas suas origens ideológicas, estavam impossibilitadas de frequentar as escolas públicas e outras, por motivos de intolerância religiosa e política (LESSA, 1938; GARCEZ, 1970). A Escola Americana ou Colégio Protestante é o berço da Universidade Presbiteriana Mackenzie e do Sistema Mackenzie de Ensino (ASSIS, 1997).

Horace Lane, diretor do Colégio Protestante de São Paulo, apela para os seus amigos em Nova York para a criação de um College Protestante em São Paulo. Já no ano de 1889, uma comissão de homens de negócios e educadores norte-americanos visitara São Paulo e recomendara o estabelecimento de cursos universitários suplementares à Escola Americana voltados para o comércio e a indústria (STEWART, 1932, p. 26).

A Universidade do Estado de Nova York concedeu carta de privilégio ao Mackenzie College, em 2 de novembro de 1895, substituindo a que fora dada, a título de experiência, em 9 de fevereiro de 1893, subordinando a colação de grau a parecer favorável, em cada caso particular, daquela Univer­sidade. O Diploma passa a ser concedido pela Universidade do Estado de Nova York. O Mackenzie College permaneceu ligado à Universidade do Estado de Nova York até 1952 (LANE, 1897; MENDES, 2005).

A influência do Mackenzie College na formação da mentalidade de uma elite empresarial, em São Paulo, entre 1870 e 1914, ocorreu de forma sistemática, por meio do Curso de Comércio e do Curso de Engenharia. Nestes cursos, os rudimentos da economia pragmática, capitalista e liberal eram fartamente ensinados e, pela primeira vez, aqueles alunos interessados nos negócios da nação aprendiam a separar o lucro do capital. Esses alunos, depois de formados, foram pioneiros na administração racional de empresas públicas e de empreendimentos privados. Por outro lado, convém lembrar que, por mais de cinquenta anos, a Escola de Engenharia do Mackenzie College formou mais da metade de todos os engenheiros registrados no CREA de São Paulo até 1960, como observou Mendes (1999).

A contribuição do Mackenzie College na formação da mentalidade do empresariado em São Paulo, deu – se pela preparação de mão de obra adequada à administração do capital, segundo os postulados da cultura protestante evidenciados por Weber (1994). Esse College agiu ainda como um polo irradiador da filosofia industrialista norte-americana, através do Instituto de Desenvolvimento da Organização Racional do Trabalho (IDORT) e do desenvolvimento, nos egressos da Escola de Engenharia, do espírito empreendedor, o qual fez germinar o moderno capitalismo ocidental (OLIVEIRA, 1997).

As escolas presbiterianas foram analisadas por Jether Pereira Ramalho (1976), que considerou duas variáveis: o espírito protestante trazido pelos missionários presbiterianos e práxis  pedagógica  das escolas presbiterianas. Ramalho observou o espírito protestante existente nas escolas presbiterianas, a partir da relação que havia entre o liberalismo e o pietismo protestante, nos seguintes aspectos: Individualismo – Uma das doutrinas básicas do protestantismo, que toma ênfase especial no pietismo, é a que se refere à responsabilidade individual do sujeito diante de Deus. Cada um é responsável pela sua própria salvação. Liberdade – Essa categoria está presente na origem do movimento histórico que redunda no protestantismo, sendo muito enfatizada no pietismo. Nas suas bases estão as afirmações do direito de livre interpretação da Bíblia e a doutrina do Livre Exame. Democracia –  também sobre a forma de governo havia certa coincidência entre o pietismo e o liberalismo: os missionários e suas escolas eram republicanos. Trabalho e êxito – Para os pietistas, o trabalho constitui, antes de mais nada, a própria finalidade da vida (vocação). Viver para a glória de Deus é viver para o trabalho.  O êxito no trabalho significa que Deus está abençoando suas atividades. Progresso – A ideia de progresso ininterrupto, coadunou-se com os ideais de progresso das forças armadas brasileiras da Primeira República (RAMALHO, 1976, p. 100-150).

Antonio Maspoli de Araújo Gomes, (2000) relaciona as contribuições do Mackenzie College à educação brasileira:  a) o ensino da racionalidade do espírito protestante, decantada por Max Weber (1994), em sua obra A ética protestante e o espírito do capitalismo; b) o pragmatismo protestante como práxis educacional: o pragmatismo derivado da racionalidade metódica do protestantismo produziu  uma educação voltada para aplicações práticas, como a educação para o comércio e indústria; c) o pioneirismo na  educação de mulheres e a sua utilização como professoras nas escolas presbiterianas; d) a ausência total de castigos físicos nas escolas,  com a utilização de reforços positivos, como um facilitador da aprendizagem, transformando-a numa a atividade lúdica; e)  o uso do método silencioso, indutivo, com  a primazia da inteligência sobre a memória, fato que a escola brasileira, pela média, desconhece até hoje (GOMES, 2000, p. 182-186; GOLDMAN, 1972).

Universidade Presbiteriana Mackenzie: do pragmatismo à confessionalidade

A confessionalidade é implantada na Universidade pela reforma dos Estatutos da Universidade, em 1999, quando o nome Universidade Mackenzie é mudado para Universidade Presbiteriana Mackenzie. As causas dessa confessionalidade tardia são várias, todavia, destacaremos apenas três delas: a) as raízes históricas da confessionalidade da própria instituição mantenedora – representante do  Associado Vitalício, a Igreja Presbiteriana do Brasil –, que, por força da sua confissão religiosa calvinista, a Confissão de Fé Westminster, assumiu a confessionalidade das suas origens;  b) causas políticas – a experiência da desapropriação do Mackenzie pelo Governador Laudo Natel, em 1966, e a  filantropia; c)  e a necessidade de explicitar sua identidade calvinista, presbiteriana.

As raízes históricas da confessionalidade da Universidade Presbiteriana Mackenzie encontram-se ligadas umbilicalmente às origens da Escola Americana ou Colégio Protestante. A Escola Americana deu origem ao Sistema Mackenzie de Ensino e à própria Universidade, por intermédio do Mackenzie College. O missionário presbiteriano, norte-americano criador da Escola Americana em São Paulo, George Chamberlaim, funda uma escola evangélica: “Em seus argumentos junto a Missão de Nova York, Chamberlaim ainda comenta que a escola fundada em São Paulo ministrará educação evangélica confessional nos moldes dos mais sagrados princípios de moral cristã protestante (HACK, 2003, p. 58).

O regulamento do Mackenzie College, criado por Horace Lane, em 1885, já prevê a confessionalidade no seu regulamento. Horace Lane, contudo, não era um homem da igreja, raramente assistia aos cultos e, aos domingos, preferia andar de charrete pela cidade de São Paulo a participar dos cultos da Igreja Presbiteriana de São Paulo ou da sua Escola Dominical. Lane jamais deu ênfase à confessionalidade (GARCEZ, 1970). O pragmatismo de Horace Lane será a marca da Universidade Mackenzie até a década de 1990.  No modelo educacional adotado pela Universidade Mackenzie não havia lugar para a vocação religiosa confessional. A Universidade assume explicitamente a confessionalidade somente em 1999.

Quanto a Universidade, o tema era preocupação latente, mas sem medidas diretas, a não ser o oferecimento dos serviços de capelania ou de celebrações religiosas. Os líderes acadêmicos, desde os reitores, diretores de faculdades e corpo docente, não tinham compromisso religioso com os princípios da fé cristã reformada. A cultura universitária mackenzista afastou-se da tradição histórica, cuidando do progresso da vida acadêmica, sem nenhuma vinculação religiosa (HACK, 2003, p. 162).

 

A inspiração para a confessionalidade da Universidade Mackenzie renasce, sem dúvida nenhuma, da inspiração calvinista do seu fundador, George Chamberlaim, e mesmo da confessionalidade do Colégio Mackenzie. Na segunda metade da década de 1990, a universidade buscará, nas suas origens histórico-teológicas calvinistas, as bases da confessionalidade.

 

A partir de 1997, com ação conjunta da Chancelaria e Reitoria da Universidade, foi elaborado um projeto para sensibilizar a comunidade acadêmica. O diálogo com a entidade mantenedora permitiu mudanças estatutárias e a realização de eventos para discutir a história do Mackenzie e seu relacionamento com os princípios cristãos de uma teologia reformada calvinista (HACK, 2003, p. 163).

 

A Universidade Presbiteriana Mackenzie é uma intuição filantrópica, sem fins lucrativos, como todas as demais universidades comunitárias e confessionais. A definição por essa forma jurídica de existência remonta ao desejo dos fundadores e doadores da Universidade  a Igreja Presbiteriana do Brasil, em 1952. A mantenedora adotou a confessionalidade, por força das suas origens calvinistas, desde a sua fundação. O colégio mantinha-se confessional. Só a universidade estava indefinida quanto à confessionalidade. Tal indefinição custara caro, no passado recente, quando o governador de São Paulo, Laudo Natel desapropriou a Universidade Mackenzie e estatizou todo o complexo Mackenzie de ensino, no Estado de São Paulo, pelo Decreto Estadual n° 47.379 de 16 de dezembro de 1966. Por força de uma Ação Popular, o Mackenzie só voltará para sua mantenedora, a Igreja Presbiteriana do Brasil, em 1968. Por outro lado, a confessionalidade coloca a Universidade Mackenzie no concerto das universidades comunitárias e confessionais, as quais, pela sua natureza filantrópica, gozam de alguns privilégios tributários (GARCIA, 1968, p. 1-32).

Grupos, organização e intuições carecem de uma identidade para existir. Não se tem conhecimento de textos que tratam da identidade universitária. No entanto, aquilo que se diz do sujeito vale também para os grupos, na concepção de Antonio Ciampa (1986; 1987). Ciampa afirma que a identidade, considerada do ponto de vista psicológico, nasce a partir da interação do sujeito com a comunidade, a qual é tomada, no presente estudo, como o espaço privilegiado de interação do indivíduo com o outro, num determinado espaço geográfico, por um longo período de tempo. Outra característica da comunidade é a existência de crenças, valores e objetivos comuns. Nesse sentido, a comunidade pode ser uma família, uma escola, uma igreja, uma instituição social, uma empresa, uma corporação de ofício, um sindicato etc. A identidade do sujeito, nesse âmbito, vincula a sua existência social ao contexto de uma comunidade. A comunidade que tem identidade gera a identidade do sujeito. A identidade comunitária surge dentro de um contexto maior (CIAMPA, 1985, p. 64).

Antes da confessionalidade, a identidade da Universidade Mackenzie oscilava entre o pragmatismo e a fé reformada. A Universidade expressava suas crenças, seus valores e sua ideologia de forma implícita e difusa. Do ponto de vista político, isso em nada contribuía para a práxis educacional do corpo docente, e nem para a transmissão de valores centenários acumulados em mais de um século pela cultura mackenzista. A confessionalidade explícita da universidade daria consistência à identidade calvinista do seu projeto educacional. Na justificativa para a confessionalidade da Universidade Presbiteriana Mackenzie, o então chanceler Osvaldo Henrique Hack arrola um conjunto de fatores que devem nortear a identidade de uma universidade confessional. “A identidade das universidades confessionais passa pela coerência de seus princípios e de sua prática metodológica, propondo um ensino de qualidade acadêmica com valores religiosos para constituir uma nova realidade social” (HACK, 2003, p. 166).

A partir da adoção da confessionalidade, a identidade confessional da Universidade  deve ser expressa em seus documentos legais: Estatutos, Regimentos e no Projeto Pedagógico (HACK, 2003, p. 167). “Portanto, um projeto pedagógico embasado na tradição reformada, calvinista, coerente com as origens mackenzistas, deve levar a intuição a promover uma educação voltada para a cidadania” (HACK, 2003, p. 173; SANTOS JUNIOR, 2007).

A transformação da Universidade Presbiteriana Mackenzie em Universidade Confessional foi precedida de longos e intensos debates realizados pela reitoria do professor doutor, Cláudio Salvador Lembro. Os debates foram denominados de Colóquios. Ao longo de dois anos foram realizados doze Colóquios.  Nestes Colóquios buscava-se compreender a filosofia reformada de educação. Os professores participaram intensamente destes Colóquios, que funcionaram como uma espécie de audiência pública. No entanto,  por se tratar de uma universidade comunitária,  os debates foram marcados pelo comedimento do corpo docente (HACK,2003).

O foco de maior preocupação do corpo docente não era a confessionalidade, era todavia, a manutenção dos espaços conquistados ao longo de mais de cem anos! Tais espaços foram garantidos pela reitoria. A confessionalidade representava uma mudança na filosofia educacional da intuição, não nas relações institucionais e trabalhistas. Ficou estabelecido por um acordo de cavalheiros que a confessionalidade  seria exercida pela missão da universidade não pela sua função. Quando o Conselho Universitário aprovou a mudança do nome de Universidade Mackenzie para Universidade Presbiteriana Mackenzie, o fez pela unanimidade dos votos dos seus membros (HAC, 2003)!

Ainda não foram realizadas pesquisas sobre o impacto da confessionalidade sobre o corpo docente e discente da Universidade Presbiteriana Mackenzie. No entanto, a pesquisa de campo pode inferir algumas observações. Quando da implantação da confessiolidade em 1999, havia 1000(mil) professores no corpo docente. Deste total, apenas cinco eram vinculadas a algum ramo do protestantismo. Já no ano 2000, com a criação da Escola Superior de Teologia e do Programa de Pós Graduação em Ciências da Religião esse úmero havia saltado para 36 docentes vinculados a fé cristã protestante, de um total de 1200(mil e duzentos professores).

Registra-se, todavia, quer os professores protestantes foram contratados para compor o corpo docente do curso de teologia, criado em 1999 e do programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião criado no ano 2000, portanto não ocuparam os espaços de outros professores da universidade (GOMES, 2007). A Universidade Presbiteriana Mackenzie buscou doutores protestantes das mais diversas áreas para seus quadros, no entanto não os encontro no mercado. Os doutores das mais diversas áreas da ciência e do conhecimento em geral vinculados ao protestantismo no Brasil, naquela momento ainda eram escassos.

A confessionalidade foi implantada em 1997, ao mesmo tempo em que foram criados dez programas de pós-graduação na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Nesse momento foram contratados sessenta professores doutores de tempo integral(PPI) para os Prograas de Pós Graduação. Isso de certa forma ofuscou perante o corpo docente as questões relacionadas a cofnessionalidade por uma questão maior: a pós-graduação.

Quanto ao corpo discente, a reitoria encomendou em 1999 uma pesquisa sobre a filiação de seus alunos. Naquele instante a universidade contava com 30.000 alunos, desse total, apenas 5 % professava algum tipo de protestantismo histórico e, ou emocional –  pentecostal.

Ainda não foram realizadas outras pesquisas sobre este universo depois do advento da  confessionlalidade. Atualmente, em 2015, contudo, num total  de 41.000(quarenta e um mil) alunos existem 600(seiscentos) alunos somente no curso de teologia, no Programa de Ciências da Religião. Estes estudantes são em quase sua totalidade vinculada a alguma confeissão protestante e ou, pentecostal (GOMES, 2007).

O curso de teologia, criado em 15 de setembro de 1999, por este pesquisador,  para expressar a confessionalidade  de matriz calvinista,  atraiu especialmente alunos pentecostais e neo pentecostais.

O espaço da Teologia no Brasil sempre foi demarcado pelo aspecto da confissão religiosa. Cada denominação mantém cursos de Teologia próprios, em seminários, para formar a sua liderança eclesiástica. A entrada da Teologia na universidade mudou essa realidade. A Escola Superior de Teologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie atraiu majoritariamente alunos evangélicos (95,6 %), sendo 30% constituídos de presbiterianos e 70% de pentecostais e neopentecostais, e poucos alunos de outras tradições religiosas (2,1% de católicos, 1,4% de espíritas e 0,7% de judeus)(GOMES, 2016, p. 42). Disso se depreende que as demais confissões religiosas são absolutamente respeitadas dentro da visão confessional da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Se considerarmos que a Universidade Presbiteriana Mackenzie não parou de crescer depois da confessionalidade, podemos afirmar que a transformação da filosofia da universidade, do pragmatismo para o calvinismo, pode ter sido um fator positivo em sua história.

 

Implantou-se a confessionalidade na Universidade Presbiteriana Mackenzie  tendo como pressuposto básico o testemunho da  fé cristã reformada, por meio da educação e do respeito absoluto à dignidade da pessoa humana, em sua diversidade de crenças religiosas (SANTOS JUNIOR, 2007).

Institucionalmente a  confessionalidade expressa-se na Visão da Universidade: “Educar o ser humano, criado à imagem de Deus, para o exercício pleno da cidadania, em ambiente de fé cristã reformada” (Site da UPM,  2016).  A confessionalidade expresssa-se também na missão da universidade. ”  Ser reconhecida pela sociedade como instituição confessional presbiteriana e filantrópica, que se dedica às ciências divinas e humanas, comprometida com a responsabilidade socioambiental, em busca contínua da excelência acadêmica e de gestão(http://up.mackenzie.br/a-universidade/confessionalidade-missao-visao-principios-e-valores/acessado em 28/07/2016 as 17:51 horas.). “

Além de disso a confessionalidade expressa – se também por intermédio do serviço de capelania, subordinado à chancelaria, atualmente com dez capelães. Expressa-se   por meio do curso de teologia; e pela disciplina de Ética e Cidadania.

A disciplina de Ética e Cidadania,  obrigatória para todos os curso de graduação da Universidade ensina o pensamento cavinista em suas relações com  o sujeito e a sociedade revelando o pensamento teológico, político, econômico, científico, social  e ecológico do protestantismo reformado.

O objetivo final da disciplina, no entanto, não é a conversão do aluno ao pensamento protestante reformado, (haja visto que a universidade respeito as crenças de seus  professores e alunos). O alvo desta disciplina é formar o cidadão responsável dentro da perspectiva calvinista de respeito a dignidade da pessoa humana para se atingir o bem comum. “Educação para o amor ao próximo que se expressa de forma objetiva em ações concretas e participação responsável na construção da cidadania e do bem estar da coletividade e da comunidade. (GOMES e HACK, 2002, p. 55). Esta filosofia concretizou-se posteriormente nos valores e princípios da universidade: “ Na sociedade: participação e prestação de serviços à comunidade;E, em todas as circunstâncias, agir com amor que é o vínculo da perfeição” (http://up.mackenzie.br/a-universidade/confessionalidade-missao-visao-principios-e-valores/acessado em 28/07/2016 as 17:51 horas.).

Considerações Finais

A Escola Americana nasce de uma escola missionária presbiteriana, em São Paulo, em 1870. Em suas origens, é uma escola paroquial, visando à educação para a evangelização, segundo o modelo da Reforma protestante: uma escola ao lado de cada igreja. A Escola Americana, que deu origem ao atual Colégio Mackenzie e ao Sistema Mackenzie de Ensino, desde a sua fundação, manteve a sua confessionalidade calvinista, presbiteriana, como forma de ensino. A Bíblia é utilizada até hoje no processo de alfabetização de crianças e adultos, por exemplo (CORREA, 1980).

O Mackenzie College, criado oficialmente em 1885, por um grupo de homens de negócios do Estado de Nova York, pela Carta de Privilégios concedida pela Universidade do Estado   de Nova York, passa a integrar o complexo educacional norte-americano denominado Universidade do Estado de Nova York, em 1893. O College surge, portanto, de um projeto pragmático com uma proposta confessional implícita em seus objetivos (GOMES, 2000).

A Universidade Mackenzie, herdeira natural do Mackenzie College, é nacionalizada em 1952, contudo, seu projeto de confessionalidade explícita, tardio, toma corpo apenas na segunda metade da década de 1990. A confessionalidade é implantada na Universidade pela reforma dos Estatutos da Universidade, em 1999, quando o nome Universidade Mackenzie é mudado para Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Em consonância com a tradição da cultura mackenzista, a confessionalidade da Universidade Mackenzie está implantada sob os pressupostos do testemunho da fé cristã reformada, em absoluto respeito à dignidade da pessoa humana, em sua diversidade de crenças religiosas e políticas.

Considerando-se que  confessionalidade foi implantada há apenas dezesseis anos, ainda é relativamente cedo para se proceder a uma avaliação do impacto desta confessionaldidade tardia sobre o corpo docente e discente. Outras pesquisas poderão inclusive, verificar,  por exemplo,  qual o impacto da confessioalidade no perfil religioso do aluno e do professor.

Referências

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ALMEIDA, Antonio. Curso de doutrina bíblica. Segundo a orientação dos catecismos e da Confissão de Fé da Assembléia de Westminster. São Paulo: Casa editora Presbiteriana, 1959.

 

ANDERSON, William K. et alii. Espírito e mensagem do protestantismo. Tradução de Nicodemus Nunes. São Paulo: Junta Geral de Educação Cristã da Igreja Metodista do Brasil, 1953.

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[1] Doutor em Ciências da Religião pela UMESP. Pós-Doutor em História das Ideias pelo IEA da USP. Membro do Laboratório de Psicologia Social Estudos da Religião da USP. Professor Titular da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica da PUC-SP.São Paulo. Brasil E-mail: maspolipeixe@yahoo.com.br

[2] A centralização do calvinismo na Palavra de Deus, a Bíblia Sagrada, considerada por Calvino a única revelação especial e suficiente de Deus para o conhecimento da salvação distingue a teologia Reformada da teologia Católica. A teologia católica admite além da própria Bíblia Sagrada,  a revelação natural e a tradição dos santos padres que é considerada e acatada no mesmo nível da revelação especial e no catolicismo popular no Brasil é mais conhecida do que a própria Bíblia que tem uma posição secundário nesta forma de expressão do cristianismo.

 

[3] A depravação total do homem é um dos pilares da teologia calvinista. Por esta doutrina o pecado da desobediência de Adão foi imputado a todo gênero humano. O homem nasce pecador independente do seu pecado pessoal, ser pecador é o seu estado diante de Deus posto que o homem herdou esta condição espiritual de Adão, o arquétipo do pecador e, por isso, encontra-se espiritualmente morto e incapaz de realizar qualquer coisa que agrade a Deus. O pecado afetou sua cognição, sua volição, seu espírito de tal sorte que mesmo conhecendo o bem o pessoal, Ele é incapaz de escolhê-lo e efetuá-lo (Romanos 7).

 

[4] A doutrina da soberania de Deus é o vértice da teologia calvinista. “Desde toda a eternidade, e pelo sapientíssimo e santíssimo conselho de sua própria vontade, Deus ordenou livre e imutavelmente tudo quanto acontece; porém, de modo tal que nem é Deus o autor do pecado, nem se faz violência à vontade das criaturas, nem é tirada a liberdade ou contingências das causas secundárias, antes são estabelecidas”.(Hodge, 1999, p. 95, citando a seção I da Confissão de Fé de Westminster.).

 

Antonio Maspoli
Antonio Maspoli
Sou Antonio Maspoli, cidadão do mundo, Teólogo e Psicólogo. Deus é a minha herança pessoal, meu caso de amor! Deus encantou-me com o a sua presença. E abriu-me as porta do conhecimento do numinoso: "Eu cri, por isso compreendi" (Agostinho). Desde então dediquei a minha vida a conhecer a Deus. E a minha existência a compreender a natureza humana.

2 Comentários

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