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AS ORIGENS ARQUETÍPICAS DO BODE EXPIATÓRIO

Dr. Antonio Maspoli

Introdução

Existem conceitos e experiências humanas, arraigadas no ocidente que independem de credo, sexo, raça ou mesmo religião. A culpa é um destes fenômenos. A sociedade ocidental desde o liberalismo teológico do século XIX, especialmente sob a influência da teologia da morte de Deus vem tentando resolver o problema da culpa. A psicanálise também caminhou nesta direção. Em alguns meios psicanalíticos acreditou-se, inclusive, que a destruição pura e simples do conceito cristão de pecado seria suficiente para liberar toda a humanidade ocidental do fardo terrível da repressão e da culpa. Alguns psicanalistas, à semelhança de Wilhem Reich, dedicaram suas vidas e trabalharam em suas pesquisas para este fim.

O resultado alcançado parece estar longe de resolver o problema da culpa e da responsabilidade humana pelos seus atos, sejam eles bons ou maus. A psicanálise enfrenta uma de suas piores crises de relevância, frente aos velhos conflitos, as novas demandas e novas descobertas da neurociência no mundo contemporâneo. Hoje Reich já passou a ser um dos psicanalistas quase esquecidos. A religião e a experiencia religiosa trouxeram de volta os conceitos de pecado e culpa para assombrar o homem pós-moderno.

Joseph Campbell, et all (1986) conceitua culpa como: “O sentimento que uma pessoa tem de ter errado, violado algum princípio ético, moral ou religioso. Associados de modo típico a essa consciência estão um grau muito baixo de autoestima e um sentimento de que o erro cometido deve ser expiado ou compensado. ” (CAMPBELL, p. 142). Otto Fenichel, (1981), parece concordar com esta definição, quando afirma que “Os sentimentos de culpa que acompanham a prática de uma maldade e os sentimentos de bem-estar que resultam do cumprimento de um ideal são os modelos normais seguidos pelos fenômenos patológicos da depressão e da mania ” (FENICHEL, p. 96). De modo geral a culpa nasce quando o homem age contra a sua própria consciência e desconsidera em seus atos a norma ética da busca pelo bem comum. Ou dizendo de outro modo: “Tudo o que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles. Esta é a lei e os profetas.(Mateus 7:12)”

As conceituações psicológicas, todavia, desconsideram em suas assertivas as afirmações bíblicas para as origens e o problema humano da culpa. A culpa tem espectros multifacetados na explicação de sua gênese. A fim de ajudar o leitor a compreender algumas questões relevantes relacionadas com o tema da culpa apresentaremos alguns fatores importantes para se compreender o problema da culpa. E discutiremos alguns caminhos teológicos e psicológicos a fim de buscar solução para este dilema humano.

A culpa arquetípica ou primordial na teologia bíblica

O ocidente judaico cristão vai buscar a gênese teológica da culpa no chamado pecado original, o pecado adâmico, quando Adão comeu da árvore do conhecimento do bem e do mal e desobedeceu a Deus, fato este amplamente narrado em Gênesis 2 e 3. Nesta interpretação o homem teria herdado a culpa desta transgressão e já nasce devedor perante o Criador.

A culpa do primeiro homem lhe é imputada e a questão, segundo a qual o homem é pecador porque peca, após adquirir consciência, carece de relevância posto que ele já nasce pecador. Daí não importar a pergunta se o homem peca porque é pecador? Ou se o homem é pecador porque peca? Pecando ou não, segundo a tradição cristã, o homem nasce pecador diante de Deus.

Na teologia bíblica surge um axioma mais consistente, à luz de Romanos 7, o homem peca porque é pecador. O pecado neste caso não se refere apenas a um ato moral consciente, mas à própria natureza humana, (ROMANOS. 7:24). Por inferência podemos afirmar o mesmo sobre a culpa. O ser humano nasce devedor, culpado diante de Deus, embora em sua primeira infância até os quatro anos de idade, o homem ainda não tenha nenhuma consciência de seus atos morais, esta inconsciência não o exime da culpa primordial, por isso, a criança, desde o ventre materno, depende da graça especial de Deus para o perdão desta culpa e para a sua salvação pessoal. No caso da criança cabe registrar que o perdão e a salvação em Cristo lhes são imputados automaticamente pelo Espírito Santo, independentemente de qualquer credo ou vivência religiosa.

Em decorrência desse axioma, o homem peca, porque é pecador. A partir do momento que, em seu desenvolvimento ontogenético, a criança adquire consciência do pecado, ela passa a ser pecadora também porque peca. Neste caso, temos a culpa pela responsabilidade individual sobre uma transgressão cometida perante a lei de Deus. Como pode ser depreendido pela experiência de Caim: “E o Senhor disse a Caim: Por que te iraste? E por que descaiu o teu semblante? Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à tua porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo” (GÊNESIS 4: 6-7). A experiência de Davi no Sl. 51 corrobora assim a experiência de Caim. “Eis que fui nascido em iniqüidade, E em pecado me concebeu minha mãe”
(
SALMOS 51:5). Este relato bíblico, arquetípico, não deixa dúvida sobre a responsabilidade humana sobre os seus desejos e suas ações.

No entanto, este é apenas um lado da moeda, o fator consciente da culpa. No processo de culpabilidade existem ainda fatores inconscientes. O homem pode cauterizar a sua consciência, enganá-la, tal como afirma Isaias ”Tal homem se pascenta de cinzas; o seu coração enganado o iludiu, de maneira que não pode livrar a sua alma, nem dizer: Não é mentira aquilo em que confio” (ISAIAS 44:20).

Negar o pecado, acostumar-se a ele, cauterizar a própria consciência pode livrar o indivíduo da culpa consciente, mas não o livrará jamais da culpa inconsciente. Especialmente, porque o inconsciente é ético e responsável (Jung, 1988). O inconsciente continuará a apresentar a conta a ser paga em decorrência do pecado, perante o pecador. E esta conta torna-se cada vez mais elevada, pois pode traduzir-se em sintomas de doenças psicossomáticas, à semelhança do que ocorreu com Davi no Sl. 32.

A vivência continua da culpa pode baixar o sistema imunológico do sujeito, facilitando o desenvolvimento de enfermidades como foi prefigurado por Davi no Salmo 32, “Enquanto calei os meus pecados, envelheceram os meus ossos pelos meus constantes gemidos todo o dia” (SALMO 32:3). Harold Koenig (2012) afirma que a culpa pode alterar o sistema imunológico da pessoa culpada. Uma pessoa culpada tem mais propensão para desenvolver doenças autoimunes, inflações, infecções etc. ||Português: João Ferreira de Almeida Revista e Atualizada||Salmos||32||3

Quando iniciei na clínica psicologia, há mais de trinta anos, atendi uma mulher, que se queixava de chorar sempre, de forma intensa e copiosa, diante do anuncio na imprensa da morte de uma personalidade importante. A mulher chorava muito, diante do anúncio da morte de uma personalidade pública, um político, um artista, etc. Após uma anamnese bem elaborada, ficou comprovado que aquela mulher aparentemente não tinha nenhuma razão consciente para chorar. No entanto, numa certa consulta, ela relatou que cometera seis abortos e não se sentia culpada por esta prática, considerada comum em sua classe social. Instada a refletir sobre a relação entre o seu choro compulsivo e a morte de seus filhos que não chegaram a nascer, a mulher chegou à conclusão de que estava chorando pelos seus seis filhos perdidos nos abortos cometidos.

A mulher encontrou-se diante de um dilema ético. Assumir a responsabilidade pessoal pelos abortos cometidos e a culpa correspondente ou, permanecer deprimida. Felizmente esta paciente optou por assumir as responsabilidades pessoais pelos atos cometidos e depois de um breve luto, foi curado do sintoma que a afligia.

O recalque consciente da culpa não foi suficiente para eximir a mulher da responsabilidade pelos atos cometidos. O seu inconsciente, todavia, continuava a exigir o pagamento da culpa pelo aborto dos filhos. E quanto à culpa inconsciente graças a Deus, ainda não existe remédio humano, só existe o remédio divino. Parece que Davi orou pelas culpas inconscientes, quando pede perdão pelos pecados que lhes são ocultos da sua própria consciência. “Quem pode discerniras próprias transgressões? ?
Absolve-me das que me são ocultas!
(SALMOS 19: 12)

A culpa na Psicologia

Do ponto de vista psicológico não existe culpa inata. A culpa é produzida pela cultura. O homem adquire o sentimento de culpa em contato com as crenças, as ideologias, os valores, as normas, regras, e as leis da sua cultura e do seu grupo social. O bom argumento em favor da psicologia consiste em que os gregos não conheciam o conceito de pecado e por isso desconheciam o conceito de culpa. Por outro lado, conheciam o conceito de responsabilidade social pelos atos cometidos. E em decorrência estavam arraigados ao conceito de justiça. Algo que muitos cristãos perderam na sociedade contemporânea.

Outro argumento a favor da afirmação da Psicologia, que afirma que toda culpa é adquirida, é a existência do psicopata. Explicando de uma forma muito simples o psicopata é alguém que desconhece a culpa e a reponsabilidade legal pelos seus atos. Antropologicamente a culpa nasce pela internalização da regra da proibição do incesto. O psicopata é alguém que não internalizou a regra da proibição do incesto. Cabe registrar, contudo, que nem todo psicopata é incestuoso. A regra da proibição do incesto é considerada a regra mater. A mãe de todas as regras, de todas as normas, de todas as leis. E encontra-se na base do sentimento de culpa e de responsabilidade social perante as leis. O psicopata desconhece a culpa e suas consequências sociais. Se alguém pode nascer, crescer e viver sem culpa, logo, afirma a psicologia, é difícil comprovar o caráter inato da culpabilidade humana.

O psicopata, portanto, é aquele sujeito que, no momento da formação da sua identidade e consequentemente da sua consciência, na primeira infância, não internalizou o não, a proibição, o limite moral, a lei. Além disso, este pode sofrer uma obnubilação do campo da sua consciência e praticar delitos, os mais hediondos, dos quais não tenha nenhuma consciência depois. O que não o exime da responsabilidade pelos crimes cometidos. Em todo caso o que caracteriza a psicopatia é a ausência de limites éticos e morais. Por desconhecer tais limites, não há registro do bem e do mal na consciência do psicopata. Por esta razão o mesmo desconhece a culpa e o sentimento de culpabilidade. A ausência de culpa torna o psicopata, que envereda pelas sendas do crime, (posto que nem todo psicopata é criminoso) um criminoso de alta periculosidade e crueldade.

Já a sociopatia, distúrbio da consciência de etiologia mais recente, doença da sociedade pós-moderna, gerada nos grandes centros urbanos, caracteriza-se pelo fato do sujeito conhecer, ter consciência do bem e do mal, ter internalizado o não, a lei, a proibição, todavia não sentir culpa alguma por escolher praticar o mal. Tanto o psicopata quanto o sociopata poderiam ter sido classificados por Paulo em Romanos. 1, dentre aqueles que perderam a consciência de Deus e por esta razão, foram punidos por Deus, foram entregues a toda sorte de pecados e transgressões. E infelizmente, não se conhece até a presente data, nenhuma cura, nem para a psicopatia, nem para a sociopatia.

A culpa imputada ou quando a pessoa vira o bode expiatório

São muitos os fatores geradores da culpa. Neste texto necessário se faz destacar a variável psicológica mais importante para a compreensão do problema da culpa. Paul Tournier (1985) classifica como psicológica aquela culpa também denominada de culpa imputada. Neste caso, o indivíduo sofre as conseqüências da culpa de um terceiro sujeito. Esta afirmação tem sustentação na doutrina bíblica do bode expiatório (Levíticos. 16). O bode expiatório, como ficou conhecido era o animal que participava do ritual de expiação, é aquele destinado por Moisés para levar sobre si as culpas do povo. O bode expiatório é um símbolo bíblico de Jesus Cristo, que levou sobre si os nossos pecados. “E Arão porá ambas as suas mãos sobre a cabeça do bode vivo, e sobre ele confessará todas as iniqüidades dos filhos de Israel, e todas as suas transgressões, e todos os seus pecados; e os porá sobre a cabeça do bode, e enviá-lo-á ao deserto, pela mão de um homem designado para isso”
(
LEVÍTICO 16:21)

O sacerdote depositava sobre o bode expiatório, os pecados do povo. Após esta confissão pública, o bode era solto no deserto. O bode expiatório continuava vivo e perambulava em total liberdade, como garantia, de que os pecados do povo estavam perdoados. Este ritual naquele momento da história, anterior à vinda de Cristo, trazia alívio para os seus participantes.

O bode expiatório transformou-se ao longo da história humana, e continua latente e vivo em algumas famílias, igrejas, empresas etc. Nestas geralmente uma pessoa humana termina levando sobre si, sozinha, o pecado, a culpa, o sofrimento e as doenças de todos.

Não é incomum num grupo haver alguém que se destaca pela sua santidade e consagração e ser penalizado por isso. Também em outros grupos é usual que as responsabilidades por todos os erros cometidos sejam atribuídas a uma única pessoa. Esta pessoa geralmente é execrada publicamente, punida isoladamente, e esta execração e punição produz nas demais um alívio momentâneo e a falsa sensação de que todos os outros estão expiados e justificados de suas culpas. É o bode expiatório pós-moderno, é a própria experiência narrada em João. 8 do desafio de Jesus, lançado àqueles que pretendiam apedrejar a mulher adúltera. Neste caso, apontar o pecado de adultério de uma mulher, escondia o pecado de todos.

Como reação ao desenvolvimento da culpabilidade, os judeus criaram técnicas eficazes de projeção da culpa e expiação pelos pecados. No entanto, a diferença entre a medicina judaica daquela praticada na Mesopotâmia antiga era a crença no único e verdadeiro Deus. No judaísmo antigo, YAHWEH é o responsável único e final pela vida e pela morte, pela saúde e pela doença do sujeito. “Eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o mal; eu, o Senhor, faço todas estas coisas” (ISAIAS 45:7).

Tanto os judeus, quantos os cristãos da igreja primitiva jamais atribuíram aos demônios a causa dos seus males ou de suas doenças e infortúnios. A dependência de Deus era absoluta, por isso esperavam tudo de Deus. “Se vivemos, para o Senhor vivemos; e, se morremos, é para o Senhor que morremos. Sendo assim, quer vivamos ou morramos, pertencemos ao Senhor(ROMANOS 14:8).

O conhecimento das diversas enfermidades humanas existentes à época era notável entre os hebreus. O coração era considerado uma entidade espiritual: o centro da vida. Demônios malignos eram considerados causa de insanidade mental, asma, e outros estados obscuros. No Talmude, porém, poderes sobrenaturais são de menor importância na manutenção da homeostasia do sujeito. Dessa forma, a influência do Talmude tornou a medicina hebraica menos mágica do que a medicina da Babilônia e do Egito Antigo.

A antiga medicina judaica é complexa; contudo, a sua base é a imputação da culpabilidade do homem diante de Yahweh, com a consequente necessidade de sacrifício para a expiação da culpa (DAVIDOVICH, 1967, p. 474-478; ISAIAS 53). Os culpados ofereciam diversos tipos de sacrifícios a fim de pagar pelos seus pecados.

No Antigo Testamento, nos livros da Torah, registram-se esses sacrifícios. O sacrifício de animais, aves, ou até mesmo de uma pequena medida de farinha de trigo [conforme a possibilidade da pessoa], é um mandamento da Torah, conforme consta em vários lugares, especificamente no livro de Levítico [Vayicrá, 3º Livro da Torah]. No Novo Testamento, como veremos posteriormente, na carta aos Hebreus, Cristo é apresentado como o sacrifício, o “último cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” [Ad tempora].

E assim todo o sacerdote aparece cada dia, ministrando e oferecendo muitas vezes os mesmos sacrifícios, que nunca podem tirar os pecados;

Mas este, havendo oferecido para sempre um único sacrifício pelos pecados, está assentado à destra de Deus,

Daqui em diante esperando até que os seus inimigos sejam postos por escabelo de seus pés.

Porque com uma só oblação aperfeiçoou para sempre os que são santificados (HEBREUS 10: 11-14).

A fim de extinguir a culpa os sacrifícios são ofertados a Yahweh e são consagrados por várias razões, entre elas:

Os sacrifícios comunais, realizados em nome de toda a congregação, com acréscimo [Mussaf] nos dias especiais. Os sacrifícios coletivos, geralmente realizados pelo sumo sacerdote, destinava-se à cura de todo o povo de Deus reunido em frente ao templo (DAVIDOVICH,1967 p. 474-478); B) Sacrifícios individuais, que se destinavam à cura de males que acometiam o indivíduo, especialmente aqueles relacionados ao pecado. Assim, na evolução da medicina judaica do mundo bíblico, o sacrifício vai adquirindo várias conotações simbólicas como exposto a seguir.

Sacrifícios para pedir perdão de certos pecados cometidos contra Yahweh e seus filhos (MATEUS 5). Nesse caso, o sacrifício é aceito somente se a pessoa se arrependeu completamente da falha cometida. Cabe registrar que o conceito bíblico de arrependimento é diferente do sentimento de remorso. [No rito da Igreja Católica encontra-se a confissão, condição fundamental para comungar o corpo de Cristo].

O arrependimento é a mudança de atitude em relação à falta ou ato cometido. Já o remorso é o sentimento de tristeza pelo pecado cometido. Pode haver remorso sem arrependimento. No entanto, o arrependimento é sempre acompanhado de remorso. A libertação da culpa exige o sacrifício e a aceitação deste, por Yahweh, depende essencialmente do arrependimento. Apenas pedir perdão não é suficiente. É necessário o arrependimento sincero, um ato puramente subjetivo (SALMOS 32; SALMO 51).

O arrependimento, para ser sincero e aceito por Yahweh precisa de um método de maior eficácia: o sacrifício. O efeito de uma frase como me desculpe, eu errei, não se compara à impressão visual produzida pela violência simbólica de participar de todos os detalhes de um ritual de sacrifício, da morte do animal até a parte final, quando a carne e outras partes eram queimadas no altar (GIRARD, 1990, p. 13). Encontramos também o sacrifício por meio do jejum, para purificação ou mesmo como promessa para alcançar alguma graça. O que em si é um paradoxo já que graça é um favor imerecido. O ritual do sacrifício estimulava a pessoa a pensar sobre o sentido da falta cometida, seu impacto sobre a vida e a morte e a se perguntar sobre o preço da falta cometida. A identificação com o animal sacrificado colocava o sujeito frente a frente com a finitude e as limitações humanas ante o tempo e o espaço. Em síntese, refletia-se sobre como e quanto o outro poderia ter sido prejudicado pelo ato do faltoso.

O Dia do Perdão é o ponto culminante do sacrifício na cultura judaica. Durante um longo ano, comete o homem toda sorte de erros e pecados, atropelos voluntários e involuntários. O processo da teshuvá [arrependimento, deixar o mundo e se voltar para Deus] não poderá ser realizado magicamente em um dia. A tradição judaica coloca o mês de EluI, último do ano, como prefácio para ir preparando o homem para a reflexão profunda, até o grande caminho interior. Cedo, nas manhãs de Elul, ouve-se o som do shofar: Desperta povo! Uma semana antes de Rosh Hashaná, também durante a madrugada, são ditas as orações chamadas selichot [perdões]. O 1º de Tishri é o grande dia, a base para um ano novo e um novo ano de vida. Depois seguirão nove dias até o dia do perdão. Ou seja, dez dias para aprofundar-se dentro de si, afastar o mal, aproximar o bem. O processo chega a sua culminância no dia 10º de Tishri: Iom Kippur.

Em agradecimento a Deus por algum milagre ou benefício que aconteceu à pessoa. Na realidade trata-se de um sacrifício de louvor e adoração. O sacrifício era oferecido não apenas como expiação pelos pecados, mas também como adoração e submissão à divindade. Os sacrifícios não detinham somente uma função expiatória, consistiam também em atos de adoração e de ação de graças por um beneficio alcançado de Yahweh.

Outra classe de sacrifícios era aquela oferecida para aproximar-se de Deus. Este tipo de sacrifício não tem nada a ver com o pagamento do pecado. Era uma oferenda de aproximação. Por isso a palavra sacrifício em hebraico é corban, do mesmo radical que significa aproximação. O sacrifício era um meio de aproximação com Deus e só funcionava quando a pessoa sacrificava do âmago do seu coração. Esse é sacrifício típico da busca de comunhão com Deus praticado até hoje pelos judeus ortodoxos (DAVIDOVICH,1967 p. 8-402).

No rito cristão católico, também, encontramos na quaresma um tempo litúrgico de conversão, em que algumas igrejas preparam os fiéis para a festa da Páscoa. Durante esse período, os fiéis são convidados a um período de penitência e meditação. Isso ocorre sobretudo, na liturgia do domingo, quando ocorre um esforço na recuperação e conversão dos fiéis que pretendam viver em comunhão com Cristo. No protestantismo histórico, temos a proclamação de jejuns, especialmente em tempo de crises. Já no pentecostalismo o jejum foi reabilitado como uma forma de sacrifício para se alcançar uma graça como uma forma de sacrifício aceitável a Deus.

A iconoclástia protestante eliminou quase toos os ritos relacionados ao arrependimento. No mais das vezes, nas igrejas pentecostais e neopentecostais os ritos, ditos sacrificiais, como o jejum ou a oferta por exemplo, são utilizados para se fazer barganha com Deus, a semelhança da barganha de alguns católicos com seus santos de devoção. A idéia de barganha não só fere o caráter de Deus, porque atribui a Deus as mesmas paixoes e fraquezas humanas, posto que cria a idéia de é possivel comprar o favor divino, como anula completamente o conceito de grsça divina como um favor imerecido.

A expiação, Kippur, na raiz hebraica, refere-se ao “que cobre”, a expiação, ou seja, o castigo que envolve o ato perverso. Tudo o que se pode anular, deter ou parar é o castigo, mas não o ato cometido; esse ato está aí, e a única maneira de superá-lo é com uma transformação espiritual do homem interior e da conduta pessoal posterior. Os atos são do homem, seguirão sendo dele, e a consequência, sua responsabilidade.

Deus pode apagar o castigo, não o ato (RAD, 1973, p. 247-258). O pecado, assim, é perdoado e esquecido por Deus, mas não o será certamente pelo pecador e pela comunidade que sofreu a transgressão. A imagem mais apropriada para entender o que ocorre é aquela do prego que é fixado na madeira. Retira-se o prego, fica o buraco, a marca!

O jejum – que acompanha todo o dia do perdão – por sua parte, não faz milagre. O jejum do dia não sacrifica nada a favor de Deus, sendo que tal ideia seria eminentemente pagã. O efeito do jejum consiste em fazer o homem meditar na falta cometida e reencontrar seu próprio centro moral.

Observa-se também que as más ações ou transgressões têm suas polaridades: uma do homem em relação ao homem, e a outra do homem em relação a Deus. A primeira é a da vida diária, exterior, social e inter relacional. A outra, do âmbito da alma, é o segredo da consciência. A primeira é coisa dos homens, e os homens têm de resolvê-la. As transgressões vão de uma pessoa a outra, não são expiadas pelo Iom Kippur, se antes, não forem perdoadas pelo próximo (MATEUS 5). Daí que na oração do Pai Nosso costuma-se pedir previamente o perdão de nossos semelhantes, com a condição: se eles não nos perdoam, Deus tão pouco nos perdoará. As transgressões podem ser perdoadas por Deus, mas talvez não pelo homem. São pontos diferentes, mas nem sempre divergentes, ou o perdão de Deus está subjugado ao perdão do próximo? Teologicamente, o perdão de Deus é unilateral, incondicional, total e eterno! Deus perdoa os pecados passados, presentes e futuros: “Agora pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus!” (Rm 1:8).

O sacrifício é um ritual psicologicamente complexo. Girard acredita que a crise sacrificial e o mecanismo da vítima expiatória formam o tipo de acontecimento que satisfaz todas as condições que dele se possam exigir para o pagamento da culpa e o restabelecimento da paz (Girard, 1990, p. 57-91). O que é incontestável é a presença, na origem das sociedades humanas, do sacrifício. O sacrifício tem papel central na relação com o sagrado e na expiação da culpa.

O pecado e a culpa geram a destruição do equilíbrio e da frágil paz do cosmo. Para restabelecer a anomia quebrada pela violência real ou simbólica, necessário se faz sacrificar uma vítima substituta. A vítima expiatória representa a violência de todos, a violência unânime. Seu sacrifício destina-se a acabar com a crise sacrificial, que se situa na origem de um novo sistema de paz. Somente a vítima expiatória é capaz de interromper o processo de destruição que se iniciou com a transgressão e restabelecer a paz. O sacrifício encontra -se na origem de todo e qualquer movimento de reestruturação para restaurar o nomos no cosmo. A violência contra a vítima expiatória é arquetípica, pois, ao acabar com o círculo vicioso da violência, inicia ao mesmo tempo, outro nos dois tempos, pois mantém e reforça a ideia do rito sacrificial, que talvez seja a gênese da totalidade da cultura. Isso se pode comprovar em todos os mitos arquetípicos que se referem ao assassinato de uma criatura mítica por outras criaturas míticas (FRAZER, 1980). Da divindade morta, proveem os ritos, as regras matrimoniais, as proibições, enfim, todas as formas culturais que conferem ao ser humano sua humanidade.

O relato mítico do rito sacrifical evoca as rivalidades da crise sacrificial. É compreensível que todas as atividades humanas, e até mesmo a vida da natureza, estejam subordinadas a essa metamorfose da violência no seio da comunidade. Quando as relações se encontram perturbadas, quando os homens deixam de se entender e colaborar, todas as atividades ficam prejudicadas. Os benefícios atribuídos à violência fundadora do sacrifício religioso vão, portanto, exceder de maneira prodigiosa o quadro das relações humanas. O assassinato coletivo do rito sagrado é a fonte da fertilidade, o princípio da procriação, pois o sangue da vítima primordial representa a vida. Então, pelo sacrifício [morte], há a semente da vida [sangue]. Nesse caso, o homem acredita que a violência gera a paz. “Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo caindo na terra não morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito fruto” (JOÃO 12:24).

A vítima expiatória em Atenas chamava-se pharmakós. Em grego clássico, pharmakós significa, ao mesmo tempo, o veneno e o seu antídoto, o mal e o remédio. Consiste em uma droga conhecida somente por alguns homens. Poucos possuem conhecimento suficiente para produzi-la (GIRAD, 1990, p. 123-132). A vítima sacrificial grega, pharmakós, era sacrificada quando havia ameaça de desgraça sobre a cidade. Então, o sacrifício era realizado para se fazer a paz, restabelecer o equilíbrio ameaçado para que houvesse um desfecho satisfatório, utilizando o mecanismo da vítima expiatória.

No sujeito religioso, quando o rito perde seu efeito ou não cumpre mais o seu propósito expiatório, o sofrimento psíquico, a doença e a depressão ocupam o lugar do sacrifício. A depressão sacrifica a libido, a energia do próprio indivíduo no ritual psicológico de expiação de uma culpa cujas causas são desconhecidas. O deprimido, aqui, é ao mesmo tempo a culpa, o sacrifício e o ritual expiatório. O sujeito é o sacrificador e o sacrificado de si mesmo. Todo o sofrimento vivenciado na depressão equivale ao sofrimento da vítima sacrificial. O deprimido acredita que rompeu a sua ordem cósmica por um ato real ou imaginário. Acredita também que seu sofrimento é necessário para restabelecer esse nomos. No entanto, quanto mais sofre, mais sente culpa e aumenta a vontade de sofrer gerando um sacrifício do ego, em um ritual sadomasoquista auto infligido.

O sujeito permanece desse modo, aprisionado num círculo fechado de culpa, arrependimento, sofrimento, auto expiação, transgressão e culpa. A compulsão segue este modelo, como a compulsão sexual por exemplo.

A natureza dos animais a serem sacrificados e suas relações com a natureza humana. Na Bíblia e, posteriormente no judaísmo antigo, os animais casher usados para sacrifícios eram de três tipos: boi [ou vaca], bode [ou cabra] e ovelha (RAD. 1990.p. 258-266). Cada um representa um tipo diferente de personalidade. A finalidade da oferenda era “sacrificar” a natureza humana [cada um conforme seu tipo]. E era isso que aproximava a pessoa de Deus (RAD, 1990. p. 258-266).

O sacrifício do Boi. O Boi é símbolo da força bruta. Em hebraico Aleph, a primeira letra do alfabeto, significa touro. No Egito, o boi é Apis e é adorado em Mênfis como deus, como originário da letra “A”, que virada de cabeça para baixo é a representação estilizada da cabeça de um boi (RAD, 1990, p. 258-266).

A tipologia humana do boi representa aquele que sempre tem uma palavra áspera na língua, que fala com ironia, que gosta de ressaltar os defeitos do próximo, e cujos próprios defeitos são óbvios; o boi representa, em seus aspectos positivos, a calma, a tranquilidade e a bondade. Em seus aspectos negativos, representa o poder das paixões, os ímpetos irresistíveis. “Na Grécia Antiga, os touros selvagens simbolizavam o desencadeamento da violência” (RONECKER, 1997, p. 288-289). No Velho Testamento, era considerado o animal preferido para o sacrifício pelos pecados. A relação simbólica do deprimido com o boi aparece na irritabilidade do deprimido sempre pronto a se defender da vida e de todos.

O bode, cuja natureza é ousada e obstinada, representa a dificuldade a mudanças. Representa na tipologia humana, aquele que não aceita opiniões ou sugestões de outrem, o que sabe tudo. Representa ainda a teimosia obstinada em suas convicções (DAVIDOVICH, p. 211; 342; 674). Em seus aspectos negativos, representa a passividade do deprimido frente às demandas da vida.

O bode expiatório é um animal que era apartado do rebanho e deixado só na natureza selvagem como parte das cerimônias hebraicas do Yom Kippur, o Dia da Expiação, na época do Templo de Jerusalém. Este rito é descrito na Bíblia no livro do Levítico. “Arão porá ambas as mãos sobre a cabeça do bode vivo e sobre ele confessará todas as iniquidades dos filhos de Israel, todas as suas transgressões e todos os seus pecados; e os porá sobre a cabeça do bode e enviá-lo-á ao deserto, pela mão de um homem à disposição para isso” (LEVÍTICOS 16:21).

O bode expiatório introduziu na cultura cristã outra variável geradora de culpa, que é aquela que (TOURNIER (1985) classifica como psicológica e que também denomina de culpa imputada. Nesse caso, por meio de uma formação reativa, o sujeito sofre as consequências da culpa de um terceiro elemento. O bode expiatório é considerado, na teologia cristã, um símbolo bíblico de Jesus Cristo, que levou sobre si os nossos pecados. O sacerdote depositava sobre o bode expiatório, pela confissão, os pecados do povo. Após essa confissão pública, o bode era solto no deserto. O bode expiatório continuava vivo e perambulava em total liberdade, como garantia de que todos os pecados do povo estavam perdoados. Esse ritual, naquele momento da história, anterior à vinda de Cristo, trazia alívio para os seus participantes. Tal afirmação tem sustentação na doutrina bíblica do bode expiatório (LEVÍTICOS 16), como ficou conhecido o animal que participava do ritual de expiação, que é aquele destinado por Deus para levar sobre si as culpas do povo.

Ao longo da história humana, o bode expiatório transformou-se, e continua latente em algumas famílias, igrejas, empresas etc. Nestas, geralmente uma pessoa leva sobre si, sozinha, o pecado e a culpa de todos os demais. O bode expiatório e o santo caminham de mãos dadas no mesmo grupo humano. Um legitima o outro.

Não é incomum em um grupo de “pecadores contumazes” haver alguém que se destaca pela sua santidade e consagração a ser penalizado por isso. No mesmo grupo, é usual que a responsabilidade por todos os erros cometidos seja atribuída a uma única pessoa. Esta geralmente é execrada publicamente, punida isoladamente, e esta execração e punição produzem nos demais um alívio momentâneo e a falsa sensação de que todos os outros estão expiados e justificados e isentos de suas culpas e responsabilidades morais e sociais. É o bode expiatório pós-moderno Ele é a garantia de que todos os demais são “santos”.

O bode expiatório geralmente é apresentado, com orgulho, como a ovelha negra da família. É a própria experiência da mulher adúltera narrada em João 8. A situação daquele que serve de bode expiatório é mais delicada. Ele termina por levar sobre si não somente as culpas dos demais, que continuam livres para viver e pecar, como carrega ainda o fardo das doenças do grupo a que pertence. Não raro, o sujeito que faz o papel de bode expiatório adoece, torna-se o sintoma do grupo. O deprimido em algumas famílias ocupa o lugar de bode expiatório. Ele adoece como sintoma da família. A depressão, muitas vezes, funciona como expiação dos pecados da família, como sintoma dos conflitos e problemas familiares não ditos e não resolvidos.

A ovelha, cuja natureza é dócil, que não faz grandes estragos e é fácil de ser subjugada, porém, tem um apetite insaciável (DAVIDOVICH,1967 p. 211; 342; 674). O ser humano que se compara à ovelha é uma pessoa boa por natureza, sem defeitos aparentes, mesmo assim tem que trabalhar para refinar-se nas pequenas coisas. Geralmente a ovelha tem complexo de Pollyana.

A Síndrome de Pollyana baseia-se na história da menina que enxergava mundo em cor-de-rosa, sempre submissa, otimista, cordata, feliz, acreditando no melhor da vida e das pessoas. Em sua forma positiva ela sensibiliza pelo amor, bondade e pureza de sentimentos capaz de transformar seu mundo. Em seu sentido negativo, se traduz na fuga da realidade, com tendência a enxergar o mundo, situações e emoções de forma ingênua e inconsequente. As vezes beirando o servilismo. O preço para se tronar uma Pollyana é muito alto, pode ser a anulação de si mesmo, a morte existencial.

Pollyana, em outras palavras, é aquela pessoa que aprendeu a controlar suas vontades, subjugar suas paixões, refinar seus instintos naturais e, com tempo e muito esforço, transformar sua natureza. A natureza reprimida, nesse caso, revolta-se contra o sujeito. A libido, que deveria ser projetada no mundo, introjeta-se gerando uma falsa docilidade e, como consequência final, a depressão, não raras doenças graves.

Em oposição a Pollyana, em nossa cultura, o bode expiatório foi substituído pela ovelha negra da família. Toda família de santos tem uma ovelha negra. A ovelha negra transgride as regras impostas pela sociedade, excede os limites ditados pela religião. Embora todos condenem o que ela faz todos a apresentam com certo orgulho: esta é a ovelha negra da família. Este é o papel que aquela família lhe destinou. A ovelha negra serve de espelho invertido para o santo da família, e vice-versa.

Por outro lado, a ovelha negra presta um relevante serviço ao grupo e por isso mesmo é regiamente recompensado, seja através de farta distribuição de afeto por parte dos membros daquele grupo, seja por meio da atração da atenção de todos. Os grupos cristãos que padecem desse mal da criação e manutenção de bodes expiatório deveriam refletir sobre Isaias. 53:4-6. Neste texto Jesus é apresentado como o cordeiro de deus que tira o pecado do mundo, isto é, como aquele que realmente está habilitado e capacitado para levar sobre si mesmo todos os nossos pecados e nos livrar das nossas culpas. Não é mais necessário a presença de uma ovelha negra para resolver o problema da culpabilidade humana.

Existe outra forma de culpa menos comum, que chamaremos aqui de culpa imputada ou imposta. Esta expressão de culpabilidade se refere àquela culpa que o indivíduo sente, por ter sido obrigado a participar de um pecado, uma transgressão, um delito, praticada por um terceiro, contra a sua vontade. Na Psicologia esta forma de culpa é pesquisada pelo conceito de trauma transgeracional ou intergeracional. O exemplo mais comum desta forma de imposição de culpa pode ser aquele da mulher que sofre um estupro.

A mulher estuprada luta desesperadamente contra o seu agressor, mas vencida pela força, pela coerção e pela ameaça, sente -se compungida e obrigada a ceder. Após a experiência de estupro sente-se profundamente culpada, como se ela própria houvesse praticado aquele ato hediondo. Claro que uma mulher estuprada não pode ser considerada culpada pelo estupro. Uma vítima não pode ser culpada pela violência sofrida.

A culpa que no mais das vezes se desenvolve na mulher em decorrência do estupro, pode ter sido assimilada pela vítima como sua num processo chamado de A Síndrome do Pequeno Poder (AZEVEDO e GUERRA, 1989). Em todos os casos de estupro, que este pesquisador acompanhou, além da violência sofrida, a mulher violentada tende a sofrer uma culpa enorme. Tal culpa pode ser gerada pela sociedade que imputa de forma cruel e injusta a culpa pelo estupro sofrido à própria vítima, ou mesmo pela identificação projetiva da vítima com o agressor. De qualquer modo, é culpa mesmo e gera um sofrimento imenso e doloroso.

Aquele que que sofre abuso sexual ou físico, por exemplo, termina por identificar-se com o agressor, com o abusador. Neste processo, afim de eximir o abusador da culpa que lhe pertence por direito, a vítima assume a culpa toda, ou parte dela, como se ela, a própria vítima tivesse praticado o hediondo crime do estupro.

Nos casos acima citados, na culpa imputada, o risco que o sujeito que é exposto a este tipo de experiência, corre é o de acostumar-se com a culpa, reproduzindo constantemente as situações que geraram os sentimentos de culpa. E até mesmo padecer de uma culpa profunda, sem uma causa aparente. Em outras palavras, é como se a memória da culpa, que se encontra gravada em sua mente, fosse constantemente reavivada, fazendo o sujeito sentir os mesmos sentimentos da experiência traumática.

O sentimento de culpa parece universal, pelo menos no ocidente judaico cristão, com uma gradação, variando da culpa maior à menor, dependendo da sensibilidade da consciência associada à vivência de tal experiência. Cabe registrar que existem manifestações patológicas deste sentimento num contínuo que varia desde aqueles que não sentem culpa nenhuma, por nada que hajam praticado, até aqueles, cujo sentimento de culpa é tão profundo que não aceitam, sequer, que tenham sido perdoados por Deus, através de Jesus Cristo. No primeiro caso temos a expressão patológica da psicopatia e da sociopatia (SCHNEIDER,1968). Já o segundo caso é comum na experiência de depressão.

Os judeus e os cristãos, por seu turno, desenvolveram com esmero a cultura da culpabilidade (DELUMEAU, 2003, p. 9-19). A culpa estava diretamente relacionada à violação de qualquer princípio sagrado. A violação da vontade de Deus revelada no Monte Sinai representava uma grande transgressão, que exigia a punição, aplicada especialmente pela morte do culpado ou por um complexo sistema de expiação, pela morte do seu substituto. No judaísmo antigo, a culpa encontra-se na base da compreensão da doença, pois considera a enfermidade resultado direto da violação de um tabu ou preceito divino (DEUTERONÔMIO 28). Tal conceito ficou tão arraigado na cultura judaica que Davi pedia perdão até por aqueles pecados cometidos, e eventualmente desconhecidos, pela sua consciência (SALMOS 19). O tratamento efetivo para a enfermidade, na concepção religiosa, é a confissão e a expiação por meio do pagamento da culpa, penitência, castigo e, ou da auto expiação pela própria doença (SALMOS 32).

Na Europa da Idade Média, cada vez que a peste bubônica, bem como outras enfermidades infecciosas epidêmicas, aparecia, as pessoas se aglomeravam nas catedrais para pedir a Deus o perdão pelos seus pecados. Rogavam também para não serem castigados com aquelas enfermidades tão cruéis; naturalmente este comportamento contribuía para aumentar o contágio entre a multidão de fiéis e milhares adoeciam e morriam (TAMAYO, 1988, p. 39).

Dentre aquelas expressões patológicas, marcadas pela recorrência do sentimento extremado de culpabilidade destacam-se a culpa neurótica e a psicótica Otto Fenichel, (1981). A culpa neurótica é aquela que tem um caráter circular, repetitivo, que segue de modo geral o seguinte esquema: prazer marcado pela transgressão, pelo pecado; seguido de culpa, marcada pelo remorso; auto- expiação da própria culpa, marcado pelos sacrifícios auto – imposto; alívio e prazer; seguido novamente de pecado, pelo que se retoma todo este ciclo desde o começo, num movimento continuo e indefinido. Este é o círculo fechado e vicioso da compulsão. Um exemplo concreto desta expressão de culpa é aquele que aparece na Bulimia. Esta é uma doença que acomete geralmente mulheres bonitas, modelos, manequins etc. A bulimia, dentre outras características, apresenta algumas que serão elencadas a seguir.

A mulher que sofre de bulimia, tem uma profunda dificuldade de auto aceitação, baixa autoestima e uma distorção preceptiva do própria corpo, o qual é percebido como sendo obeso. Estas distorções causam-lhe um profundo sentimento de culpa com relação ao ato de comer. A mulher bulímica por vezes alimenta-se de maneira excessiva, sentindo prazer com a refeição, mas logo em seguida sente culpa.

A culpa é tão grande que produz um profundo sofrimento psicológico, levando a mulher que padece desta enfermidade a vomitar tudo o que ingeriu. O vômito funciona como um ritual de auto – expiação. Logo em seguida ao vômito, vem o sentimento de prazer e de alívio levando à nova ingestão de alimentos, que, por sua vez gera culpa, repetindo todo o ciclo. Felizmente, a bulia tem cura. Além do socorro de Deus, por intermédio do seu Espírito Santo, é necessário procurar ajuda de um profissional especializado. É preciso admitir que muitos cristãos vivem aprisionados por este esquema de culpa neurótica.

Outra expressão patológica da culpa é aquela que se expressa como um dos sintomas de uma psicose, de uma esquizofrenia. Neste caso o sentimento de culpa se apresenta como parte de uma doença grave e crônica, cuja forma mais comum é conhecida pelo nome de Psicose Maníaco Depressivo ou Transtorno Bipolar de Humor. Nestes casos o sentimento de culpa é tão intenso e marcado por tão grande angústia e tristeza que o indíviduo perde inclusive a capacidade de crer no perdão do próprio Deus por intermédio de Jesus Cristo. Além da ajuda de Deus, temos hoje em dia possibilidade de controle desta enfermidade, por meio de medicação adequada e da psicoterapia apropriada.

À medida que a enfermidade cede e o sujeito recupera a sua consciência, o sentimento de culpa tende a diminuir. Em todo caso, na depressão a percepção do perdão de Deus fica distorcida, comprometendo igualmente a vivência pessoal deste perdão. As pessoas que sofrem deste tipo de culpa necessitam da ajuda de profissionais especializados, além do devido aconselhamento pastoral bíblico.

Outro caso é o daquela pessoa que sobreviveu a um acidente, no qual perdeu um ente querido e que pode vir a ser atormentada por um sentimento que lhe diz que ela é que deveria ter partido. Neste caso o sentimento de culpa manifesta-se através do desejo de se unir ao falecido e produz um sofrimento intenso no sujeito que continua vivo.

Conderações Finais

Como se vê, são inúmeros os fatores que se encontram na etiologia do sentimento de culpa e inúmeras as conseqüências que o mesmo pode produzir na pessoa, bem como inúmeras são as expressões humanas deste sentimento.

Entretanto, o sentimento de culpa geralmente apresenta-se como sintoma do pecado e da transgressão. Mas, num processo de feedback, a culpa poder transformar-se na causa de inúmeros problemas humanos. Jung (1988) relacionou algumas das conseqüências da culpa para o indivíduo: isolamento social, solidão, depressão, angústia, ansiedade, tendência suicida, insônia, e demais distúrbios psicossomáticos tais como asma, bronquite, prisão de ventre, até doenças mais complexas como algumas manifestações de câncer. A Bíblia também faz referência a algumas doenças relacionadas com a culpa. A leitura e reflexão em passagens tais como Gênesis. 4:1-7, o Salmo. 32, e Mateus. 9:1-8 são suficientes para se ter uma idéia do estrago que a culpa pode provocar na alma e na saúde física, espiritual e mental do homem.

Na Europa da Idade Média, cada vez que a peste bubônica, bem como outras enfermidades infecciosas epidêmicas, aparecia, as pessoas se aglomeravam nas catedrais para pedir a Deus o perdão pelos seus pecados. Rogavam também para não serem castigados com aquelas enfermidades tão cruéis; naturalmente este comportamento contribuía para aumentar o contágio entre a multidão de fiéis e milhares adoeciam e morriam (TAMAYO, 1988, p. 39).

Nem as abordagens teológicas, nem as abordagens psicológicas parecem suficientes para resolver o problema da culpa humana. O homem, cristão ou não, torna-se o único responsável pelos seus atos. Assumir a reponsabilidade pelos seus atos, diante de Deus, de si mesmo e do outro pode significar autonomia e maturidade espiritual e psicológica. Aquele que continua culpando o outro pelos seus atos, permanece em seu estado psicológico como uma criança, sem maturidade, sem responsabilidade sem solução.

Toda pessoa pode sentir culpa em algum grau. A culpa tem sido responsável pelo aperfeiçoamento do espírito humano ao longo dos séculos. Não existe um remédio eficaz para esse mal. Tournier apontou a graça de Deus como a melhor solução que se conhece para o problema da culpa. Talvez ele tivesse razão, se considerarmos a justificação como uma expressão da graça especial de Deus para todos os homens (Tournier, 1985). Paul Tournier, (1985) apontou a graça de Deus como a melhor solução que se conhece para o problema da culpa. Tournier talvez tivesse razão, se considerarmos a justificação como uma expressão da graça especial de Deus.

Este autor, contudo, trata da culpa de forma diferente de Paul Tournier. De acordo com os nossos estudos, a solução para o sentimento de culpa encontra-se na carta de Romanos. Neste ponto a contribuição desta reflexão para a solução do problema da culpa será apresentada a seguir, quando passaremos a analisar o trecho de Romanos. 1:16-17.

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Antonio Maspoli
Antonio Maspoli
Sou Antonio Maspoli, cidadão do mundo, Teólogo e Psicólogo. Deus é a minha herança pessoal, meu caso de amor! Deus encantou-me com o a sua presença. E abriu-me as porta do conhecimento do numinoso: "Eu cri, por isso compreendi" (Agostinho). Desde então dediquei a minha vida a conhecer a Deus. E a minha existência a compreender a natureza humana.

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