Doze Passos Para o Enfretamento Da Depressão

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Primeiro passo –  As pessoas adoecem por que são pessoas

As pessoas adoecem, sofrem e se deprimem e as vezes morrem, por que são pessoas humanas (JOHNSON, 1953, p. 15-16). A doença não tem só uma causa teológica, espiritual, ou pecaminosa, tem sim uma causa ontológica. E no mais das vezes a enfermidade é multicausal, tem v[arias causa. Todo ser humano é passível de sofrimento e de enfermidades. Parece que até hoje a religião ainda não resolveu esse problema. Os cristãos são passíveis de depressão, assim como de doenças cardíacas, asma, prisão de ventre e outras enfermidades comuns. Nem sempre, a depressão carrega uma expressão negativa. No mais das vezes, pode representar uma estratégia de adaptação às mudanças naturais da vida adulta, como doenças, desemprego, perdas, transformações bruscas da vida cotidiana etc. Se alguém duvida desta verdade leia o livro de Jó.

A experiência de perdas, danos, sofrimento e depressão no Livro de Jó desafia-nos a lidar o sofrimento sem barganhas com Deus. Jó é um convite a reflexão sobre o lugar da dor e do sofrimento na experiencia humana. Jó nos ensina a viver com Deus, na caminhada do povo de Deus sem a ilusão de que estamos protegidos da vida. Ensina-nos também a não julgar os nossos irmãos e irmãs deprimidos e sofridos como aconteceu com os amigos de Jó. Jó nos ensina sobre o amor incondicional de Deus e a solidariedade em meio a dor e a depressão. (JUNG, 1980).

Depoimento 1. Sujeito J. Sexo: Masculino. Idade: 72. Nível de escolaridade: Terceiro Grau Completo. Profissão: Pastor protestante jubilado

“Descrição da depressão: Inicialmente devo apresentar-me: meu nome é J nascido em 18/04/1937, em Joassuba-ES, casado, pastor presbiteriano há 28 anos, pai de um casal de filhos, residente em uma chácara em Itapemirim-ES. Nasci e fui criado em um lar protestante, seguindo fielmente a doutrina reformada, criada, defendida e difundida pela Igreja Presbiteriana do Brasil. Como cristão, sempre acreditava e refutava a ideia que o crente tivesse depressão, e se quer poderia passar por uma experiência ou apresentar um quadro depressivo. Em primeiro lugar, pensava que a depressão não atingia uma pessoa que professe e tem a Cristo Jesus como Senhor e Salvador de sua vida. Em segundo lugar, acreditava que o reconhecimento da presença dessa doença em um crente demonstraria fraqueza ou falta de fé por parte de quem era acometido pela mesma. Diante dessa preconcepção, passo a relatar minha experiência de vida quanto ao fato de eu, até então, rejeitar e negligenciar a possibilidade do crente vir a ter depressão e precisar pedir ajuda e buscar o tratamento médico, principalmente por ser pastor.

Antes de relatar o meu acometimento pela depressão, importa historiar um pouco sobre o que certamente deve ter contribuído para tal experiência. Em minha família, quando eu ainda era jovem, Jerônimo, meu pai, teve seu primeiro AVC. Depois de trinta dias, sofreu o segundo e, depois desse, após quarenta dias, veio a falecer. Semelhantemente ao que ocorreu com meu pai, um de meus irmãos teve seu primeiro AVC e, depois de trinta dias, sofreu o segundo, e após quarenta dias deste faleceu. Mediante esse histórico familiar, passo a relatar o que aconteceu comigo.

No dia em que comemorávamos o centenário do presbiterianismo no Estado do Espírito Santo, quando retornávamos de São José do Calçado, local em que se deram as comemorações, por volta das 19 horas, percebi que estava com princípio de AVC. Estávamos minha esposa, minha filha e eu de carona com meu genro, em seu carro ao volante. Por causa do ocorrido, fui levado direto ao Hospital da Unimed em Vitória-ES, onde os médicos diagnosticaram-me e constataram o que até então eu suspeitava. Fiquei internado por três dias, isto em 27 de setembro de 2003. Passados exatamente trinta dias, tive um enfarto, fui socorrido, internado e, depois de alguns dias, estava de volta em casa. Desse último ficou uma pequena sequela física, uma leve perda de alguns movimentos no lado direito de meu corpo, que com um tratamento fisioterápico consegui recuperar depois de algum tempo. Fisicamente estou normal. Uma pequena sequela que ficou em decorrência dessas experiências foi a psicoemocional, que me leva a continuar em tratamento e acompanhamento médico. Como exposto, por causa do AVC e do enfarto por mim sofridos, veio, como em um filme em minha mente, os fatos vividos por meu pai e irmão, anteriormente narrados, que culminaram no falecimento deles.

Com isso em mente, estou querendo dizer que os quarenta dias subsequentes ao enfarto foram para mim como a eternidade, difíceis de serem enfrentados. Passei por momentos, experiências e lutas interiores que só Deus é testemunha. Como disse anteriormente, até então, não aceitava que o crente, ainda mais um pastor, como eu, pudesse ter ou passar por depressão. Assim imergi em meus conflitos, passando a ter crises de melancolia, solidão e “dores” internas que me levaram a um quadro clínico de depressão, o qual não tinha outra saída a não ser o tratamento que faço até hoje. Depois do período de quarenta dias, permaneci e ainda estou vivo pela graça de Deus. Não aconteceu comigo o que ocorreu com meu pai e irmão. Assim, vou levando a vida como Deus quer.

Como pastor, seguindo as normas da Igreja Presbiteriana do Brasil, da qual faço parte, ao participar da primeira reunião ordinária do meu presbitério PRGU [Presbitério de Guarapari], concílio eclesiástico do qual todo pastor presbiteriano está filiado como membro, pedi licença para tratamento de saúde. Ao ser afastado das minhas funções de pastor, entrei em um profundo estado melancólico e depressivo. Mesmo assim, em 2004 realizei atividades pastorais na Igreja em que trabalhava, mas a situação foi tão terrível que passei um bom período sem ler a Bíblia, até mesmo com indisposição para ouvi-la quando fazíamos o culto diário em casa. Mas isso não abateu minha fé. Ao retornar minhas leituras, consegui completar, durante um ano, três vezes a leitura da Bíblia, isto é, lia 10 capítulos diários. Foi nesse período que encontrei várias personagens bíblicas que tiveram dias piores do que eu, como Jacó, José do Egito, Jó, os profetas Elias e Jeremias, o rei Davi e outros. E por que não dizer o próprio Cristo, que em certo momento da vida disse: “A minha alma está profundamente triste até a morte” (Mc 14: 13). Daí, entendi que os servos de Deus também passam por horas, dias, meses, até anos de depressão e por experiências que às vezes fogem de nossa limitada e medíocre compreensão.

Mas o mesmo Deus que permite tal situação é o que restaura. Pela graça de Deus estou bem, morando em uma chácara ao sul do meu estado, que tive a honra de adquirir com a ajuda de Deus. Hoje sou, honrosamente, pastor jubilado [aposentado], privilégio dado por Deus, que aconteceu em abril do corrente ano [2009]. Mas dou graças a meu Deus porque pude servi-lo durante trinta e oito anos em seu reino. Essa foi e é a minha experiência e, por fim, posso afirmar o que nos orienta as Escrituras: “Ebenézer, até aqui nos ajudou o Senhor” [sic]. Soli Deo Glória!. Ministro Presbiteriano – IPB”(SIC).

Segundo passo  – O perdão incondicional de Deus como suporte para a mente do deprimido. Não alimente a associação entre o estado de depressão a qualquer forma de culpa moral. E, caso tenha havido culpa real no nascedouro do estado depressivo, receba o perdão incondicional de Jesus Cristo (Jo 2: 1-10). Observe as consequências da parábola abaixo, produzido por Antonio Maspoli e Araujo Gomes para fixar a realidade do perdão de Deus (2017) no livro Culpa e Graça.

A base para a construção dos relacionamentos humanos, inclusive com Deus, é o relacionamento desenvolvimento com a figura paterna e materna na primeira infância. Pesa também na construção dos relacionamentos futuros o relacionamento desenvolvimento nesse período com a figura do (s) cuidador (es).

As principais dificuldades para se vivenciar o perdão de Deus estão relacionadas aos conflitos psicológicos decorrentes da relação com a figura paterna na primeira infância. Pessoas que foram vítimas de abusos físicos ou sofreram com uma educação marcada pela repressão por parte do pai projetam a imagem que criaram da paternidade rigorosa em Deus. Geralmente apresentam sérias dificuldades para aceitar a compaixão, a misericórdia, a graça, o amor e o perdão de Deus. Relacionam-se com a imagem de um Deus cruel, criado à imagem e semelhança da figura paterna que os criou.

A introjeção da imagem de um pai cruel e a projeção desta imagem num Deus rigoroso desenvolve no sujeito uma consciência rígida, exigente, à semelhança de um julgador tirano. Ele geralmente apresenta enorme dificuldade para aceitar e perdoar os próprios erros e os erros e pecados de seus semelhantes. Nestes casos, quando o sentimento de culpa não se resolve com a confissão, necessário se faz buscar ajuda profissional, como a de um psicólogo, um analista, um conselheiro, em que o sigilo da confissão seja assegurado.

A proposta do Evangelho para solucionar a culpa é simples. O homem deve romper com seus mecanismos de defesa e assumir, diante de Deus, a responsabilidade pessoal pelos seus pecados, transgressões, erros e fracassos. Em seguida, confessá-los a Deus por meio de Jesus Cristo. “Se confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1 João 1:9).

Confessar, nesse caso, consiste em contar tudo para Deus em oração, fazer um relato do pecado, da transgressão, da culpa, e concordar com as promessas dEle em Sua Palavra, com o fato de que Cristo já efetuou o pagamento de toda a sua dívida, já levou sobre si todas as suas culpas como pecador. Cristo simboliza o sacrifício divino, o último sacrifício. Sendo assim, o círculo vicioso foi quebrado. Não se faz mais necessário a auto expiação, pois ela não precisa mais ocupar o lugar do sacrifício.

É possível que ainda reste a memória da culpa para o cristão e que a culpa venha a penalizá-lo pelos erros e pecados cometidos, mas, sempre bom lembrar, diante de Deus, toda a dívida já foi apagada: “Pois, para com as suas iniquidades, usarei de misericórdia e dos seus pecados jamais me lembrarei” (Hebreus 8:12).

Na fase aguda da depressão, por exemplo, o deprimido perde as condições bioquímicas do cérebro necessárias para assimilar e vivenciar a fé e as consequências benfazejas das promessas bíblicas. Por diversas vezes eu já ouvi cristãos deprimidos, leitores da Bíblia, devotados à oração, piedosos acreditarem que estão perdendo a fé, quando, na verdade, estão sofrendo de depressão. Nessa fase eu já presenciei mais de uma vez esses cristãos se apegarem aos textos condenatórios da Bíblia e os usarem contra si mesmos, aumentando, assim, o seu sofrimento.

Somente a fé no perdão incondicional de Deus, decorrente do amor incondicional de Deus pode resolver o problema da culpa humana. O perdão de Deus deve ser exercido de forma incondicional! Aquele que recebeu o perdão de Deus, deve perdoar a si mesmo de forma incondicional!

Terceiro passo – Nada nos pode separar do amor de Deus. A Bíblia diz em Romanos 8: 38-39: “Porque estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nem anjos, nem principados, nem coisas presentes, nem futuras, nem potestades, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor”. O amor incondicional de Deus consiste no fundamento para o acolhimento do deprimido. “Deus é amor” (1JOÃO 4: 12). Deus ama porque é da sua natureza amar. Seu amor é eterno (JEREMIAS31), imutável (8: 38-39) e incondicional (ISAIAS 49: 1) e sacrificial (JOÃO 3: 16).

Deus ama o cristão saudável e o doente. Ama aquele que se encontra em bom estado de saúde e ama especialmente o deprimido. Deus compreende o estado depressivo aceita a depressão como uma condição humana. Ao longo da história da salvação, seus filhos mais queridos ficaram deprimidos. Basta ler as histórias de Davi, Jeremias, Daniel, Jonas, Ezequiel, Elias etc. para comprovar essa afirmação.

                 Quarto passo – A graça de Deus como base para se compreender a saúde humana e uma possível superação da depressão. No Novo Testamento, temos duas palavras para graça: dom e káris. Nos dois casos, o sentido é o mesmo: presente. A teologia protestante define graça como um favor imerecido de Deus. A graça de Deus é o presente de Deus para o seu povo. E tal presente é Jesus Cristo e tudo o que sua pessoa e sua obra representam. Dizendo de outro modo, é o trabalho de Deus pelo seu povo: “Porque antiguidade não se ouviu, nem com ouvidos se percebeu, nem com os olhos se viu um Deus além de ti, que trabalha para aquele que nele espera” (Is 64: 4). A graça é tudo aquilo que Deus já realizou, tudo o que está fazendo, e tudo o que ele ainda fará pelo seu povo. A graça, portanto, é tudo que Deus já fez (SPURGEON, 2003).

A graça pode ser compreendida de duas maneiras. A graça comum manifestada pela revelação natural e que alcança a todos os homens, conforme ensinou Jesus Cristo no Sermão do Monte: “Para que vos torneis filhos do vosso Pai que está nos céus; porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e faz chover sobre justos e injustos” (Mt 5: 45). E a graça especial, aquela conhecida por todos aqueles que se tornaram filhos de Deus por meio de Cristo Jesus (Ef 2: 1-10 e 1Jo 5: 1-5).

Deus utiliza-se da graça comum por meio da natureza, de todos os elementos do cosmo, de todos os homens: médicos, curandeiros, psicólogos, xamãs, conselheiros, pastores etc. Já a graça especial de Deus é aquela que opera pelo Espírito Santo no coração do filho de Deus, conforme Ef 2:1. A graça comum e especial de Deus cobre todos os pecados, todas as enfermidades, todos os problemas humanos e opera em todos os homens e mulheres, em todas as circunstâncias e situações da vida: depressão, angústia, medo, síndrome do pânico, tendências suicidas, perdas etc. (Rm 8: 26-30):

Também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza; porque não sabemos orar como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós sobremaneira, com gemidos inexprimíveis. E aquele que sonda os corações sabe qual é a mente do Espírito, porque segundo a vontade de Deus é que ele intercede pelos santos. Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou.

Quinto passo –  O acolhimento familiar e comunitário. A depressão tem implicações morais. O deprimido pode não se sentir doente, sente-se, todavia mal consigo mesmo, com Deus e com o próximo. No caso do cristão, essa situação é mais complexa. Além de se sentir deprimido, permanece aquela sensação de que toda sua dedicação espiritual fracassou. Contudo, o sentimento de fracasso afetivo, físico, mental e espiritual é um dos principais sintomas da depressão, causado pela falta de serotonina no cérebro, só isso! As cobranças produzidas pelos amigos de Jó pós-modernos servem somente para aumentar a sensação de fracasso e abandono vivenciada pelo deprimido.

A Depressão pode ter causas espirituais, contudo é bom registrar que não é só isso. Julgar o deprimido como um fracassado espiritual só agrava enfermidade e mina as estruturas psicológicas do deprimido. Fica ainda pior quando outros cristãos lhe cobram uma atitude frente ao sofrimento. A cobrança aumenta o sentimento de fracasso e de impotência frente à dor.      Por mais que o cristão saiba quais são as causas de sua depressão – seja ela química, traumática, sistêmica, neurológica, ou até genética – isso não resolve o problema central: do deprimido: o sofrimento que se alimenta do sofrimento e gera mais sofrimento. Depoimento 2. Sujeito M. Sexo: Feminino Idade: 54 anos. Nível de escolaridade: Superior Profissão: Secretária/escritora/administradora

“M apresenta claramente indicio de sofrer de uma depressão reativa. Acredita que a sua depressão é produzida pela falta de suporte afetivo e estrutura familiar. “Vivia em uma busca intensa, estava perdida, e assim permaneci durante muitos anos. Além disso, tinha um tremendo complexo de inferioridade, era extremamente pessimista, e baixa autoestima, a ponto de me olhar no espelho e dizer que eu não valia nada, batendo em meu próprio rosto. Tive um pai violento e uma mãe amorosa que contrabalanceava as agressões – verbais – de meu pai. As agressões eram extensivas a todos os membros da família. Tínhamos uma família triste. Como consequência, tornei-me depressiva e meu irmão esquizofrênico. ”

M diz ter sofrido de depressão dos 15 aos 35 anos. M afirma ter sido curada da depressão com o uso de remédios, o apoio dos amigos e aconselhamento espiritual. A psicoterapia foi determinante para conscientizar M da importância de permanecer no tratamento. “Já não aceito a ideia de que o cristão não deve tomar remédios. Os remédios são bênçãos que curam pessoas. ” M fez psicoterapia com vários psicólogos.M destaca ainda a importância do apoio de amigos e da sua vida espiritual em seu processo de cura.

Por meio de amigos que me levaram a Cristo. Depois de passar pela religião católica, que em nada me ajudou. Porém, conheci um padre psicólogo que se tornou meu amigo, e que muito me ajudou, com ele falava de coisas que tinha vergonha de relatar aos meus mais fiéis amigos. Sim. Há ainda alguns episódios de depressão, mas bem mais leves do que eram antigamente. Com uma vida espiritual intensa e amigos fiéis e “curadores” que não me desampararam nos momentos difíceis foi que me curei. A vida espiritual foi absolutamente essencial, e essa vida cultivo até hoje, e sei que não poderei viver sem ela, assim como cultivo amizades que são preciosíssimas, das quais não abro mão. Hoje meus pais são falecidos, escrevi um livro sobre minha vida, no qual transmito uma mensagem de esperança cristã. Tive câncer – de mama – aos 46 anos e estou curada. Foi também a vida espiritual fundamental para a minha recuperação e, mais uma vez, os amigos. Quero dizer que os amigos em questão são cristãos que me ajudaram a levantar, além do grande amor que a minha mãe me dedicou. Em meu livro – que é meu grande depoimento – descrevo toda a minha trajetória de busca. Fui deprimida, mas sempre busquei sair daquela vida. Foi um caminho muito difícil, mas encontrei o que procurava” [SIC.

Sexto passo – Saúde e qualidade de vida como resultado da comunhão com Deus e da caminhada com o seu povo. Para ajudar quem sofre de depressão a reencontrar a confiança em si próprio e a não ficar passivo, amigos e familiares podem pôr em prática algumas regras (DEUS, 2008, p. 89). Ao notar que uma pessoa querida tem qualquer problema, é necessário conversar com ela para que tente descrever o seu estado de alma. Após ter determinado que se trata de um problema sério e não consiste apenas de estresse ou fadiga passageiras, é preciso convencê-la a consultar um especialista. Feito o diagnóstico de depressão, é importante fazer compreender ao doente que os medicamentos não têm um efeito imediato, mas que é preciso esperar pelo menos 2 ou 3 semanas até se obterem os primeiros benefícios. É, sobretudo, necessário encorajá-lo a buscar tratamento adequado. E motivá-lo a não abandonar o tratamento devido ao desconforto eventualmente provocado. Colaborar com o médico para o êxito da terapêutica pode ser útil. De fato, frequentemente, o doente não tem sequer a capacidade de concentração necessária para seguir as suas indicações. É preciso ter paciência com o doente e compreender que o seu comportamento não é voluntário. É conveniente estimulá-lo a não permanecer inativo, a cultivar interesses, mesmo que não se mostre entusiasmado.

É importante possibilitar atividades construtivas para o deprimido realizar sozinho: andar a pé; dar um passeio; ir a um espetáculo; ir a um parque; ir a um museu; assistir a um acontecimento desportivo; praticar desporto; correr; ir a uma conferência; fazer uma viagem; ir a uma festa; ir a uma manifestação; comprar qualquer coisa para si próprio; falar sozinho; cantarolar; projetar; programar atividades espirituais, sociais e de laser; praticar jogos como vídeos games, palavras cruzadas; ocupar-se de animais; fotografar; filmar; refletir, pensar, meditar; contemplar; rezar; estudar; tocar um instrumento; colecionar qualquer coisa; tratar do próprio corpo; relaxar.

O deprimido deve ser esforçar para participar de atividades lúdicas acompanhado: estar com amigos; brincar com os filhos; estar com as crianças da família; travar novos conhecimentos; desenvolver uma atividade política; desenvolver uma atividade de voluntariado; jogar cartas, damas, xadrez; comer, beber; participar de cerimônias; criticar, elogiar alguém; dar a sua própria ajuda; dar um conselho; discutir, conversar, falar; cantar em coro, recitar; dar um presente; visitar um amigo enfermo; participar das atividades comunitárias da Igreja ou da sua religião etc.

Sétimo passo – A prática de atividades físicas deve ser prioritária da rotina do deprimido. O exercício físico libera endorfina, que por sua vez tem importância no aumento da biodisponibilidade da serotonina. Aqui, entretanto, há uma dificuldade adicional: um deprimido não tem vontade ou energia nem para as pequenas coisas ou atividades; não é possível, portanto, cobrar do paciente atividades físicas relevantes no início do tratamento. É necessário esperar por uma melhora e, então, é possível começar a incentivá-lo.

O sol é bastante benéfico, pois age no organismo estimulando a liberação de hormônios como os produzidos pela suprarrenal [que serão importantes para os mediadores químicos cerebrais] e até substâncias específicas como a melatonina, importantes neuro-hormônios liberados ao anoitecer pela glândula pineal. A melatonina age como um “antidepressivo” natural e é importante na regularização do sono, além de possuir propriedades imunológicas.

Oitavo passo – existe uma ligação profunda entre sentimentos e pensamentos e entre pensamentos e sentimentos. Os sentimentos influenciam sua maneira de pensar, e os pensamentos afetam seu modo de sentir. Por exemplo: você se sente péssimo e fica pensando em coisas ruins. Os seus sentimentos serão modulados por estes pensamentos negativos, e seu humor se tornará negativo. Se você aprender a pensar de modo diferente, se sentirá também de outro modo. O próprio processo de pensar, o hábito de pensar, as coisas em que pensamos alteram o humor e são alterados pelo humor. O problema consiste em que o mau humor traz como consequência mais pensamentos negativos, que, por sua vez, agravam os sentimentos, formando um círculo vicioso com os pensamentos negativos num processo de retroalimentação continuo. (DAMÁSIO, 2011).

         Por isso brinque com os pensamentos pessimistas da depressão.  Se puder zombe especialmente daqueles pensamentos que o deprimem. O deprimido desenvolve a tendência de considerar seus pensamentos poderosos, mágicos mesmo. Pensamentos são apenas pensamentos, eles não têm tanto poder como o deprimido imagina. Os únicos pensamentos poderosos são os pensamentos de Deus. E estes nós não conhecemos. “Ó profundidade da riqueza, da sabedoria e do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos! 34Pois, quem conheceu a mente do Senhor? Quem se tornou seu conselheiro? 35Quem primeiro lhe deu alguma coisa, para que Ele lhe recompense? ” (ROMANOS 11:33-34).

Nono passo – Não se fixe na depressão. Dar atenção à depressão é como agasalhar uma serpente congelada debaixo do casaco. O calor do corpo vai aquecê-la e fortalecê-la e ela irá mordê-lo em primeiro lugar. Portanto, não a negue, mas não a sente no trono de seu ser como senhora de seus sentimentos. Você não é o único deprimido no mundo. Somente no Brasil são mais de 10% da população. Sinta-se unido a todos os deprimidos do mundo. Sinta-se pertencente a essa comunidade, isso diminuirá a sensação de isolamento própria do deprimido.

Use a depressão. Não a deixe usar você. Você deve saber, no entanto, que quem tem depressão de natureza química ou neurológica deverá tomar medicação com o mesmo carinho e simplicidade prática com a qual um diabético toma insulina. Muitas vezes, quando se detecta quais são os elementos químicos que estão faltando no cérebro, e se faz suplementação deles por via médica, as depressões vão desaparecendo à medida que os neurotransmissores vão se reequilibrando com a medicação apropriada. Tenho visto pessoas que sofriam de depressão crônica por décadas ficarem completamente boas de seus desconfortos, apenas fazendo reposição de elementos químicos que faltavam no corpo.

Décimo passo – Em frente a solidão da depressão- Em termos psicológicos, uma melhor conceituação de solidão deve considerar pelo menos os seguintes aspectos: falta de significado e objetivo de vida; reação emocional; sentimento indesejado e desagradável; sentimento de isolamento e separação; deficiência nos relacionamentos (Tamayo, 1984).

A solidão pode produzir um sentimento de alheamento do indivíduo em relação aos demais seres humanos, levando-o a um questionamento sobre as origens e o sentimento da existência. De onde vim? Para onde vou? São perguntas que podem surgir nestas circunstancias. Reação emocional: geralmente, o sentimento psicológico de isolamento é que caracteriza a solidão.

Sentimento indesejado e desagradável: A solidão, às vezes, pode ser acompanhada do sentimento de angústia, produzindo um sofrimento a mais naquele que está privado de relacionamentos íntimos mais duradouros. A solidão da depressão produz deficiência nos relacionamentos: esta é uma das características de grande parte dos solitários, que culmina por produzir uma espécie de feedback em todo o processo de solidão, realimentando-o Tamayo (1984.

O que caracteriza a solidão é o seu aspecto puramente psicológico. É o sentimento de estar só, acompanhado da constatação da separação emocional do outro. É a falta de interação e de comunicação emocional entre um indivíduo e outro ser humano. O outro pode, inclusive, estar próximo geograficamente; no entanto, a solidão impede qualquer aproximação psicológica, afetiva. Como ocorre com o solitário em meio à multidão: todos estão presentes e, ao mesmo tempo, tão distantes, próximos e, todavia, separados. “A solidão não é a mesma coisa que estar só. A solidão é sentir-se só” (Ellison, 1980, p. 29).

         Seja autêntico. Procure conhecer a si mesmo. Respeite seus limites. Busque a natureza, o ar livre, a praia, a piscina, o sol, o pé no chão, a grama, a terra, as fontes de água, as atividades físicas, o toque, o amor, o sexo saudável, a companhia de amigos, os papos diferentes e, sobretudo, descanse no amor de Deus. Sei que uma pessoa deprimida quer se prender dentro do quarto, fechar a janela e se enterrar na escuridão, noite e dia, mas há vida lá fora esperando para acontecer!

         Décimo Primeiro passo – não fique com pena de si mesmo. Depressão ama auto piedade. Olhe para a depressão como uma condição humana, e não como algo paralisante. A depressão consome uma grande quantidade de energia. Logo, ela concentra uma grande quantidade de energia. Tome os remédios próprios sem culpa e sem julgamento moral e espiritual acerca do estado para o qual eles são receitados. Aprender a lidar com a depressão é um exercício de sabedoria espiritual. Caso não se sinta confortável com a medicação para depressão, ore pela medicação, em seguida tome os remédios passados pelo médico.

T é uma senhora de 63 anos de idade. Relata que ficou deprimida aos 40, quando teve seu filho. Uma típica depressão puerperal agravada pela morte abrupta do pai. T nunca tratou de depressão. Afirma que a depressão arruinou a sua vida pessoal e profissional. O casamento e a carreira acabaram com a depressão. T vive na mais absoluta solidão. Solidão esta imposta pela depressão. T passa a fazer sessão de psicoterapia. Depois de muita resistência T aceita visitar um psiquiatra. Seis meses depois T, está outra mulher. Renasceu das cinzas segundo ela. Recuperou a alegria de viver. Reaprendeu a sorrir. T lamenta ter ficado tanto tempo sem tratamento. Ela mostra-se confiante e resolve permanecer mais tempo no tratamento.

Décimo segundo passo – Quando estiver deprimido, ore. Deus jamais rejeitou as orações de um coração partido! E observe que a alegria e a tristeza têm o mesmo poder: gerar orações. A alegria produz ações de graça, e a depressão produz a expansão da comunhão com Deus, produzindo verdadeiras orações viscerais. As orações do deprimido são como gemidos de dor (ROMANOS. 8). Se a depressão não passar, crie uma rotina. Comece seu dia lendo a Bíblia! A Palavra de Deus tem força para alimentar o seu coração! Nela você encontrará relatos existenciais de pessoas deprimidas como você. Aprenda a orar com o lado obscuro da alma, o lado escuro da depressão. “Pois Deus que disse: “Das trevas resplandeça a luz”, ele mesmo brilhou em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus na face de Cristo” (2 CORINTIOS 4:6)

Os mesmos efeitos benéficos da meditação sobre a produção de serotonina podem ser encontrados na prática da prática da oração intensa. Pesquisas realizadas demonstram que as orações aumentam os níveis de serotonina no cérebro (DANUCALOV & SIMÕES, 2006, 309-310). A oração profunda é aquela prefigurada pelo Apóstolo Paulo:

“ Da mesma forma o Espírito nos ajuda em nossa fraqueza, pois não sabemos como orar, mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis. E aquele que sonda os corações conhece a intenção do Espírito, porque o Espírito intercede pelos santos de acordo com a vontade de Deus. (ROMANOS 8:26-27)

Antonio Maspoli
Antonio Maspoli
Sou Antonio Maspoli, cidadão do mundo, Teólogo e Psicólogo. Deus é a minha herança pessoal, meu caso de amor! Deus encantou-me com o a sua presença. E abriu-me as porta do conhecimento do numinoso: "Eu cri, por isso compreendi" (Agostinho). Desde então dediquei a minha vida a conhecer a Deus. E a minha existência a compreender a natureza humana.

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