O que é Psicanálise?

As representações sociais e o estudo do fenômeno do campo religioso
5 de junho de 2019
Análise: Um Método Perigoso
26 de junho de 2019

O QUE É PSICANÁLISE ?

Dr. Antonio Maspoli

INTRODUÇÃO

A Psicanálise interessando-se pelo comportamento normal e anormal, afastou-se dos caminhos normais percorridos pelas outras escolas. Além de ela ser uma técnica psicoterápica específica, ela buscou ser uma Psicologia geral do comportamento do homem, do seu comportamento mental. Seus métodos e até mesmo o seu nascimento em nada se assemelha com as escolas tradicionais e movimentos da Psicologia.

Embora tenha sido influenciada pelos conceitos darwinianos e tenha algumas bases fisiológicas, a Psicanálise não tem suas raízes na fisiologia. Ela é atomista e não teve nenhuma relação com laboratórios ou pesquisas com animais. A Psicanálise é influenciada pelos princípios de Medicina e Psicologia Clínica.

Na idade média, alguns trabalhos de monges já traziam configurações de caráter psicanalítico. Podemos citar como exemplo “Martelos para Bruxas”, escritos desta natureza encontrados na idade média. Também desta época, declarações de PHILIPPE PINEL de que as pessoas mentalmente desajustadas não eram possuídas de demônios, (conforme se imaginava na época) e em vez de tais pessoas serem perseguidas e humilhadas, estas pessoas necessitavam de cuidados e atenções da parte das pessoas mentalmente sadias.

DESENVOLVIMENTO

A Psicanálise nasceu realmente com SIGMUND FREUD, natural de Freiberg na Morávia. FREUD nasceu em 1856, estudou Medicina da Universidade de Viena, onde passou a maior parcela de sua vida. Foi fisiólogo e na medicina aprendeu o emprego da hipnose no tratamento de pacientes histéricos. FREUD aprendeu tal emprego da hipnose com CHARCOT. Foi nas experiências com hipnose que FREUD despertou seu interesse pelo comportamento anormal, suas causas e suas consequências.

Terminando seus estudos de Medicina, FREUD montou uma clínica particular em Viena, e emprega a hipnose no tratamento de distúrbios neuróticos sendo bem sucedido. Tempos depois FREUD passa a trabalhar com BREUER, que também aplicava a hipnose em tratamentos com pessoas mentalmente anormais. Com BREUER, FREUD publica “Estudos Sobre a Histeria” obra em que eles tratam da relevância da mente. Ao separar-se de BREUER, FREUD já está com seus conceitos de Psicanálise bem desenvolvidos e ele já não utiliza o método hipnótico, passando a usar já que ele próprio havia desenvolvido a Psicanálise propriamente dita, com seu método de livre associação.

A Psicanálise de FREUD é uma teoria da personalidade, é uma filosofia da natureza do homem. É uma especialização no procedimento da psicoterapia. FREUD baseou-se nas concepções da mente inconsciente ativa, de tipos sugeridos por SHAKESPEARE, GOETHE, BRENTANO e outros. FREUD teve caráter de maior participação na Psicanálise porque ele não apenas especulava, ele aplicava os seus métodos na prática.

Para FREUD o que nos parece determinado e irracional como fortuito, não é, quando descobrimos suas causas e conhecemos profundamente sobre tais causas. Também segundo FREUD todo e qualquer ato, mesmo do pensamento é sempre motivado por alguma causa ou fenômeno, a força humana, a força responsável pela motivação dos atos é o “libido”. O libido é um impulso violentamente egoísta, agressivo e sexual, que constitui o “ID”. O “ID” é um componente arcaico e inconsciente do sistema de energia psíquica, que informa a estrutura da personalidade e dinamiza o comportamento humano.

Segundo FREUD, todos nós possuímos uma força criadora de caráter sexual, responsável pelo prazer e auto preservação denominada “eros”, e também uma força de caráter agressivo, destruidor, que nos impulsiona para a morte, o tânatos.

Ainda segundo FREUD, somos acometidos de impulsos e devemos manobra-los e segui-los de modo a satisfazer os nossos desejos sem violar as leis da sociedade. Esta busca de harmonização leva ao desenvolvimento do “ego”, o intermediário entre o princípio e o prazer, representado pelo “ID”, e o princípio da realidade que domina as nossas relações com o meio. O “superego”, que vulgarmente por consciência é o responsável pela tarefa socializante do indivíduo.

Temos pois três componentes básicos do nosso sistema psíquico, que se encontram permanentemente numa internação, “numa verdadeira batalha”, de caráter constante. O “IC” em busca de sua satisfação irracional. O “ego”, a procurar um ajuste para as exigências e impulsos do “ID” ao mundo da realidade. O “superego” que teme reprimir ou aprovar o impulso que seja socialmente moral e socialmente louvável, ou que seja socialmente reprimível.

Cabe a difícil tarefa de medianeiro entre o “IC” que diz “eu quero” e o “superego” que diz “não posso” ou “não devo”, sem contar o implacável e realista que cerca e reina entre ambos.

O processo da Psicanálise ou tentativa de determinar ou desvendar os determinantes inconscientes irracionais, que usualmente se encontram e vagueiam nas experiências infantis, envolve primordialmente a livre associação e interpretação de ideias e dos sonhos do paciente.

Na livre associação o paciente relata tudo o que lhe acuda ao espírito, tentando suplantar a censura do “ego”. Trata-se de uma comunicação e um diálogo, isto é, de caráter verbal. De ordem simbólica e que o analista terá que interpretar, no confronto com a própria linguagem usada pelo paciente.

Para a Psicanálise a vida é um conflito. O indivíduo é cercado pelo seu semelhante e este tem seus próprios intentos pessoais, e o indivíduo é cercado também por forças com leis mais ou menos imutáveis. Realidade é o termo usado pela Psicanálise para definir todas estas forças e situações gerais que o indivíduo tem que enfrentar para sobreviver. Desde a sua vida intrauterina que o indivíduo enfrenta problemas para a sua sobrevivência que o induz a um comportamento mórbido.

Para a Psicanálise, a compreensão das causas que levaram a tal morbidez, a compreensão do aparelho mental, é de grande relevo no diagnóstico do que se pode chamar componente psicológico de tais processos mórbidos.

Depois de FREUD outros continuaram na Psicanálise, tendo alguns até desenvolvido métodos significativos baseados nos princípios de FREUD:

  1. CARL GUSTAV JUNG, que através de desenvolvimentos da Psicanálise fundou a Psicologia Analítica que dá ênfase a introversão e extroversão a determinadas funções mentais do sentir, perceber, intuir que JUNG classificou por disposições da consciência.

  2. ALFRED ADLER, que criou conceitos psicanalíticos mais simples que FREUD e JUNG.

CONCLUSÃO

FREUD derrubou a linha de demarcação entre a ciência natural e a ciência mental, tornou mutuamente compreensivas estas ciências, enquanto antes do advento da Psicanálise elas eram estranhas. Também a Psicanálise como toda ciência humana apresenta imperfeições ela é dualista, ela reconhece os distúrbios, mas os seus métodos científicos são insuficientes para exterminá-los.

Podemos dizer também que a Psicanálise é portadora de grande significação para a Psicologia e para a ciência em geral. Ela é a primeira tentativa para resolver problemas de ordem fisiológica e psicológica ao mesmo tempo. Ainda é cedo para prever ou enumerar os resultados da Psicanálise para o homem. No futuro outros métodos poderão surgir, com menos ceticismo que os conceitos de FREUD e quem sabe o hipnotizador, o psicoterapeuta ou mesmo os diretores de asilos encontrarão melhores resultados e, melhores formas para os problemas mentais do homem. Uma coisa é certa, nenhuma ciência que se envolve com o estudo da mente humana sai totalmente ganhando ou totalmente perdendo, a ciência em geral nunca perde, pois sempre nutre o homem de conhecimento a respeito de si mesmo. Outras ciências poderão se interessar pelos problemas do homem, poderão como a Psicanálise tentar explicar a miserabilidade em que se encontra a raça humana, usando fontes nesta própria miserabilidade, porém nem elas jamais poderão tirar dos ombros do homem esse julgo, nem tirar a importância ou tentativa da Psicanálise neste sentido.

BIBLIOGRAFIA

Obras Consultadas

  1. CABRAL, Oliveira Eduardo Pinto de – Uma Breve História da Psicologia, Zahar Editores – Rio de Janeiro, 1972; 326 páginas.

  1. HEIDBREDER, Edna – Psicologias do Século XX – Tradução: Lauro S. Blandy, Editora Mestre Jou – São Paulo, 1978; 391 páginas.

  1. KELLER, S. Fred – A Definição da Psicologia – Tradução: Rodolpho Azzi, 3ª edição, Editora Epu – São Paulo, 1970; 109 páginas.

  1. LORAND, Sándor. A Moderna Psicanálise, Editora Gertum Carneiro – Rio de Janeiro, 1939; 518 páginas.

  1. MUELLER, Fernand Lucien – História da Psicologia – Tradução: Lélio Lourenço de Oliveira, Maria Aparecida Biandy e J. B. Damasco Penna, Companhia Editora Nacional – São Paulo, 1968; 442 páginas.

  1. MARX, Melvin H; Hillix William. – Sistemas e Teorias em Pscologia, Tradução: Álvaro Cabral, 2ª edição – Editora Cultrix – São Paulo, 1976; 755 páginas.

  1. MILLER, Georg A. – Psicologia a Ciência da Vida Mental, Tradução: Álvaro Cabral, Editora Zahar, 1964; 465 páginas.

  1. NUTTIN, Joseph. – Psicanálise e Personalidade – Editora Agir 6ª edição – Rio de Janeiro, 1972.

  1. WERTHEIMER, Michael. – Pequena História da Psicologia, Tradução: Lélio Lourenço de Oliveira, Editora Nacional, 2ª edição – São Paulo, 1976, 207 páginas.

Antonio Maspoli
Antonio Maspoli
Sou Antonio Maspoli, cidadão do mundo, Teólogo e Psicólogo. Deus é a minha herança pessoal, meu caso de amor! Deus encantou-me com o a sua presença. E abriu-me as porta do conhecimento do numinoso: "Eu cri, por isso compreendi" (Agostinho). Desde então dediquei a minha vida a conhecer a Deus. E a minha existência a compreender a natureza humana.

Deixe uma resposta

Espaço para interações e depoimentos.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *